segunda-feira, 28 de abril de 2014

Relatos Absurdos - #006



06 – A última carta de Ramona.

Seria um domingo normal e perfeito para os meus netos, onde almoçaríamos juntos, me contariam suas coisas de criança enquanto os pais deles se divertiriam realmente. Não que eu não goste dos meus netos, fui criada pra ter o casamento perfeito, envelhecer com saúde e de quebra ainda saber cozinhar um ou dois pratos com os temperos de minha avó, mas sinceramente ter caído e fraturado um osso desses e ter ficado no hospital descansado anda sendo um SPA. Fico deitada, vejo um pouco de televisão para matar o tempo e minha filha me deu um tocadorzinho de música onde posso reviver canções de verdade, longe do rádio e seus sucessos instantâneos. Mas o melhor de estar aqui agora é reler umas cartas antigas enquanto a ansiedade não me permite abrir a última carta que minha amiga de infância me enviou. Raimunda sempre foi pouco compreendida por todos, ou quase todos, eu sempre a admirei e nos tornamos boas amigas aos trancos e barrancos que uma amizade verdadeira tem. Dizia que fui criada para ser o modelo de esposa e por mais que discordasse, sempre aceitei o que Raimunda sempre chamou de sina. Frequentamos o mesmo colégio juntas e sempre tirava um tempinho para ouvir os disparates que ela contava. Eram planos realmente loucos, ideias bem absurdas, mas no fundo ela sempre me plantava a certeza de que ela realizaria todos. Lembro com clareza de quando ela fugiu de casa, naquela tarde, ela pediu o endereço de onde eu morava e prometemos manter contato sempre por carta, Raimunda temia ser rastreada se usa-se telefones ou afins. Atualmente ela até me envia números para ligar, mas nunca sei quando ela estará em outro estado ou país. Cresci, casei com o namorado que meus pais aprovaram e tive filhos em sequencia, mas sempre recebendo e imaginando como seria ter enfrentado a todos como minha amiga fizera. Em uma de suas viagens, ela me contou que começou o romance com um dono de circo e ele até tentara convencê-la a ser artista circense, mas o medo de ser reconhecida em e levada aos grilhões para casa a impediram. Na verdade, não lembro bem se era o dono do circo ou a mulher barbada, ou ela que havia se tornado a mulher barbada porquê havia se apaixonado pelo elefante ao qual julgava ser sua alma gêmea. Minha memória não é das melhores, mas que Raimunda juntou-se ao circo isso sim aconteceu, foi nessa época que passou a me mandar as cartas sempre tendo por remetente “Ramona”. Minha amiga sempre foi uma figura! Essa de se apaixonar pelo elefante foi em uma de suas viagens me enviou uma carta contado ter descoberto uma religião em que eles acreditavam que os elefantes eram o próximo estágio da evolução da alma. Custei a entender a ideia, mas nem sei que se ela havia acreditado então o melhor era sempre começar as minhas cartas de resposta com alguma palavra começando com “E”. Em outra carta, Ramona fala do término do relacionamento e que iria se dedicar a sua nova religião para a salvação de toda a humanidade, no ano seguinte vejo os selos do Tibet ou Nepal ou Índia, não sei, e Ramona também não contava o país que estava, apenas falava se a comida era boa ou não. Sempre abro um sorriso lendo as passagens narradas por ela, suas viagens fantásticas e tudo mais que aprendia. Soube que a mãe mandava dinheiro escondida do marido para ajudar a filha que decidiu fugir para não casar com o filho do prefeito. Estou um pouco apreensiva em ler essa carta que ela enviou no mês passado, sendo que já faz quase um ano que não dá notícias e seus telefones não funcionam mais. Discutimos até uma vez quando finalizei uma carta chamando-a de “Ramona DDD DDI” em que ela respondeu a carta apenas com palavras obscenas escritas em diversos idiomas. Ramona sempre soube como me chocar. Mas é melhor abrir a carta, espero que dessa vez ela decida me visitar já que faz 27 anos que não vem a cidade, está mais do que na hora de cessar a vida de aventuras. Assim que abro a carta, noto que não foi escrita a punho. Estou horrorizada. 30 anos reclamando de como ele desenha a letra “F” e agora vejo que nem se deu o trabalho de escrever para mim! Sinto que estou pra explodir de desgosto, mas... E se tiver acontecido algo de grave com ela? E se ela tiver morrido em alguma aventura? Será que ela tentou mesmo viaja por toda a china em um balão de ar? Meu coração acelera mais e mais a cada pensamento que me surge. Ramona querida amiga, seria essa sua última carta? Sinto-me culpada por não ter ido com você depois que minha filha teve as trigêmeas, que eu poderia estar te aconselhado e sendo o que você chamava de “voz chata da consciência” e tudo mais. As lágrimas bagunçam-me a vista, mas me preparo para o pior. Amiga, onde quer que você esteja saiba que sentirei sua falta. Me pego imaginando que tipo de elefante você irá se tornar. Oh, Deus! Minha amiguinha se foi? Enxugo o rosto molhado pelas lágrimas leio:

“ Eva,

Imagino que estranhe o tempo que faz que não lhe envio nada, mas virei missionária da Fé na Tromba Divina e por isso não ando com a mesma destreza para lhe responder. Pretendo ir ao Brasil em missão de fé, pois defendo a teoria de que quem morre aí reencarne em uma preguiça ou em uma anta, algo mais nacional. Está é a última carta que lhe escrevo vovozinha, por tanto trate de criar uma conta de e-mail.

