quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Cortinas de Velcro - #04

(8) Do teu quarto, da cozinha, da sala de estar...

                O ódio que outrora se propagava dentre as calçadas, calcinhas e sutiãs de Laura Roberta agora estava sendo passado no caixa de supermercado na forma de duas latinha de cachaça, patê de atum, azeitona descaroçada e torradinhas de pão. Tudo previamente pesquisado em uma premeditação de anos de pesquisa sobre a vizinha que ela tanto desprezava em nome de sua religião. O plano que ela tramara estava pronto para entrar em ação. Era uma sexta-feira dessas que nem chove e nem para de molhar, a quenga da Rosy Laura estava comendo banana em uma clara apologia aos seus esportes corriqueiros, a bicha-babona da Bichosa estava ao lado como de costume espalhando sua espalhafatosa forma homoafetiva de falar que estava quente e, a nova e macabra vizinha Jannycleide estava a espreita na janela desejando a morte enquanto sua mãe cantava Calypso e tecnobrega. A tramoia de Laura Roberta era simples. Passava na casa de Jannycleide entregaria a encomenda cabalística comprada com o dinheiro que a mãe de Laura Roberta guardava pra pagar o dízimo, em seguida gritaria pra Bichosa que a nova moradora da rua toda esburacada com esgoto a céu aberto tinha notícias e queria ser fã legal a ela, pois admirava travestis e o jeito bichoso que ela tinha de atravessar a rua. Não haveriam erros, pois como uma boa quenga que se despreze, Rosy Laura não perdia comida, bebida ou jogos de azar que envolvem-se beber, comer ou ser bebida e/ou comida. Laura Roberta se ria que se mijava enquanto a moça do caixa dava o troco em confeito.
                Rosy Laura estava em sua calçada, comendo alguma coisa e pensando em trocar de lugar com a banana. Rosy era meio depravada, mas ainda sim tinha sentimentos; antes de cada mordida gentil dava um sorriso, imaginava e surtava só de pensar que na próxima vida poderia ser homem. Como um lampejo em sua mente pouca estudada ela pensou que homem era tão bom que queria até ser um. Como ela riu nessa hora. Bichosa estava ao lado, mas nada entendia. Ela gostava da companhia da bicha-amiga, mas pouco tinha a dizer e muito fingia ouvir, infelizmente a sobriedade a obrigava a olhar para o outro lado da rua. Esquisito pensar quanto tempo faz que aquela novata de cabelos rebeldes estava encarando ela. E não era aquela encarada que as inimigas davam para ela. Era algo que a fazia transbordar na cadeira. Ela se sentia quente como se fosse soltar puns de alegria. Mas todo o riso virou sensação de gastura quando avistou Laura Roberta entregando uma sacola à menina novata. “Certeza ser água benta”, pensou consigo Rosy Laura, mas pouca importava, pois uma decisão já havia sido formada: a novata iria ser convidada para a próxima suruba do fim de semana com os donos de uma banda de forró famosa na região, afinal, amigas dividem tudo.
                Bichosa estava perplexa, mesmo sem conhecer essa palavra. Como aquela cabelo de raposa suada se atrevia a se pendurar na janela da sua futura serviçal? Mesmo sendo adepta do universo das possibilidades, algo assim seria e continua sendo inaceitável. Mais rápido que uma gata no cio, bichosa foi ao açougue do pai do Pastelzin para espalhar um pouco de sua homossexualidade vibrante rosa-neon pelo ar e, também, levar o príncipe de futuro perfeito para a calçada da Rosy Laura para ficar de bobeira sendo que o movimento da rua estava fraco e o pai dele sempre o liberava para sentir com as minas fogosas da rua. “Se há alguém que pode vencer esse dragão é nosso cavalheiro cavalgante: Pastelzin” dizia a pequena travesti enquanto ria espalhafatosamente voltando a calçada da perdição, como chamava Laura Roberta e sua avó cega de um olho. Mas bichosa ficou outra vez com um sentimento confuso quando viu a menina mais imunda do mundo chamando ela. Seria um armadilha? Será que a bicha estava arrependida? Seria um pedido desesperado de ajuda para perder a linha? Tudo era possível, então a Bichosa atravessou a rua, muito faceira, muito desconfiada, tirando o cabelo imaginário da frente dos olhos, ponto a mão esquerda na cintura e quebrando de ladinho com cara de transformista. “Fala o que você queRRRR” enfatizou com o erre mais grotesco que habitava sua garganta estranha. Então Laura Roberta contou a pequena pomba-gira sobre o quão legal era a garota nova e que fora ao mercado fazer comprinhas, pois a menina gostaria de se enturmar. Bichosa estranhou as atitudes, mas sabia que esse dia chegaria. O dia em que a menina esquisita da rua viraria normal, usaria shorts e pararia de usar perfume de essência floral.

