quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Olhar de barro.


Sabrina não atendia o telefone, nem respondia as inúmeras mensagens ou dava algum sinal de vida. Ela era aquela menina perfeita criada na régua religiosa de sua família. Cercada pelas paredes do pecado, ela não cresceu. Em nosso primeiro encontro percebi que ela já havia me visto antes e aceitando meu eu enquanto eu a julguei pela aparência. Ela sempre diz a coisa certa e educada. Não entendo o que se passa ou pior, não quero entender. Ontem saímos para tomar um sorvete e é aí que a gente ri, tocamos nossas mãos e eu comparo seus tons aos meus. Seu calor tão bom e o pulso que ganha força ao embalo do tambor desse sentimento novo. Não sei quanto tempo ficamos nos olhando, mas foi o bastante para que a mãe dela, abruptamente, a leva-se de mim. Foi uma eternidade de segundos. A mãe da Sabrina questionou aquela cena e não economizou pragas para mim. Ela disse ser uma mulher honrada, feita do barro, então a chamei de frágil, falei no impulso, disse que éramos feitas de amor. Sabrina ficou rubra e a mãe dela esbofeteou meu rosto. Gastei meu melhor sorriso, olhei em seus olhos e a fiz soltar os cabelos da que chamei de minha amada. Foram sinistros minutos de tensão. Sabrina beijou meu rosto, sorriu e eu entendi que ela tinha que ir para casa. A górgona a levou para casa. E eu estou aqui. 3 da manhã pensando se tenho ou tinha uma namorada. 

O café de Igor.


Ele dá voltas e voltas com a pequena colher em sua xícara de café meio amargo que o ajuda a pensar. Seus olhos não fitam os meus e seu sorriso já não habita aquele rosto de quem não conseguiu mais chorar. Era de fato um homem lidando com seus problemas. Pude notar pela barba bagunçada e no cabelo mal penteado que a pressa o obrigou a sair mesmo sem ter tomado pulso por uma decisão. Gostaria de tocá-lo e saber se está com as mãos frias, suadas ou trêmulas. Estamos aqui faz algum tempo. Não contei quanto, não acreditaria no relógio. Muito ou pouco tempo importa agora. Tento não terminar o refrigerante que pedi, mas não quero desfazer aquela cena. Igor encontra-se perdido olhando pra dentro e descrente de sua resposta. Eu vejo-me perdido e procurando algum sentimento diferente da mágoa que nos causamos. Ele em sua camiseta azul escura, aquele velho relógio dourado, mas sem aquele ar indiferente aos outros. Talvez ele tenha decidido parar de lutar, de fingir e aceitar que não somos mais os mesmos. Vejo pela janela da lanchonete que o sol vai se pondo e ainda não trocamos mais que um “oi”. Encontro-me no campo das incertezas, pois quando estou com ele sempre é assim. Tento não culpá-lo pelas decisões que tomo, das palavras ásperas e das tentativas de arranhar o seu ego semi-monumental, mas meus olhos não escondem o apreço e o carinho. É uma paixão infantil que rodeia nossas mãos juntas. Tudo era clichê quando estávamos juntos. Acho que comecei a chorar e vejo que ele esta ficando mais vermelha a face, eu espero que esse seja o incentivo que falta e lhe faça falar. Ele levanta, vejo que perdeu um pouco medida, mas não comento. Vejo não tocou minha mão e leva as suas ao rosto como se fosse proteger a vista do sol, mas já é noite e ninguém faz assim contra a luz do luar. Foi difícil tomar uma decisão. Sinto a dor do que eu já sabia que seria o fim quando recebi sua ligação convidando pra conversar. O aperto do peito já não é o mesmo de horas atrás. É como uma avalanche de sentimentos desabando em mim. São todas as coisas boas que não viveremos mais tomando novo rumo em meu peito. Espero que ele seja feliz e que encontre alguém que o ame, que aprecie o seus gostos por comidas estranhas, sua fascinação por relógios e suas qualidades de menino. Entendo que eu não soube apreciar, mas sei que vou sentir falta. Fomos uma coisa confusa, mas não quer dizer que foi ruim. Só não somos mais.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Enlatados. Embutidos.