Beijos, Ramona DDD DDI.

Obs.: Meu e-mail é plugada_n@ramona.com e não responda essa carta, blz (tudo bem)?”

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Relatos Absurdos - #005


05 – Romances à Capela 


Faltam 5 minutos para eu cumprir o que me prometi durante toda a vida. Na verdade, não sei qual é a função dessa escolha, pois sou feliz. E não é algo que alguma banda atual possa cantar, eu me refiro ao amor e não ao que vendem em lata. Decidi reencontrá-la hoje, ela que me faz tão feliz e me acompanha a cada nova jornada. Sou fotografo de uma grande revista de turismo e confesso que dei sorte pra conseguir esse emprego e ralo bastante para mantê-lo. Viajo o país inteiro, países inteiros pra ser mais exato e ainda sou apaixonado, só nunca entendi o que é morrer de amor, minha santa me faz feliz. Sinto que a gente compartilha a mesma alma, o mesmo espírito de caminhar na órbita do planeta, de um pouco da Via Láctea enquanto discutimos Caetano. Faltam 4 minutos e não vou me perdoar caso eu estrague tudo agora. Faz 15 anos desde a última vez que voltei para essa cidade. Sinto que me sufoco e que nunca vou sobreviver até o momento de dormir, ninguém entende quem tem um sonho louco de conhecer o mundo, de viver com as raízes plantadas no ar, lembro que tinha oito anos e já desenhava o que eu chamava de fotografia. Minha mãe ria muito comigo dessa minha mania de sonhar acordado, mas sabia que no fundo ela apostaria em mim, me dava um beijo na testa e dizia: “Meu filho, esse mundo ainda vai ser pequeno pra você”. Quando ela morreu, senti que o mundo estava bem maior e pesando em minhas costas e ser o alvo das brincadeiras da escola só foram pior quando pararam de me ver, tinha virado o sem-mãe da cidade, mas daí conheci minha Ana em um desses dias de muita chuva e muita fome em que cai na calçada de sua casa, ela devia ter mais ou menos minha idade e me deu comida. Sempre fazia questão de passar lá e levar frutas da temporada para ela e a mãe dela que sabiam me nome e faziam-no soar bonito como uma fotografia. Faltam 3 minutos e tenho certeza que essa ansiedade não vai me deixar bater a porta, vou me ater ao que tenho em mãos e dar meia-volta, ela não está mais aí, algo muito pessimista me diz pra fingir que não estive aqui. Aquela janela ainda é igual, ainda a posso ver sorrir. Ana. Lembro-me de uma da última vez que sorri em minha ilusão de infância, já com os meus 38 anos, diferente de muita gente, ainda trago em mim os sonhos de infância, só que aprendi a cuidar do meu coração, já que as feridas dele demoram mais a sarar que as dos joelhos. Pedi algum prato com macarrão, mesmo não gostando tanto de massa, lembro que minha Ana é apaixonada. Diz ela que a faz se sentir na Itália. Pus a minha santinha na mesa, aquela que a Ana me deu há muito tempo, e a imaginei ali conversando comigo, perguntando do meu dia. Apreciando as últimas fotos que tirei em uma viagem ao litoral. Comentei e sorri das memórias que tenho e divido por nós dois. Minha mão fica suada, sinto que vou gaguejar, mas sei que Ana iria apenas sorrir com os olhos, algo que só vejo nela. Algo que tenho certeza que sei que ela tem e me encanta, me fascina há 30 anos. Volto a sorrir olhando pra minha fantasia, mas sei que a vida é curta e viajei e vivi tanto, eu e minha santinha viajamos e sorrimos e dançamos e cantamos juntos, mas por mais lindo que tudo tenha sido, nosso último jantar me fez querer bater a sua porta Ana. Me fez rever aquela cidade onde nos conhecemos e que fui embora quando quis contar meu plano de fuga pra você. Falta 1 minuto pra eu chegar na sua porta, trouxe margaridas por acreditar que seja realmente sua flor favorita, por no fundo eu saber que em uma das minhas fantasias você me dizia como elas te transmitiam paz. Na minha última viagem de trabalho, passei pela capital e vi um conhecido de infância que havia me dito que Ana estava morando outra vez em nossa terra natal, que morava sozinha, pois a filha havia casado a pouco e o marido falecido há 6 anos, soube que ainda conta histórias para crianças e dá aula de línguas, aposto que seja Italiano, aposto tudo como ainda tem aquele pingente em forma de gota. Estou agora em frente a sua porta Ana, em frente ao meu maior medo de infância e quero dizer a mim mesmo que perdi o medo de você me dizer não, mas não saberia voltar as minhas ilusões sem você me ajudando a encontrar meus sapatos ou eu te explicando sobre as diferentes lentes. Espero que você abra a porta, acredito que vai me reconhecer e perguntar se ainda me chamo Adalberto. Vou te responder sorrindo que sim, que desisti de mudar meu nome só porque sempre apostei que você iria me procurar e se eu tivesse trocado de nome seria meio difícil achar. Olho para o relógio e faz 2 minutos que estou do outro lado da rua, ainda não atravessei a rua.