quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Relatos Absurdos - Prombolo #03




PROMBOLO 353


Só a gente sabe do nosso passado, mas eu ainda o conto para mim mesmo como uma história que pretendo viver, como algo novo no meu dia. Talvez eu fantasie muito ou sinta saudades do que não vivi. Talvez eu tenha vivido sozinho. Quero dizer que a melhor parte de mim está presa ao seu nome, nas curvas do seu cabelo, no formato engraçado da sua orelha ou naquela blusa manchada de não sei o quê. Eu quero pedir desculpas e falar tudo àquilo que eu já disse outrora, mas agora quero dizer que é mais verdade, porque o sentimento não é mais só abstrato, é real assim como a gente. Deixa eu sentir a ponta dos seus dedos na minha nuca, quero sentir que pertenço a sua vida. A ideia de nós dois me interessa. Deixa eu chegar em casa e te reencontrar. Diga-me que assim que entrar em nossa casa vai me contar tudo sobre seu dia, tudo sobre o seu trabalho, os detalhes bobos, as conversas chatas. Fala que vai entrar de férias e que vamos para qualquer parte, que temos muito pra dizer. Que ainda temos tanto em comum. Quando chegar me sussurre qualquer coisa ao ouvido, eu preciso ouvir sua voz. Simplesmente nada faz o mesmo sentido sem te ter. Sinto que desmorono ou que o vazio de minha vida cresce junto aos anos de sua partida. Quero toda a sensação que chamam de loucura, quero sorrir e dizer que sou feliz, que ainda sou feliz. As cores e a vida que via através dos seus olhos me faziam maior, hoje está tudo opaco. Eu não pude dizer adeus ao meu sorriso refletido em seus olhos e de quem é a culpa de tantas lembranças? E o que eu seria sem um passado pra dividir? Vou procurar um lugar em que eu encontre um jeito de não ser quem fui. Quero separar a dor de mim, do seu nome e da falta de um adeus digno. Vou tentar dançar na solidão dessa cidade, olhar para céu sem melancolia. Já faz um tempo, mas eu quero amar outra vez.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Relatos Absurdos - Prombolo #02


PROMBOLO DO FOGO

Começaria qualquer história pelo começo, mas apenas se eu acreditasse nela. A minha não teve ou talvez tenha tido tantos que não interesse a mim ou a você partir deles, mas há algo comum em todos: eu me perdia em todo começo e me encontrava em todo final; parece meio louco, eu confesso, mas o que seria da vida se fizesse sentido? Pra começar eu fui expulsa de casa no ano passado. Mas esse é outro começo da mesma história. Para começar eu fui levada da minha verdadeira família. Não é algo que eu possa provar, mas tenho certeza absoluta de que eu não conheci minha mãe. Sei que ela tinha o cabelo da mesma cor que o meu, talvez até mais bem penteado assim pro lado, mas o perfume é algo que eu memorizei. Seus olhos eu não lembro como era, mas sei que eles conseguem ver toda a dor que eu sinto agora. Sei que ela chora quando pensa em mim, quando pensa em todos os momentos que não passamos juntas.

Minha verdadeira mãe tem um coração, tem um sorriso sincero desses que usam tudo para compor a representação da felicidade. Da voz dela eu lembro que parecia com o som que o vento faz quando beija o rosto da gente, ela conseguia me trazer paz sem usar nenhuma palavra. Meu pai eu sei que é enorme, que me botaria no braço facilmente, era tinha um bigode engraçado, mas no meu pai esse bigode era o disfarce ideal para enganar qualquer tristeza. As vezes eu penso em como eles são incríveis, mas esses pais que me criaram e que me registraram são opostos a eles. Aquela mãe que não me olhava nos olhos tem a voz da culpa, nunca a vi sorrir ou ela tenha alergia à felicidade. Qualquer sorriso a irrita ou irritava, não a vejo faz um bom tempo e isso tem sido bom para nós duas. Meu pai era o típico monstro dos filmes: barulhento e com dentes afiados, um cheiro de inveja que não era desse mundo e cheio vinganças. Eu não entendia muito bem, talvez hoje eu ainda não fosse conseguir entender, mas depois de estar perdida me encontrei na ideia de fugir. Mas não fugir como das outras vezes, porque das outras vezes eu era pega, eu só servia para arrumar a casa. Lembro que meu primeiro brinquedo foi uma vassoura. Eu me encontrei quando eu fugi. O plano foi simples, ateei fogo na casa enquanto todos dormiam. Explodi tudo, me desfiz de toda a casa e me deitei esperando ser beijada pelo fogo. Talvez tivesse sido melhor, mas o desejo de viver coisas novas foi maior. Eu sei que eu corri. Eu gosto de pensar que voei. Isso, voei para o horizonte levando a noite comigo, parei pra dormir quando ela se foi. E fui fugindo. Conhecendo pessoas e fugindo até casar.

