quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Relatos Absurdos - Prombolo #03




PROMBOLO 353


Só a gente sabe do nosso passado, mas eu ainda o conto para mim mesmo como uma história que pretendo viver, como algo novo no meu dia. Talvez eu fantasie muito ou sinta saudades do que não vivi. Talvez eu tenha vivido sozinho. Quero dizer que a melhor parte de mim está presa ao seu nome, nas curvas do seu cabelo, no formato engraçado da sua orelha ou naquela blusa manchada de não sei o quê. Eu quero pedir desculpas e falar tudo àquilo que eu já disse outrora, mas agora quero dizer que é mais verdade, porque o sentimento não é mais só abstrato, é real assim como a gente. Deixa eu sentir a ponta dos seus dedos na minha nuca, quero sentir que pertenço a sua vida. A ideia de nós dois me interessa. Deixa eu chegar em casa e te reencontrar. Diga-me que assim que entrar em nossa casa vai me contar tudo sobre seu dia, tudo sobre o seu trabalho, os detalhes bobos, as conversas chatas. Fala que vai entrar de férias e que vamos para qualquer parte, que temos muito pra dizer. Que ainda temos tanto em comum. Quando chegar me sussurre qualquer coisa ao ouvido, eu preciso ouvir sua voz. Simplesmente nada faz o mesmo sentido sem te ter. Sinto que desmorono ou que o vazio de minha vida cresce junto aos anos de sua partida. Quero toda a sensação que chamam de loucura, quero sorrir e dizer que sou feliz, que ainda sou feliz. As cores e a vida que via através dos seus olhos me faziam maior, hoje está tudo opaco. Eu não pude dizer adeus ao meu sorriso refletido em seus olhos e de quem é a culpa de tantas lembranças? E o que eu seria sem um passado pra dividir? Vou procurar um lugar em que eu encontre um jeito de não ser quem fui. Quero separar a dor de mim, do seu nome e da falta de um adeus digno. Vou tentar dançar na solidão dessa cidade, olhar para céu sem melancolia. Já faz um tempo, mas eu quero amar outra vez.