Omar cantou mil vezes aquela canção sobre nós dois. Ele soube desde o primeiro instante que aquilo era amor. Ele nunca foi o melhor exemplo, mas sempre foi tido como uma boa pessoa. Sonhou ter filhos, ensiná-los a pescar e a frequentar a igreja aos domingos. Não que ele fosse religioso, mas considerava um bom hábito: sentar e ouvir. Ele queria estar lá para ver seus futuros filhos andando de bicicleta pela rua e preparando algum tipo de apresentação escolar para que contassem o quão atencioso era seu pai. Ele ria, sorria e logo então voltava a sua forma natural. Segurava minha mão sempre que podia e dizia que ainda iríamos viajar. Não o mundo, pois Omar não era tão ambicioso ou sonhador, mas talvez conhecer o litoral ou desbravar a capital.  Ele não era desses de sonhar tanto, pois temia o pecado e as decepções do cotidiano. Ele nunca me perdoou por ter ido embora. Qualquer ônibus me faz lembrar dele gritando meu nome. Mil vezes é como gosto de pensar para tentar me sentir mal. No fundo sempre o admirei por ser medíocre. Quisera eu caber em seus sonhos enlatados, mas não saberia ser o padrinho das ilusões que ele agonizava pra si.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Divagar.



O cheio da terra molhada sempre vai me fazer reviver a vida que você me deu. Não sei dizer quanto tempo vaguei sozinho. Você criou um mundo no qual eu quis estar. Nós dois juntos como deveria ter sido. Queria dizer que não sofro, mas vem sendo difícil. Solidão era tudo o que eu tinha e você me estendeu a mão, me foi abrigo contra o tempo ruim. Nunca havia chorado lágrimas tão gentis. O prazer de ser pequeno em seus braços me fez crescer. Amanhã irei passar por aquela cidade que nos uniu. Lembro que éramos tão diferentes, você tão confiante e eu um nada, uma amargura, um cinza. Você me falava sobre sentimentos que podiam fazer milagres, me contou dos seus credos e me incluiu em suas preces e eu só pude te abraçar e pedir que nunca partisse sem mim. Te amei mais ainda no outro dia quando você acordou e afagou meus cabelos enquanto eu despertava. Você me fez acreditar em um deus de amor e eu encontrei deus em seus olhos e um dia você partiu. Continuo vagando, mas dessa vez não estou mais perdido, sempre tenho a sensação que vamos nos encontrar e você irá me guiar outra vez, contando sobre tudo que aprendeu e eu irei sorrir enquanto uma lágrima ira contornar minha bochecha. Irei viver até lá,

sábado, 17 de dezembro de 2016

A memória de Karol.



Karol encontra-se outra vez perdida olhando no espelho sujo de seu pequeno banheiro sem cor. Ela busca uma saída em meio ao castanho claro dos seus olhos de cílios volumosos. Queria estar procurando uma espinha, mas se vê lavando o rosto para fugir das lágrimas que ainda não cessaram. É um fluxo de tristeza que viaja em suas veias. O amargo de todas aquelas palavras não ditas são agora o fardo que pretende carregar, pois prometeu seguir e em nome do que foi bom. Karol sempre foi a mais tímida, a menor e a confusa. Seu metro e cinquenta e seis de altura, sua pele morena e seu cabelo bagunçado já não importava para sua amiga querida. Envolta em tanta dor, gostaria de ter ligado nas últimas semanas, mas sabe, em seu âmago, que nada poderia ter feito, pois ninguém nunca conseguiria impedir o que aconteceu. Todas as boas memórias postadas no mural da vida, aquela cadeira amarela e o sorriso de quem se foi estão ligados por um fio de sentimento. Saudade já tem cara de Maria.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O fim (ninguém)