Parece uma jornada curta, mas foram noites terríveis. É difícil fazer caber em uma frase todas as noites de fome, todas vezes que apanhei, todas as dores que senti, quantas vezes não fui abusada. As ruas são lugares para se encontrar, mas eu só me perdia, eu apenas perdia e do pouco que me restou foi só dois dedos de esperança e o desejo de achar a chave do gás desse planeta pra explodir ele também. Mas um dia eu me perdi nos braços de outra pessoa que procurava alguém. Descobri que era uma pessoa quando me deu boa noite, quando me convidou pra revezar a guarda a noite enquanto dormia. Eu chorei e sorri. Ser protegida era um sonho que eu não tinha, mas a vida fez brotar em mim. Eu ofereceria tudo pra essa pessoa, mas o que eu tinha além de medo? Foi a noite mais longa do mundo, não levei nada pra sonhar comigo, mas sonhei com meus pais. Eu contava a eles tudo que eu havia feito, tudo que haviam feito comigo e eu chorava, mas eles choravam mais e mesmo com tanta tristeza eu estava feliz em dividir a minha dor, pois dor era uma das coisas que eu tinha pra dividir e eles aceitavam e me abraçavam e sentiam comigo.

Eu acordei abraçada em um novo desejo, senti na minha orelha uma flor e a pessoa do meu lado dizia que eu havia chorado enquanto dormia e que das minhas lágrimas uma flor brotara. A pessoa perguntou meu nome, falei que já havia usado tantos que tinha desistido de ser qualquer coisa, pois tinha tentado ser gente, mas ser gente nas ruas não dá. A pessoa riu e eu sorri. Eu senti que naquele riso havia muita história e que a maioria não foi bonita. Falei que eu estava no fim da minha história, mas ela não riu mais. Ela tinha dito que eu não poderia deixar que tivesse fim. Ri da ideia maluca de não terminar ali suja, faminta e esquecida por Deus, mas fazia tanto tempo que alguém não me ouvia que decidimos fazer amizade. Eu queria ela ali, queria até vê-la. Queria ter perguntado o nome dela ou se ela iria voltar, mas eu senti que chorei. Tirei o que a pessoa disse ser uma flor em mim, quis sentir o que era isso, que ouvir e cheirar e morder, que fazer brotar olhos novos, mas por hoje, a história vai começar assim: “era uma vez uma menina que se perdeu em meio ao fogo acreditando ser o fim e era o fim todas as noites, até que uma pessoa trouxe paz e cuidou de flor que nasceu de um sonho que brotou das ruas”. Depois de tanto tempo, de tanta coisa ruim, só hoje eu queria olhar quem me viu.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Relatos Absurdos - #009 [capítulo final]