                Jannycleide não se sentia realmente motivada a estar naquela rua esburacada de esgoto a céu aberto. A vida ia bem na antiga cidade. Mas estava em paz, esses dias de mudança a ajudaram a refletir melhor sobre as escolhas que tomaria daquele ponto em diante. Antes, aceitar cachaça e tira-gosto de uma garota esquisita seria inaceitável ou ser alvo de observação de todos os adolescentes transeuntes, mas ela era carne nova no pedaço. Era tempo de fazer algo novo, sentar na calçada e contrariar a maré. Ela sentou na calçada da própria casa, abriu a cachacinha e mordia as azeitonas de maneira pausada, educada e mesmo assim atraente. Jannycleide mordiscava, sorria com os olhos e ainda assim parecia distante de toda aquela rua. Ela percebia os olhares. Ela queria naquele momento todos aqueles olhares, mas teve um que a prendeu. Alguém viu mais do que uma menina sentada mostrando a calcinha ou uma tentativa estranha de quebrar o gelo. Ela se sentiu verdadeiramente atraída. Metade do frasco de azeitona já fora degustado. Os minutos passavam, o clima ia ficando mais gostoso e o abandono da rua sussurrava que a noite chegaria cheia de pretensões. Talvez fosse o álcool aumentando o seu fogo juvenil, talvez fosse a vontade de agitar um pouco a rua. Quem sabe fosse hora de fazer amiguinhos? Uma bichinha do andar de pato e uma garota magra, meio esquisita e estranhamente familiar? E daí? 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Cortinas de Velcro - #03

♪ Dançando e cantando com a boca aberta: A HA HA HA HA...

A velha rua esburacada de esgoto a céu aberto já se encontrava em uma nova, mas de semelhança incontestável com a mesmice de antes. Poucos viram a morte chegar àquela velha senhora de cabelos oleosos e educação questionável. Todos da rua seguiam suas vidas e nossas personagens já não se perguntavam sobre a filosofia de ninguém. Nem tudo ia bem, mas pior seria se chovesse pra encher tudo de lama.
Bichosa se encontrava preocupada entre suas indagações de bichinha pão com ovo; estava perdida entre pensamentos com forte viés a continuar com os mesmos planos de ser bichascote – como ela se intitulava “bicha mascote” (por entender mascote como algo “digno”) – de sua amiga-vizinha Rosy Laura. Sua mãe perguntou se ele queria continuar na mesma escola o que foi um baque tremendo, pois surgia ali a possibilidade de ela começar o seu próprio reinado, ter sua própria estrela na calçada da fama, de não pegar filas na hora da merenda e ter seus próprios namorados, dispostos a tudo para vê-la sorrir. Tudo era possível. Também havia a possibilidade de apanhar de segunda a sexta e ser perseguida, humilhada e objeto de perseguição como no passado; no ano passado para ser exato. É, essa era uma possibilidade que não interessava tanto assim, se bem que os algozes do passado eram de interesse da Bichosa, mas ela havia prometido a si que não se deixaria ser brinquedo de homem ou menino nenhum, pois sua autoestima estava elevada com o discurso das cantoras internacionais que fazia parte do repertório diário de músicas de seu celular. Bichosa vivia para isso, para ser atrevida, lançar moda e ficar quieta para esconder da mãe que usava calcinha para ir ao colégio.
O mundo inteiro girava e Rosy Laura se sentia vazia. Ela não sabia bem se era graças a sua primeira ressaca ou graças ao sexo safado com o sobrinho da velha senhora que morreu na semana anterior. Foram sensações únicas. Não gemer e não fingir foram suas novas definições de “sexo seguro”. Mas a vida não seguia bem. Só de imaginar a volta às aulas tudo parecia vazio. Ela sentia um pouco de inveja da Bichosa que se via perdida em paetês e plumas. Vai ver se bicha era tudo de bom mesmo. Nem bem Rosy Laura abria a janela do quarto avistava aquela figura estranha, de cabelos compridos e joelho ralado vigiando o movimento da casa onde os vizinhos novos estavam ainda se acomodando. Era Laura Roberta, a perturbada garota que estudava com ela. Rosy Laura pegou sua calcinha de melhor elástico e atirou uma pedrinha sonhando perfurar o cérebro da infeliz, mas seu tiro só conseguiu acertar um cachorro na rua. “Se eu tivesse força o bastante para atirar com minha pepeca” pensou a adolescente de cabelo curto e seios redondos. “O que diabo estará vendo essa nojenta que nem reparou em minha tentativa de homicídio?” pensou Rosy Laura. Deve ser algo muito pecaminoso, safado e que não eleve ninguém ao reino dos céus. Logo Rosy Laura decidiu que iria sentar na calçada e curiar também. Mas antes, vestir uma roupa era o mais apropriado para evitar irritar a sua mãe.

