quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Um dia a mais.



Abri os olhos e como outras tantas vezes gostaria de tê-la vista. Já não sei mais o que me dói. Talvez o estranho seja que hoje não seja tão difícil perceber que essa dor é apenas minha. Gostaria de agora mesmo te ligar e dizer o quão miserável é aquele que a ama, mas isso não te causaria tanto impacto. Falando em voz alta percebo que não causaria impacto algum. Vivo essa dor tão minha assim como você que é de tão outra pessoa. Então não sei o motivo, o porquê de me doer tanto. Nenhum abraço que você meu deu foi para eu ficar, nenhum "boa noite" foi além da educação. Nem mesmo os beijos que você me deu são meus. Preciso tanto ir embora, mas estou nos cacos que você me achou. Sonhei antes de abrir os olhos que era apenas um teatro do mal, uma espécie de ficção, mas o amargo da vida real se faz presente. Esse é o único presente que você me deu. E me dói pensar nessa romantização. Nem essa falta que sinto devia ser pra mim.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Até mais ver.



Qualquer quarta-feira não passará de um dia qualquer depois de receber seu sorriso algumas semanas atrás. Na verdade, até escrever que não são apenas algumas horas de distância me dói pensar. E como dói, mas como é bom sentir isso. Pensei em 300 maneiras de não te assustar de manhã, cedinho. Primeiramente não sei se alguém nessa sociedade tão corrida está disposto a ouvir que agora é o amor de toda uma vida. Lancei a vista pelo quarto e incrivelmente como não notei nada na noite anterior. Foi um excesso de saudade. Faltava muito de mim naquela hora e quero pedir desculpas por ter sido você a pessoa usada. Mas sabe, essa coisa de olhar no olho de mostrar que você estava ali me fez estar também; um encontro de uma vida, de outra vida, talvez até da próxima, talvez nada explique, mas foi mais que ali. Uma cama pequena, duas solidões jogadas com uma frestinha de luz, regados pelo medo de se apegar, pela necessidade de encontrar, pelo universo inteiro que todo adolescente carrega. Observando você dormir, notei as falhas na sua barba como quem busca desenho em nuvem, vi seu gosto curioso por calçados. E vi camisetas, camisas e demais variações. Senti o cheiro da sua colonia junto ao seu suor naquele travesseiro que dividimos. E senti um calor no peito de saber que eu também estava ali, fazendo parte de um outro universo sem ser o meu, sem precisar medir nada, sem precisar justificar nada. Puxei, de leve, meu braço pra puxar a minha camiseta largada ao lado do seu celular. Acho que nada me doeu mais que sair daquela cama e caminhar até a porta. Imaginar você ali sem mim foi o pensamento mais triste da minha manhã. Cheguei a cozinha em algum momento e tomar água me acordou pra verdade que eu não queria acreditar. Era hora de ir embora. Talvez aquele seu celular nem tivesse meu número salvo, talvez você tenha dormido por ter desistido de me ver ir embora. Nenhuma pessoa normal se apaixona depois de transar. "São tempos líquidos", dizem as notícias de todo dia. Lavar o copo depois de tomar água também não deve ser coisa de alguém normal. Mas eu o fiz. Tão automático, tão sem pensar. Respondi também o aceno que ele me fez, o chamei pra sair, aceitei o convite de ver filme, convidei pra comer alguma gordice. Sorri. Sorri feliz. Enquanto fui ao banheiro, olhei pro quarto e o vi ainda deitado. Pergunto qual divindade é feliz me vendo sofrer exageradamente por uma paixão tão rápida. Passei um pouco de pasta nos dedos e simulei uma escovação e percebi que ninguém ama mais, pois já esperam a dor. Ninguém deveria mais escovar os dentes, pois estes estragam. Dos dentes a gente cuida, mas não deixa de empregá-los na sua função. O coração a gente cuida, mas o proíbe de amar. É confuso pensar nisso tudo. Mas eu me entrego. Não será o medo de sofrer que me impedirá de viver algo novo.

Avante, coração errante!

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Olhar de barro.