#09 - Viola Sem Corda

Essa é a história de Claricia Violoeira. Diferente de outras Claricias essa era abstrata e diferente de outras violeiras, essa não tocava violão, apenas outras mulheres. Das mulheres mais nobres e violinas, as mais baixas e encorpadas, as violoncelos. O próprio prazer variava entre tocá-las e violá-las sem força, sem muita fala. A sedução era algo tão natural quanto respirar. Para Claricia, MPB era um funk, ela transpirava os clássicos internacionais, o patrimônio dos imortais da música intercalava com os gemidos de suas amantes, seria vulgar imaginar uma nova roupagem em um quarto iluminado por dois corpos nus. Não havia espaço ou tempo que contivesse o desejo que se fazia tão presente quanto à cama ou mais audível que o dedilhado que ela fazia no corpo alheio. As melodias sempre partiam do cruzar de olhos, do descruzar das pernas, dos sorrisos repletos de fascínio. A linguagem transportava de um órgão a outro, transbordava de corpo a outro. Claricia não existia. Ela não era, mas estava. Envolta no encontro de uma outra mulher, do abraço forte, do cheiro forte, do desejo intenso. Tudo seria louco, se não seguisse uma harmonia tão perfeita, nada na vida parecia fazer sentido até aquele momento. Não importava a qual órgão Deus delegou a audição, pois todos ouviam o que as almas soavam. A natureza havia se encarregado de cada detalhe. Um ou outro espumante não fariam mais diferença para aquelas que se tremiam ao se verem completamente nuas nos olhos de Claricia, pouca importava a suas amantes quem elas eram, na orquestra da sedução elas vislumbravam fazer parte, ouvir o som que o seu próprio corpo fazia ao serem exploradas com tanta precisão. Nos grandes salões do mundo, os grandes homens se encontram para discutir o futuro das guerras, dos seus milhões, mas pouco entendem de conquistas. Brincam com as fronteiras imaginárias de um país a outro, pensam que estão à frente das mulheres, protegendo-as, enganando-as, mas estão nelas os mais belos sons, as reais fronteiras, todas as vertentes de felicidade em seus vértices, em seus graus, em todos os seus ângulos. Claricia explorava sem força, conseguia ir além. Ela é a droga ainda não sintetizada que os homens tanto sofrem em busca. Nas matas dos corpos, nas florestas de almas, felicidades escondidas no oceano mais profundo do mundo: o coração de uma mulher. E lá Claricia está nadando e brincando com todas as musas do saber. As fadas não são tão diferentes das mulheres que sabem amar. 

terça-feira, 6 de maio de 2014

Relatos Absurdos - #008


#08 – Sua/Rua Nessa

Sim, sou puta. Pensei em outras mil maneiras de me apresentar, mas não sei, não seria eu começar meu nome. Poderia dizer começar falando que sou uma profissional do sexo, mas não conheço formação acadêmica pra isso. Vê? Não sou leiga. Não é porquê tive casos e mais casos com os professores de todas as minhas escolas que eu fosse deixar de estudar, sempre dizia a eles para não complicarem minhas notas, mas que também não fossem injustos ou coisa assim. Não é porque eu tenho a consciência do superpoder social que é ter uma vagina que eu vá ficar burlando