Laura Roberta passou a semana inteira com um caderninho verificando a hora de entrada e saída da casa. As refeições, o que comiam e quando iam ao banheiro. Aprendeu leitura labial para fazer um “ranking” dos assuntos que circundavam a casa nova. A família Vascos estava chegando ao estado, pois viviam de aluguel na antiga residência e herdaram a casa da velha tia que tanto amavam. Alguns amavam, pois ela descobriu que a filha única da casa tinha abuso da velha. “Jannycleide”. Após muitas tentativas a Laura Roberta descobriu o nome e a grafia da indivídua. Mas algo era muito mais estranho que o nome dessa menina. Laura Roberta sabia que era algo novo, nem direito, nem cristão, nem coisa de quenga era. O mundo daquela pequena rua estava para mudar por completo. Laura Roberta sabia que não poderia ir contra a nova vizinha, mas sabia que tinha de planejar uma intriga mortal, que envolvesse até mesmo comprar bebida alcoólica para fazer uma arapuca. Sim, uma armadilha capaz de destruir o reinado de prostituição da vizinha quenga. 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Cortinas de Velcro - #02

(8) Olha lá quem vem virando, vem Diêgo com toda alegria...

Era uma tarde de pouco sol, poucas cores e muitos sons. Se ouvia ao longe o barulho singular de uns pobres chorando. Era um velório. Morreu a vizinha maluca que morava duas casas depois da Bichosa. Ninguém sabia o nome dela, não porque ela fosse louca ou gostasse de jogar penicos de mijo em quem pisasse na calçada que ela bradava ser dela. Ela era apenas uma dessas velhas esquisitas que a história não acrescenta a vida de ninguém. Rosy Laura entendia a vida como assim e tinha um ditado que aprendera com sua velha Tia Gertrudes: “um dia pica no outro rola”. Ela não sabia muito bem o que significava, mas usava nos mais diversos momentos, ela sentia ser algo profundo. Assistir aquele velório enchia ela de dúvidas, mas era familiar. Tia Gertrudes também morreu, também teve um monte de gente chorando, mas também tinha uma galera maluca do terreiro de Mãe Mafalda que a tia gostava de frequentar pra conhecer uns coroas malucões. Rosy Laura não entendia a morte, ela só queria que tudo aquilo passasse e sentiu no fundo do seu coração que perdoou a Velha Maluca que estava sendo levada para sua última morada. Tem gente que diz que ao levar uma bofetada, você deve dar a outra face, mas sobre penicos de mijo Rosy Laura não sabia o que fazer então perdoar era o melhor.
Bichosa estava toda animada, mesmo o povo ao seu redor estando no maior chororô e sua diva local só conversando pra trás, ela estava de olho nos menininhos que estava no velório. Possíveis parentes, possíveis amantes. Tudo era possível para uma bichinha lausenta e cheia de espinhas na cara. Mas enquanto a aprendiz de travesti conversava sozinha o velório seguia seu trajeto fúnebre, de músicas chorosas e passos desritmados. Engraçado mesmo era olhar a mãe da Bichosa na janela querendo entender que viadagem nova o filho estava ensaiando. Aquela rua esburacada ganhava novos sons. Um velho caminhão de mudanças estava se aproximando da casa da mais nova defunta da cidade. Bichosa correu pra dentro de casa pegar uma cadeira de balanço e uma garrafa d’água. Afinal um carro de mudanças teria de ter homens fortes, cansados e com sede e a bicha-mirim sabia de uma coisa: um copo d’água e um boquete não se nega a ninguém, palavras de sua amiga Rosy Laura.

