quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Até mais ver.



Qualquer quarta-feira não passará de um dia qualquer depois de receber seu sorriso algumas semanas atrás. Na verdade, até escrever que não são apenas algumas horas de distância me dói pensar. E como dói, mas como é bom sentir isso. Pensei em 300 maneiras de não te assustar de manhã, cedinho. Primeiramente não sei se alguém nessa sociedade tão corrida está disposto a ouvir que agora é o amor de toda uma vida. Lancei a vista pelo quarto e incrivelmente como não notei nada na noite anterior. Foi um excesso de saudade. Faltava muito de mim naquela hora e quero pedir desculpas por ter sido você a pessoa usada. Mas sabe, essa coisa de olhar no olho de mostrar que você estava ali me fez estar também; um encontro de uma vida, de outra vida, talvez até da próxima, talvez nada explique, mas foi mais que ali. Uma cama pequena, duas solidões jogadas com uma frestinha de luz, regados pelo medo de se apegar, pela necessidade de encontrar, pelo universo inteiro que todo adolescente carrega. Observando você dormir, notei as falhas na sua barba como quem busca desenho em nuvem, vi seu gosto curioso por calçados. E vi camisetas, camisas e demais variações. Senti o cheiro da sua colonia junto ao seu suor naquele travesseiro que dividimos. E senti um calor no peito de saber que eu também estava ali, fazendo parte de um outro universo sem ser o meu, sem precisar medir nada, sem precisar justificar nada. Puxei, de leve, meu braço pra puxar a minha camiseta largada ao lado do seu celular. Acho que nada me doeu mais que sair daquela cama e caminhar até a porta. Imaginar você ali sem mim foi o pensamento mais triste da minha manhã. Cheguei a cozinha em algum momento e tomar água me acordou pra verdade que eu não queria acreditar. Era hora de ir embora. Talvez aquele seu celular nem tivesse meu número salvo, talvez você tenha dormido por ter desistido de me ver ir embora. Nenhuma pessoa normal se apaixona depois de transar. "São tempos líquidos", dizem as notícias de todo dia. Lavar o copo depois de tomar água também não deve ser coisa de alguém normal. Mas eu o fiz. Tão automático, tão sem pensar. Respondi também o aceno que ele me fez, o chamei pra sair, aceitei o convite de ver filme, convidei pra comer alguma gordice. Sorri. Sorri feliz. Enquanto fui ao banheiro, olhei pro quarto e o vi ainda deitado. Pergunto qual divindade é feliz me vendo sofrer exageradamente por uma paixão tão rápida. Passei um pouco de pasta nos dedos e simulei uma escovação e percebi que ninguém ama mais, pois já esperam a dor. Ninguém deveria mais escovar os dentes, pois estes estragam. Dos dentes a gente cuida, mas não deixa de empregá-los na sua função. O coração a gente cuida, mas o proíbe de amar. É confuso pensar nisso tudo. Mas eu me entrego. Não será o medo de sofrer que me impedirá de viver algo novo.

Avante, coração errante!