a sociedade, afinal não sou uma pessoa vazia, sou vadia. Vamos por partes, minha mãe me deu o nome de Uanessa, com o passar do tempo as vizinhas invejosas me chamavam de “Rua-nessa”, mas de tanto ser mal falada eu me apresento sempre como “Sua-nessa”, sou ótima nessas tiradas e em fazer terezas (cordas improvisadas feitas de lençóis para fugir da casa dos homens casados). Sou resolvida demais, além de meu quadril, minha personalidade também foi feita “com as mãos”. Mas vamos lá, acho que meu relato pode ser absurdo justamente por ser assim, tão bem aceito com quem eu sou. Todo tipo de argumento já me foi me dado para largar essa vida, investir apenas na minha formação profissional e largar meus extras transando por dinheiro, mas não quero. Ser advogada é bacana, mas quando o cliente é muito safado me excita e daí a única lei que me importa vai ser a do sexo que é “entre quatro paredes, tudo rola”. Vê? Outra palavra perturbadora. Quem entendeu, entendeu, quem não volte duas casas. Então, pra não desfazer com a ética da profissão, prefiro pegar casos mais simples ou de pessoas que não vão me atrair e distrair meu julgamento, porque quando sou profissional sou íntegra na parada, mas quando estou no meu hobbie procuro não confundir as coisas. Lá em casa os boatos das minhas aventuras começaram a surgir aos meus 16 anos, graças a Deus que eles demoraram dois anos pra chegar, caso contrário papai teria infartado já que ele sonhara que eu seria menina de igreja. Falando nele, quando completei 23 e estava já esperando apenas o diploma da faculdade contei pra ele que era verdade que era uma mulher-machado, mas que não fazia apenas por dinheiro, que eu não era deplorável e que prometi nunca mais sair com qualquer amigo dele. Já mamãe foi mais compreensiva. Com o passar do tempo ela até foi se divertindo com as minhas histórias, suspeito até que eu carregue um legado da família. Ser chamada de filha-da-puta nem ofende, mas filha-de-uma-puta me dói. A ideia de ser uma puta qualquer tira todo o encanto de ser aquela moreninha da pegada certa, dos seios de fruta madura e dos lábios de cinema. Engraçado são as pessoas que já tentaram me chantagear por eu ser abertamente funcionária do meu prazer, porque tipo, por mais que eu goste de sexo, não é charme que banca minha pós-graduação, a prestação do carro ou as minhas contas. Ser advogada é bacana, mas não sei trabalhar no automático. O caso tem que me atrair, tenho de acreditar em quem defendo e ter a certeza de que não vou cair de amor pelo cliente. Meu segundo maior temor é me apaixonar e o primeiro é a camisinha furar. VI certeza vez um filme de uma garota de rua que se apaixona ou é apaixonável e a vida dela vira então uma bagunça. Acredito sim que não serei jovem para sempre, que ainda vou encontrar um homem que valha eu parar minhas diversões libertinas ou que também curta uma diversão assim, tipo um bacanal de emoções, mas enquanto o homem perfeito não aparece, vou procurando os errados que tenham dinheiro e usem fio dental regularmente, porquê nada pior que no pós sexo descobrir que fiquei com a vagina fedendo a boca. Boa noite.