Sabrina não atendia o telefone, nem respondia as inúmeras mensagens ou dava algum sinal de vida. Ela era aquela menina perfeita criada na régua religiosa de sua família. Cercada pelas paredes do pecado, ela não cresceu. Em nosso primeiro encontro percebi que ela já havia me visto antes e aceitando meu eu enquanto eu a julguei pela aparência. Ela sempre diz a coisa certa e educada. Não entendo o que se passa ou pior, não quero entender. Ontem saímos para tomar um sorvete e é aí que a gente ri, tocamos nossas mãos e eu comparo seus tons aos meus. Seu calor tão bom e o pulso que ganha força ao embalo do tambor desse sentimento novo. Não sei quanto tempo ficamos nos olhando, mas foi o bastante para que a mãe dela, abruptamente, a leva-se de mim. Foi uma eternidade de segundos. A mãe da Sabrina questionou aquela cena e não economizou pragas para mim. Ela disse ser uma mulher honrada, feita do barro, então a chamei de frágil, falei no impulso, disse que éramos feitas de amor. Sabrina ficou rubra e a mãe dela esbofeteou meu rosto. Gastei meu melhor sorriso, olhei em seus olhos e a fiz soltar os cabelos da que chamei de minha amada. Foram sinistros minutos de tensão. Sabrina beijou meu rosto, sorriu e eu entendi que ela tinha que ir para casa. A górgona a levou para casa. E eu estou aqui. 3 da manhã pensando se tenho ou tinha uma namorada. 

O café de Igor.


Ele dá voltas e voltas com a pequena colher em sua xícara de café meio amargo que o ajuda a pensar. Seus olhos não fitam os meus e seu sorriso já não habita aquele rosto de quem não conseguiu mais chorar. Era de fato um homem lidando com seus problemas. Pude notar pela barba bagunçada e no cabelo mal penteado que a pressa o obrigou a sair mesmo sem ter tomado pulso por uma decisão. Gostaria de tocá-lo e saber se está com as mãos frias, suadas ou trêmulas. Estamos aqui faz algum tempo. Não contei quanto, não acreditaria no relógio. Muito ou pouco tempo importa agora. Tento não terminar o refrigerante que pedi, mas não quero desfazer aquela cena. Igor encontra-se perdido olhando pra dentro e descrente de sua resposta. Eu vejo-me perdido e procurando algum sentimento diferente da mágoa que nos causamos. Ele em sua camiseta azul escura, aquele velho relógio dourado, mas sem aquele ar indiferente aos outros. Talvez ele tenha decidido parar de lutar, de fingir e aceitar que não somos mais os mesmos. Vejo pela janela da lanchonete que o sol vai se pondo e ainda não trocamos mais que um “oi”. Encontro-me no campo das incertezas, pois quando estou com ele sempre é assim. Tento não culpá-lo pelas decisões que tomo, das palavras ásperas e das tentativas de arranhar o seu ego semi-monumental, mas meus olhos não escondem o apreço e o carinho. É uma paixão infantil que rodeia nossas mãos juntas. Tudo era clichê quando estávamos juntos. Acho que comecei a chorar e vejo que ele esta ficando mais vermelha a face, eu espero que esse seja o incentivo que falta e lhe faça falar. Ele levanta, vejo que perdeu um pouco medida, mas não comento. Vejo não tocou minha mão e leva as suas ao rosto como se fosse proteger a vista do sol, mas já é noite e ninguém faz assim contra a luz do luar. Foi difícil tomar uma decisão. Sinto a dor do que eu já sabia que seria o fim quando recebi sua ligação convidando pra conversar. O aperto do peito já não é o mesmo de horas atrás. É como uma avalanche de sentimentos desabando em mim. São todas as coisas boas que não viveremos mais tomando novo rumo em meu peito. Espero que ele seja feliz e que encontre alguém que o ame, que aprecie o seus gostos por comidas estranhas, sua fascinação por relógios e suas qualidades de menino. Entendo que eu não soube apreciar, mas sei que vou sentir falta. Fomos uma coisa confusa, mas não quer dizer que foi ruim. Só não somos mais.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Enlatados. Embutidos.


