terça-feira, 6 de maio de 2014

Relatos Absurdos - #008


#08 – Sua/Rua Nessa

Sim, sou puta. Pensei em outras mil maneiras de me apresentar, mas não sei, não seria eu começar meu nome. Poderia dizer começar falando que sou uma profissional do sexo, mas não conheço formação acadêmica pra isso. Vê? Não sou leiga. Não é porquê tive casos e mais casos com os professores de todas as minhas escolas que eu fosse deixar de estudar, sempre dizia a eles para não complicarem minhas notas, mas que também não fossem injustos ou coisa assim. Não é porque eu tenho a consciência do superpoder social que é ter uma vagina que eu vá ficar burlando a sociedade, afinal não sou uma pessoa vazia, sou vadia. Vamos por partes, minha mãe me deu o nome de Uanessa, com o passar do tempo as vizinhas invejosas me chamavam de “Rua-nessa”, mas de tanto ser mal falada eu me apresento sempre como “Sua-nessa”, sou ótima nessas tiradas e em fazer terezas (cordas improvisadas feitas de lençóis para fugir da casa dos homens casados). Sou resolvida demais, além de meu quadril, minha personalidade também foi feita “com as mãos”. Mas vamos lá, acho que meu relato pode ser absurdo justamente por ser assim, tão bem aceito com quem eu sou. Todo tipo de argumento já me foi me dado para largar essa vida, investir apenas na minha formação profissional e largar meus extras transando por dinheiro, mas não quero. Ser advogada é bacana, mas quando o cliente é muito safado me excita e daí a única lei que me importa vai ser a do sexo que é “entre quatro paredes, tudo rola”. Vê? Outra palavra perturbadora. Quem entendeu, entendeu, quem não volte duas casas. Então, pra não desfazer com a ética da profissão, prefiro pegar casos mais simples ou de pessoas que não vão me atrair e distrair meu julgamento, porque quando sou profissional sou íntegra na parada, mas quando estou no meu hobbie procuro não confundir as coisas. Lá em casa os boatos das minhas aventuras começaram a surgir aos meus 16 anos, graças a Deus que eles demoraram dois anos pra chegar, caso contrário papai teria infartado já que ele sonhara que eu seria menina de igreja. Falando nele, quando completei 23 e estava já esperando apenas o diploma da faculdade contei pra ele que era verdade que era uma mulher-machado, mas que não fazia apenas por dinheiro, que eu não era deplorável e que prometi nunca mais sair com qualquer amigo dele. Já mamãe foi mais compreensiva. Com o passar do tempo ela até foi se divertindo com as minhas histórias, suspeito até que eu carregue um legado da família. Ser chamada de filha-da-puta nem ofende, mas filha-de-uma-puta me dói. A ideia de ser uma puta qualquer tira todo o encanto de ser aquela moreninha da pegada certa, dos seios de fruta madura e dos lábios de cinema. Engraçado são as pessoas que já tentaram me chantagear por eu ser abertamente funcionária do meu prazer, porque tipo, por mais que eu goste de sexo, não é charme que banca minha pós-graduação, a prestação do carro ou as minhas contas. Ser advogada é bacana, mas não sei trabalhar no automático. O caso tem que me atrair, tenho de acreditar em quem defendo e ter a certeza de que não vou cair de amor pelo cliente. Meu segundo maior temor é me apaixonar e o primeiro é a camisinha furar. VI certeza vez um filme de uma garota de rua que se apaixona ou é apaixonável e a vida dela vira então uma bagunça. Acredito sim que não serei jovem para sempre, que ainda vou encontrar um homem que valha eu parar minhas diversões libertinas ou que também curta uma diversão assim, tipo um bacanal de emoções, mas enquanto o homem perfeito não aparece, vou procurando os errados que tenham dinheiro e usem fio dental regularmente, porquê nada pior que no pós sexo descobrir que fiquei com a vagina fedendo a boca. Boa noite.

Relatos Absurdos - #007


07 – Finada Florabella

Florabella de Oliveira Barros está morrendo. Ou melhor, morreu. Se ela fosse verbo, assim como “morrer” ela seria intransitiva, assim como “chegar”. Apenas chega, sem saber de onde ou o porquê. Apenas morreu, talvez tenha batido muito forte o coração contra a vida ou tenha sido a tristeza que tenha dominado todos os seus órgãos, mas não importa. Não sei qual a sua religião, mas na minha deixamos quem morre descansar e se for de algum interesse fazemos o seu legado ser conhecido ou útil. Conto a notícia com certo ar de desdém, mas sei que será melhor assim, pois sei que ela também desejava por esse dia. Aqueles olhos de quem acabara de acordar a cada vez que lhe dirigiam a palavra misturado com aquele perfume que só a mãe dela usava não fizera de Florabella alguém de se sentir saudades. Ela sempre soube que se pode viver nesse mundo fugindo de tudo, sendo sincera e acreditando em tudo que lhe diziam. A inocência a matou da pior maneira: aos poucos. Era uma tola que usava saias longas e blusas florais. Que insistia em vestir-se bem a todos os momentos, de aprender músicas para tocar no violão que um dia iria comprar, de aprender receitas as quais não sabia nem onde encontrar os ingredientes e por ver televisão como algo sem função na vida de uma menina politizada. Falar em Florabella é querer chorar por não a tê-la feito entender que o mundo cabe realmente em uma gaveta de calcinhas, cheio de novas antiguidades e velhas novidades. Talvez se ela tivesse se esforçado em fazer parte de algo não tivesse tido um fim, não tivesse enlouquecido ao ponto de sumir em si. A solidão não a fez forte, a fez louca, mas bem louca mesmo, dessas de atirar pedras na lua ou de apostar em dias melhores. Lembro de uma vez em que ela tropeçou no meio da rua e ficou engasgada com a vergonha. Começou a sufocar e sentir que suas últimas palavras seriam apenas miados. Ela deu sorte por ter sido levada ao hospital, mesmo sem saber bem como, mas foi. Tomou todo tipo de chá pra expelir aquele fragmento de vergonha que a fazia sentir-se tão pequena. As pessoas as chamavam de amiga e pediam que tivesse calma, mas eram apenas informações vagas, pois Florabella não tinha amigas e muito menos calma, ela queria ser outra pessoa ou ter coragem. Quem sabe algumas doses de coragem não fizessem acordar daquela sensação horrível? Foi justamente o que o médico a receitou, uns 500mg de coragispina aplicado direto na veia que leva ao coração, mas infelizmente ela se agarrou ao medo com todas as forças que tinha e encontrou nele abrigo. Depois desse dia até o espelho gritava pra ela, em tom de ironia que havia uma machinha de Florabella no medo dela. Não consigo sentir piedade de uma pessoa como ela, mas mesmo assim ainda sinto um certo remorso por não ter sido de outra forma o seu fim. Tenho certeza que a Paloma iria implicar muito com ela, que o André iria tentar convencê-la a beber com a gente no final de semana, que o Samir ia amarrar ela no carro e partir com a turma toda enquanto bolariam de rir com ela rezando feito uma louca para que os santos a tirassem desse tipo de maluquice. É viver tem muito disso de contrapesos. Ela morreu e teve de fazer isso. Escrevo isso agora para não esquecer dela, para me lembrar bem de que as minhas qualidades são legados dela e que só estou aqui graças as mudanças. Não sou mais aquela pura Flor e, de acordo com o Lauro nem sou “bela”, sou muito é gostosa e quero mesmo é que o mundo não acabe antes deu decidir se posso mesmo me reinventar para não acabar como acabei uma outra vez, em um tempo que já passou e que tinha lacinho marcado a última página lida.