Relatos Absurdos - #007


07 – Finada Florabella

Florabella de Oliveira Barros está morrendo. Ou melhor, morreu. Se ela fosse verbo, assim como “morrer” ela seria intransitiva, assim como “chegar”. Apenas chega, sem saber de onde ou o porquê. Apenas morreu, talvez tenha batido muito forte o coração contra a vida ou tenha sido a tristeza que tenha dominado todos os seus órgãos, mas não importa. Não sei qual a sua religião, mas na minha deixamos quem morre descansar e se for de algum interesse fazemos o seu legado ser conhecido ou útil. Conto a notícia com certo ar de desdém, mas sei que será melhor assim, pois sei que ela também desejava por esse dia. Aqueles olhos de quem acabara de acordar a cada vez que lhe dirigiam a palavra misturado com aquele perfume que só a mãe dela usava não fizera de Florabella alguém de se sentir saudades. Ela sempre soube que se pode viver nesse mundo fugindo de tudo, sendo sincera e acreditando em tudo que lhe diziam. A inocência a matou da pior maneira: aos poucos. Era uma tola que usava saias longas e blusas florais. Que insistia em vestir-se bem a todos os momentos, de aprender músicas para tocar no violão que um dia iria comprar, de aprender receitas as quais não sabia nem onde encontrar os ingredientes e por ver televisão como algo sem função na vida de uma menina politizada. Falar em Florabella é querer chorar por não a tê-la feito entender que o mundo cabe realmente em uma gaveta de calcinhas, cheio de novas antiguidades e velhas novidades. Talvez se ela tivesse se esforçado em fazer parte de algo não tivesse tido um fim, não tivesse enlouquecido ao ponto de sumir em si. A solidão não a fez forte, a fez louca, mas bem louca mesmo, dessas de atirar pedras na lua ou de apostar em dias melhores. Lembro de uma vez em que ela tropeçou no meio da rua e ficou engasgada com a vergonha. Começou a sufocar e sentir que suas últimas palavras seriam apenas miados. Ela deu sorte por ter sido levada ao hospital, mesmo sem saber bem como, mas foi. Tomou todo tipo de chá pra expelir aquele fragmento de vergonha que a fazia sentir-se tão pequena. As pessoas as chamavam de amiga e pediam que tivesse calma, mas eram apenas informações vagas, pois Florabella não tinha amigas e muito menos calma, ela queria ser outra pessoa ou ter coragem. Quem sabe algumas doses de coragem não fizessem acordar daquela sensação horrível? Foi justamente o que o médico a receitou, uns 500mg de coragispina aplicado direto na veia que leva ao coração, mas infelizmente ela se agarrou ao medo com todas as forças que tinha e encontrou nele abrigo. Depois desse dia até o espelho gritava pra ela, em tom de ironia que havia uma machinha de Florabella no medo dela. Não consigo sentir piedade de uma pessoa como ela, mas mesmo assim ainda sinto um certo remorso por não ter sido de outra forma o seu fim. Tenho certeza que a Paloma iria implicar muito com ela, que o André iria tentar convencê-la a beber com a gente no final de semana, que o Samir ia amarrar ela no carro e partir com a turma toda enquanto bolariam de rir com ela rezando feito uma louca para que os santos a tirassem desse tipo de maluquice. É viver tem muito disso de contrapesos. Ela morreu e teve de fazer isso. Escrevo isso agora para não esquecer dela, para me lembrar bem de que as minhas qualidades são legados dela e que só estou aqui graças as mudanças. Não sou mais aquela pura Flor e, de acordo com o Lauro nem sou “bela”, sou muito é gostosa e quero mesmo é que o mundo não acabe antes deu decidir se posso mesmo me reinventar para não acabar como acabei uma outra vez, em um tempo que já passou e que tinha lacinho marcado a última página lida. 