Como toda movimenteira que se prese Laura Roberta estava de longe avistando tudo aquilo, torcendo pra ser convidada pra cantar algo lá no velório e chamar toda atenção do mundo. Quando o carro virando a esquina pra entrar na rua ela já havia identificado que se tratava de um carro de mudanças, que trazia uma mulher de uns 40 anos que usava batom, não era evangélica então, um cachorro magro que poderia ter alguma doença terminal e uma menina bonita, mas tinha cabelo curto como um machinho. Rosy Laura sabia que não eram amigos de congregação ou que não poderiam se falar na rua, mas se fosse uma nova putinha pra rua seria ótimo. “Inimigos dos meus inimigos são meus amigos” era o que ela gritava até sua mãe botá-la pra dentro com o cabo do rodo. Quem eram esses novos vizinhos que se mudavam para essa estranha rua esburacada de esgoto a céu aberto?

Cortinas de Velcro - #01

(8) Não me conte mentirinhas, dói demais...

Era uma vez, ainda nesta década, em uma pacata cidade serrana do interior do alto oeste potiguar uma rua toda esburacada, de calçamento seboso e esgoto a céu aberto uma menina que não era nada amada, pouco esperta, mas de fama de puta que só a mãe não sabia.  Rosy Laura, era de família tradicional, mas era fodida – ambinguidades no ar –, não ligava para as riquezas que seu avó perdeu no jogo do bicho ou para como seus pais viviam de passado. Rosy Laura era Machado de verdade: afiada, vívida e só quem derrubava madeira nesse cantinho quase esquecido por Deus. Como uma boa adolescente sem futuro que era, Rosy não tinha amigas, tinha as cachorra que andava com ela e, dentre as quais, uma pequena travesti do dente torto autointitulada Bichosa. Elas moravam frente a frente e após anos de briga, Bichosa reconheceu que era bicha mesmo e parou de se irritar com o óbvio. Viraram amigas dessa de assaltar camisinha e gel lubrificante no posto de saúde do bairro vizinho.
Rosy Laura não fazia sentindo. Fazia ensino médio, fazia boquetes, mas sentido que é bom: nada. Ela acreditava cegamente que uma hora estaria com o cara certo, que sairia de sua cidadezinha e iria morar na capital onde ninguém ia reconhecer naquela dama carola de igreja uma menina magra de higiene precária. Seus planos eram simples. Idiotas, mas simples. Bichosa não tinha tantos planos, só seguia sua amiga na esperança de fazer o possível pra se tornar a nova pegável do bairro quando sua amiga fosse embora. Mas entre uma ambição e outra o desejo desesperado de perder a virgindade – segundo palavras da mesma – ela queria ficar com aquele garotinho de corpo atlético, pernas grossas e cabelo comprido. Aquele que se acabava de babar quando Rosy Laura passava e que caia no murro quando alguém comentava que a bichinha era fuleira. Pastelzin era assim. Pouco estudioso, mas  já tinha um emprego garantido no açougue do pai. Bichosa piscava de emoção e não entendia ao mesmo tempo que agradecia por Rosy Laura nunca ter dado nem bola pra ele. Talvez uma hora sua sorte mudasse, talvez uma hora tudo desse certo.

Porém nem tudo eram pênis, digo flores, nessa bairro de classe misturada. Rosy Laura tinha uma inimiga mal amada e que tinha um bigode em potencial geneticamente herdado da mãe que era ex-testemunha de Jeová e atual evangélica da Igreja dos Gritos dos Últimos Arrebatados. Laura Roberta queria morder a cara de Rosy Laura. Era um ódio animal. Estudavam juntas desde sempre, ambas eram “Laurinhas”, mas a inveja de Laura Roberta crescia à mesma proporção que despontavam os seios de sua inimiga declarada. Laura Roberta prometeu a si mesma e a mulher da cantina que ainda ia tirar aquela garota do mapa, botar Bichosa na igreja para ser seu babão e casar com Pastelzin, afinal carne é um item caro e ela queria garantir seu futuro. Não importasse quantas vezes ela teria de ficar na calçado espiando sua inimiga passar ou quantos movimentos ela tivesse de inventar pra chamar atenção do povo da rua. Ela iria se vingar.