Omar cantou mil vezes aquela canção sobre nós dois. Ele soube desde o primeiro instante que aquilo era amor. Ele nunca foi o melhor exemplo, mas sempre foi tido como uma boa pessoa. Sonhou ter filhos, ensiná-los a pescar e a frequentar a igreja aos domingos. Não que ele fosse religioso, mas considerava um bom hábito: sentar e ouvir. Ele queria estar lá para ver seus futuros filhos andando de bicicleta pela rua e preparando algum tipo de apresentação escolar para que contassem o quão atencioso era seu pai. Ele ria, sorria e logo então voltava a sua forma natural. Segurava minha mão sempre que podia e dizia que ainda iríamos viajar. Não o mundo, pois Omar não era tão ambicioso ou sonhador, mas talvez conhecer o litoral ou desbravar a capital.  Ele não era desses de sonhar tanto, pois temia o pecado e as decepções do cotidiano. Ele nunca me perdoou por ter ido embora. Qualquer ônibus me faz lembrar dele gritando meu nome. Mil vezes é como gosto de pensar para tentar me sentir mal. No fundo sempre o admirei por ser medíocre. Quisera eu caber em seus sonhos enlatados, mas não saberia ser o padrinho das ilusões que ele agonizava pra si.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Divagar.



O cheio da terra molhada sempre vai me fazer reviver a vida que você me deu. Não sei dizer quanto tempo vaguei sozinho. Você criou um mundo no qual eu quis estar. Nós dois juntos como deveria ter sido. Queria dizer que não sofro, mas vem sendo difícil. Solidão era tudo o que eu tinha e você me estendeu a mão, me foi abrigo contra o tempo ruim. Nunca havia chorado lágrimas tão gentis. O prazer de ser pequeno em seus braços me fez crescer. Amanhã irei passar por aquela cidade que nos uniu. Lembro que éramos tão diferentes, você tão confiante e eu um nada, uma amargura, um cinza. Você me falava sobre sentimentos que podiam fazer milagres, me contou dos seus credos e me incluiu em suas preces e eu só pude te abraçar e pedir que nunca partisse sem mim. Te amei mais ainda no outro dia quando você acordou e afagou meus cabelos enquanto eu despertava. Você me fez acreditar em um deus de amor e eu encontrei deus em seus olhos e um dia você partiu. Continuo vagando, mas dessa vez não estou mais perdido, sempre tenho a sensação que vamos nos encontrar e você irá me guiar outra vez, contando sobre tudo que aprendeu e eu irei sorrir enquanto uma lágrima ira contornar minha bochecha. Irei viver até lá,

sábado, 17 de dezembro de 2016

A memória de Karol.



Karol encontra-se outra vez perdida olhando no espelho sujo de seu pequeno banheiro sem cor. Ela busca uma saída em meio ao castanho claro dos seus olhos de cílios volumosos. Queria estar procurando uma espinha, mas se vê lavando o rosto para fugir das lágrimas que ainda não cessaram. É um fluxo de tristeza que viaja em suas veias. O amargo de todas aquelas palavras não ditas são agora o fardo que pretende carregar, pois prometeu seguir e em nome do que foi bom. Karol sempre foi a mais tímida, a menor e a confusa. Seu metro e cinquenta e seis de altura, sua pele morena e seu cabelo bagunçado já não importava para sua amiga querida. Envolta em tanta dor, gostaria de ter ligado nas últimas semanas, mas sabe, em seu âmago, que nada poderia ter feito, pois ninguém nunca conseguiria impedir o que aconteceu. Todas as boas memórias postadas no mural da vida, aquela cadeira amarela e o sorriso de quem se foi estão ligados por um fio de sentimento. Saudade já tem cara de Maria.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O fim (ninguém)



Já não sou nem a sombra do que fui. Sinto o peso dessa dor em meu semblante. Vejo da janela toda a vida que já habitou em mim e se esvai. Queria alguém para culpar, mas quem mais restou aqui nessas cadeiras vazias. Não sinto mais nem o abraço do medo, já não sussurra em meus ouvidos os meus tão habituais demônios. No fundo, torço para que a própria morte me esqueça, mas vejo o seu rastro nas marcas do meu braço e no cair dos fios de cabelo que me restam. Torço poder voltar a sonhar mais uma vez, mas já não me importo com essa escuridão. Ouço minha respiração e quase sinto que esse corpo já não dói. Minha estupidez me assusta. Devo estar sendo tragado por um anjo. Foram anos de prática no cigarro e acredito que aquelas cadeiras se deliciam com meus delírios. O próprio colchão rezou por meses por mim. Não o culpo por tentar, mas não dobraria meus joelhos outra vez. Meu fim é a bela odisseia do 203. Sou o ciclope, a lança e os gregos e esse câncer é o mar. Vou velejando para lugar algum, para ninguém e para o vácuo. Que a morte me suporte e que tudo isso tenha fim.