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Relatos Absurdos - #006



06 – A última carta de Ramona.

Seria um domingo normal e perfeito para os meus netos, onde almoçaríamos juntos, me contariam suas coisas de criança enquanto os pais deles se divertiriam realmente. Não que eu não goste dos meus netos, fui criada pra ter o casamento perfeito, envelhecer com saúde e de quebra ainda saber cozinhar um ou dois pratos com os temperos de minha avó, mas sinceramente ter caído e fraturado um osso desses e ter ficado no hospital descansado anda sendo um SPA. Fico deitada, vejo um pouco de televisão para matar o tempo e minha filha me deu um tocadorzinho de música onde posso reviver canções de verdade, longe do rádio e seus sucessos instantâneos. Mas o melhor de estar aqui agora é reler umas cartas antigas enquanto a ansiedade não me permite abrir a última carta que minha amiga de infância me enviou. Raimunda sempre foi pouco compreendida por todos, ou quase todos, eu sempre a admirei e nos tornamos boas amigas aos trancos e barrancos que uma amizade verdadeira tem. Dizia que fui criada para ser o modelo de esposa e por mais que discordasse, sempre aceitei o que Raimunda sempre chamou de sina. Frequentamos o mesmo colégio juntas e sempre tirava um tempinho para ouvir os disparates que ela contava. Eram planos realmente loucos, ideias bem absurdas, mas no fundo ela sempre me plantava a certeza de que ela realizaria todos. Lembro com clareza de quando ela fugiu de casa, naquela tarde, ela pediu o endereço de onde eu morava e prometemos manter contato sempre por carta, Raimunda temia ser rastreada se usa-se telefones ou afins. Atualmente ela até me envia números para ligar, mas nunca sei quando ela estará em outro estado ou país. Cresci, casei com o namorado que meus pais aprovaram e tive filhos em sequencia, mas sempre recebendo e imaginando como seria ter enfrentado a todos como minha amiga fizera. Em uma de suas viagens, ela me contou que começou o romance com um dono de circo e ele até tentara convencê-la a ser artista circense, mas o medo de ser reconhecida em e levada aos grilhões para casa a impediram. Na verdade, não lembro bem se era o dono do circo ou a mulher barbada, ou ela que havia se tornado a mulher barbada porquê havia se apaixonado pelo elefante ao qual julgava ser sua alma gêmea. Minha memória não é das melhores, mas que Raimunda juntou-se ao circo isso sim aconteceu, foi nessa época que passou a me mandar as cartas sempre tendo por remetente “Ramona”. Minha amiga sempre foi uma figura! Essa de se apaixonar pelo elefante foi em uma de suas viagens me enviou uma carta contado ter descoberto uma religião em que eles acreditavam que os elefantes eram o próximo estágio da evolução da alma. Custei a entender a ideia, mas nem sei que se ela havia acreditado então o melhor era sempre começar as minhas cartas de resposta com alguma palavra começando com “E”. Em outra carta, Ramona fala do término do relacionamento e que iria se dedicar a sua nova religião para a salvação de toda a humanidade, no ano seguinte vejo os selos do Tibet ou Nepal ou Índia, não sei, e Ramona também não contava o país que estava, apenas falava se a comida era boa ou não. Sempre abro um sorriso lendo as passagens narradas por ela, suas viagens fantásticas e tudo mais que aprendia. Soube que a mãe mandava dinheiro escondida do marido para ajudar a filha que decidiu fugir para não casar com o filho do prefeito. Estou um pouco apreensiva em ler essa carta que ela enviou no mês passado, sendo que já faz quase um ano que não dá notícias e seus telefones não funcionam mais. Discutimos até uma vez quando finalizei uma carta chamando-a de “Ramona DDD DDI” em que ela respondeu a carta apenas com palavras obscenas escritas em diversos idiomas. Ramona sempre soube como me chocar. Mas é melhor abrir a carta, espero que dessa vez ela decida me visitar já que faz 27 anos que não vem a cidade, está mais do que na hora de cessar a vida de aventuras. Assim que abro a carta, noto que não foi escrita a punho. Estou horrorizada. 30 anos reclamando de como ele desenha a letra “F” e agora vejo que nem se deu o trabalho de escrever para mim! Sinto que estou pra explodir de desgosto, mas... E se tiver acontecido algo de grave com ela? E se ela tiver morrido em alguma aventura? Será que ela tentou mesmo viaja por toda a china em um balão de ar? Meu coração acelera mais e mais a cada pensamento que me surge. Ramona querida amiga, seria essa sua última carta? Sinto-me culpada por não ter ido com você depois que minha filha teve as trigêmeas, que eu poderia estar te aconselhado e sendo o que você chamava de “voz chata da consciência” e tudo mais. As lágrimas bagunçam-me a vista, mas me preparo para o pior. Amiga, onde quer que você esteja saiba que sentirei sua falta. Me pego imaginando que tipo de elefante você irá se tornar. Oh, Deus! Minha amiguinha se foi? Enxugo o rosto molhado pelas lágrimas leio:

“ Eva,

Imagino que estranhe o tempo que faz que não lhe envio nada, mas virei missionária da Fé na Tromba Divina e por isso não ando com a mesma destreza para lhe responder. Pretendo ir ao Brasil em missão de fé, pois defendo a teoria de que quem morre aí reencarne em uma preguiça ou em uma anta, algo mais nacional. Está é a última carta que lhe escrevo vovozinha, por tanto trate de criar uma conta de e-mail.

Beijos, Ramona DDD DDI.

Obs.: Meu e-mail é plugada_n@ramona.com e não responda essa carta, blz (tudo bem)?”

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Relatos Absurdos - #005


05 – Romances à Capela 


Faltam 5 minutos para eu cumprir o que me prometi durante toda a vida. Na verdade, não sei qual é a função dessa escolha, pois sou feliz. E não é algo que alguma banda atual possa cantar, eu me refiro ao amor e não ao que vendem em lata. Decidi reencontrá-la hoje, ela que me faz tão feliz e me acompanha a cada nova jornada. Sou fotografo de uma grande revista de turismo e confesso que dei sorte pra conseguir esse emprego e ralo bastante para mantê-lo. Viajo o país inteiro, países inteiros pra ser mais exato e ainda sou apaixonado, só nunca entendi o que é morrer de amor, minha santa me faz feliz. Sinto que a gente compartilha a mesma alma, o mesmo espírito de caminhar na órbita do planeta, de um pouco da Via Láctea enquanto discutimos Caetano. Faltam 4 minutos e não vou me perdoar caso eu estrague tudo agora. Faz 15 anos desde a última vez que voltei para essa cidade. Sinto que me sufoco e que nunca vou sobreviver até o momento de dormir, ninguém entende quem tem um sonho louco de conhecer o mundo, de viver com as raízes plantadas no ar, lembro que tinha oito anos e já desenhava o que eu chamava de fotografia. Minha mãe ria muito comigo dessa minha mania de sonhar acordado, mas sabia que no fundo ela apostaria em mim, me dava um beijo na testa e dizia: “Meu filho, esse mundo ainda vai ser pequeno pra você”. Quando ela morreu, senti que o mundo estava bem maior e pesando em minhas costas e ser o alvo das brincadeiras da escola só foram pior quando pararam de me ver, tinha virado o sem-mãe da cidade, mas daí conheci minha Ana em um desses dias de muita chuva e muita fome em que cai na calçada de sua casa, ela devia ter mais ou menos minha idade e me deu comida. Sempre fazia questão de passar lá e levar frutas da temporada para ela e a mãe dela que sabiam me nome e faziam-no soar bonito como uma fotografia. Faltam 3 minutos e tenho certeza que essa ansiedade não vai me deixar bater a porta, vou me ater ao que tenho em mãos e dar meia-volta, ela não está mais aí, algo muito pessimista me diz pra fingir que não estive aqui. Aquela janela ainda é igual, ainda a posso ver sorrir. Ana. Lembro-me de uma da última vez que sorri em minha ilusão de infância, já com os meus 38 anos, diferente de muita gente, ainda trago em mim os sonhos de infância, só que aprendi a cuidar do meu coração, já que as feridas dele demoram mais a sarar que as dos joelhos. Pedi algum prato com macarrão, mesmo não gostando tanto de massa, lembro que minha Ana é apaixonada. Diz ela que a faz se sentir na Itália. Pus a minha santinha na mesa, aquela que a Ana me deu há muito tempo, e a imaginei ali conversando comigo, perguntando do meu dia. Apreciando as últimas fotos que tirei em uma viagem ao litoral. Comentei e sorri das memórias que tenho e divido por nós dois. Minha mão fica suada, sinto que vou gaguejar, mas sei que Ana iria apenas sorrir com os olhos, algo que só vejo nela. Algo que tenho certeza que sei que ela tem e me encanta, me fascina há 30 anos. Volto a sorrir olhando pra minha fantasia, mas sei que a vida é curta e viajei e vivi tanto, eu e minha santinha viajamos e sorrimos e dançamos e cantamos juntos, mas por mais lindo que tudo tenha sido, nosso último jantar me fez querer bater a sua porta Ana. Me fez rever aquela cidade onde nos conhecemos e que fui embora quando quis contar meu plano de fuga pra você. Falta 1 minuto pra eu chegar na sua porta, trouxe margaridas por acreditar que seja realmente sua flor favorita, por no fundo eu saber que em uma das minhas fantasias você me dizia como elas te transmitiam paz. Na minha última viagem de trabalho, passei pela capital e vi um conhecido de infância que havia me dito que Ana estava morando outra vez em nossa terra natal, que morava sozinha, pois a filha havia casado a pouco e o marido falecido há 6 anos, soube que ainda conta histórias para crianças e dá aula de línguas, aposto que seja Italiano, aposto tudo como ainda tem aquele pingente em forma de gota. Estou agora em frente a sua porta Ana, em frente ao meu maior medo de infância e quero dizer a mim mesmo que perdi o medo de você me dizer não, mas não saberia voltar as minhas ilusões sem você me ajudando a encontrar meus sapatos ou eu te explicando sobre as diferentes lentes. Espero que você abra a porta, acredito que vai me reconhecer e perguntar se ainda me chamo Adalberto. Vou te responder sorrindo que sim, que desisti de mudar meu nome só porque sempre apostei que você iria me procurar e se eu tivesse trocado de nome seria meio difícil achar. Olho para o relógio e faz 2 minutos que estou do outro lado da rua, ainda não atravessei a rua. 