Já não sou nem a sombra do que fui. Sinto o peso dessa dor em meu semblante. Vejo da janela toda a vida que já habitou em mim e se esvai. Queria alguém para culpar, mas quem mais restou aqui nessas cadeiras vazias. Não sinto mais nem o abraço do medo, já não sussurra em meus ouvidos os meus tão habituais demônios. No fundo, torço para que a própria morte me esqueça, mas vejo o seu rastro nas marcas do meu braço e no cair dos fios de cabelo que me restam. Torço poder voltar a sonhar mais uma vez, mas já não me importo com essa escuridão. Ouço minha respiração e quase sinto que esse corpo já não dói. Minha estupidez me assusta. Devo estar sendo tragado por um anjo. Foram anos de prática no cigarro e acredito que aquelas cadeiras se deliciam com meus delírios. O próprio colchão rezou por meses por mim. Não o culpo por tentar, mas não dobraria meus joelhos outra vez. Meu fim é a bela odisseia do 203. Sou o ciclope, a lança e os gregos e esse câncer é o mar. Vou velejando para lugar algum, para ninguém e para o vácuo. Que a morte me suporte e que tudo isso tenha fim.

A desolação de Paulo



Nenhuma segunda-feira merecia sofrer tanto. Sexta passada o telefone de Paulo recebia uma última vez uma mensagem de Amanda. Há meses tudo estava muito estranho entre eles, mas ele nunca foi de entender sinais. Família, amigos e escola se tornaram lembranças de uma outra vida. Uma em que o pensamento chave do dia não era saciar seu desejo por um pouco mais de heroína. Amanda tentou por meses convencê-lo a saírem desse caminho escuro e vazio. Ela sempre o viu com olhos melhores do que os dele que por sua vez não estava mais enxergando nada além de sua necessidade. O poço já não parecia ter fim. O último final de semana Paulo sofreu sua segunda overdose, mas a primeira sem sua amiga. Paulo nunca foi de entender sinais. Amanda largou sua boa vida para tentar tirá-lo dessa latrina, mas ele não conseguiu. Seus pensamentos estão dando voltas enquanto percebe que além daquela mensagem de adeus há apenas o vazio que Amanda deixou. Pensara consigo que deveria ter procurado por ela, dito mais uma vez que estava tudo sob controle e que ela era a única, talvez a última pessoa em sua vida. Naquele cruzamento da principal, Amanda já não está deitada pedindo comida para eles dois. Do alto daquela passarela Paulo confundia o sal de suas lágrimas com as gotas que a chuva jogava em seu rosto magro e sujo. Entre a saudade e a abstinência, ele entendeu que há meses o corpo de Amanda fora levado. Quem liga para outro viciado que assola as ruas dessa cidade? Quem agora estaria com aquele celular com a despedida de Amanda? Já caminhava para o quase noite e já nada mais importava. Ele, que nunca foi o melhor em entender sinais,sorriu ao ouvir a estranha risada de sua companheira em uma buzinada dos carros que seguiam em suas pressas para lugar nenhum. Ele gostaria de sentir naquele momento ela o abraçando ou dizendo eles deveria procurar ajuda. Ela sonhava sempre. Ele sempre a achou estranha. Estranho agora era a falta dela. O trovão de agora a pouco reuniu naquele corpo amassado a última partícula de desespero. Paulo jogou-se e no último instante de sua desolação lembrou, sorriu e aceitou que ela não errou o próprio nome na mensagem daquela sexta."A gnt precisa de ajuda. Essa num da mais. Qro outra vida pra ser .amada. bjos".

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

O entre-sol de Maria.


Maria sentara na janela e acendia outro cigarro. O rosto já não tinha o mesmo semblante de quem conquistava um sonho a cada dia. Já não percebia a felicidade daquele momento vendo o sol se pôr. Ou seria amanhecendo? Para quem aquilo serviria, não é? Ela desembaraçava seus volumosos cachos enquanto, com a graça que a pratica lhe trouxera, prendia o cigarro em seus lábios carnudos. Tudo aquilo já fora poesia. Simplesmente ela sentia-se marginalizada pela própria dor. Maria agora estava ali aguardando que aquele cigarro não partisse antes dela. Frente a toda aquela cena, talvez houvesse algum sentido. Quem sabe a ensurdecedora sinfonia de um engarrafamento não fosse um anjo e sua lira. Faltava muito pouco para o último trago. Mas depois de tanta dor, ela desistiu. Ecoou em sua mente, como a primeira gota de chuva que recebemos no rosto, a memória de um taxista qualquer onde, meio a tanta gente, martelou no ar frio de uma tarde nublada que a saudade é para aqueles que ficam. Maria conheceu o seu último palco na calçada fria e úmida do prédio onde residia.