quinta-feira, 20 de março de 2014

Relatos Absurdos - #004


04 – As Flores de Tróia 

Nunca fui uma pessoa de muita sorte. Minha mãe dizia que minha irmã tinha o “dedo verde”, pois tudo que ela se propunha a fazer crescia, florescia aos embalos de sua voz suave e seu sorriso radiante. Vera era o nome dessa puta. Eu já tive que carregar o fardo de ser filha de jardineira e não conseguir fazer nada dar certo, tudo que eu tocava virava adubo de acordo com minha amada mãe. Eu era a menina dos dedos cagados. Rosa é o nome dessa puta que vos fala se é que interessa a alguém. Cresci fazendo tudo errado, mas não que fosse por falta de esforço, mas acho que foi o fardo psicológico que me fez nunca acertar nada e de tantos gritos e reclamações que ouvi na vida, notei que eu só me dava mal e isso sempre com estilo. Não fiz muitos amigos na escola, não por ser feia – modéstia a parte sempre fui uma delícia – ou por ser burra, vencia sempre os campeonatos anuais de redação e tudo mais que minha mãe não pudesse comparecer com aquele avental sujo de terra e a leve impressão de que eu iria envergonhá-la mais que aquele guarda-chuva de estampa floral que ela utilizava até a noite. Terminei os estudos, não me interessei por nenhuma faculdade que dependesse da ajuda da minha pouca família ou de contatos importantes que nunca tive. E de tanto a vida me foder gratuitamente, decidi que iria começar a cobrar por isso sendo a coisa que sempre fiz melhor, fui ser garota de programa, mas sempre consciente. Comecei em uma boate chamada Tróia, o que me rendeu o apelido de Helena, ou eu que dei o nome ao ambiente, já não lembro bem. Rosa Helena de Tróia, a sem coração. Não vou dizer que foi uma mudança radical, pois estaria mentindo. Foi praticamente como o ensino médio inteiro, algum homem olhava para minhas pernas e se interessava, dava uma piscadinha e com duas semanas desaparecia, a grande diferença é que nos tempos de colégio eles não suportavam minha mãe gritando e hoje é que subo o preço substancialmente por se apaixonarem por mim. Evito homens casados, jovens estudantes ou políticos, afinal não tenho intenção de pegar gente com sonhos ou gente com mais processos que eu. A minha rotina era simples nos tempos que ganhava meu dinheiro com o talento que a vida me deu, mas aos poucos notei que eu estava em uma mudança, um troca-troca, um processo bilateral ou em uma dialética com a vida. Não sei bem como tratar com você leitor, essa minha iniciação a escrita tem um grande problema: não vejo sua face, não imagino se tomou banho ou se tem alguma pretensão além-sexo, coisas que eu sabia de cara, mesmo de quatro, conhecia o outro pela pegada, pela maneira de se portar ou como terminava o combinado, mas vocês eu não sei bem, mas cá estou tentando ser clara, não tão chata ou forçando a barra para que sejamos amigos. Não quero que me entendam como uma dessas que reclamam tanto, essas são as esposas ou como alguém que está aqui para te ouvir, essas são as amigas, sou mais que profissional das letras, mesmo sem ser formada. Agora mesmo você deve estar imaginando minhas formas ou qualquer outro trocadilho engraçado de uma linha atrás. Lembro que o último cliente que tive foi o estopim para que eu decidisse mudar de vida. Nunca havia o visto, nem se quer imaginado que alguém como ele existiria ou sentiria a necessidade para ir a Tróia, mas ele passou pelo salão, viu todas as outras meninas, mas para mim ele jogou uma rosa, convidou para sentar no bar e perguntou quanto eu cobrava para conversar sobre o universo, sexo e outras divagações que surgissem. De cara achei o programa desnecessário, um cara pouco atraente, mas seus óculos refletiram minha necessidade de conversar sem segundas intenções com alguém. Foram horas muito engraçadas, foi tipo como se eu tivesse dado ouvido as poucas pessoas que diziam que eu estava perdendo tempo em ser prostituta. A Tróia já estava fechando, notei que não bebemos mais que suco e mesmo assim ele se deliciava com minha maneira seca de contar a vida. Foi irônico encontrar um caminhoneiro que era padre, mas que tinha abandonado o celibato quando descobriu que não era gay ou tampouco cristão. Ele tinha poucos amigos, também tinha pouco tempo ou interesse em conversar com as pessoas “normais”, sendo estas as que mais julgam, menos enxergam e fazem todo tipo de promessa para se sentirem melhor. Graças ao Marcão eu percebi a minha necessidade de realizar outros sonhos. Hoje sou completamente realizada, montei uma rede de lanchonetes focada em pessoas que gostam de conversar, graças ao dinheiro que recebi do processo que abri contra um jogador de futebol que não quis pagar o programa por no final descobrir que eu não era travesti. Tenho meu próprio negócio, virei palestrante para pequenas empresárias e para pessoas que possuem infâncias marcadas pelos maus tratos domésticos e estou quase convencendo minha irmã a largar a seita religiosa que ela entrou depois de ter sido convencida por minha mãe que ela era a reencarnação de alguma cantora dos anos 30. Dia desses relato outros absurdos que rolavam na minha infância, mas não hoje, porque estou de voo marcado para o Goiás encontrar o Marcão que mudou de nome, decidiu que era gay mesmo e montou uma dupla sertaneja com o namorado dele o... Até pensou que eu ia contar, hein? No mais estou feliz, diretamente da Tróia Lanches, Rosa Helena.


terça-feira, 18 de março de 2014

Relatos Absurdos - #003


#03 - Luz! Por favor, com ela acesa.

Discordo terminantemente que a luz deve estar apagada. Gosto quando posso ver meu corpo refletido no suor do outro, dessa pegada cheia de ritmo, de encanto, numa sinfonia composta de sussurros e gemidos que alucinam os meus ouvidos e enchem de sabor minha boca. Me perco nos braços dos fortes, me divirto com as declarações dos mais românticos e curto ser judiar do coração dos mais durões, estes que a mim não enganam nada. Homens são diferentes e isso é o que mais me fascina, procurar uma lógica jamais encontrada entre os falos e suas falas, seus trejeitos ou o tamanho do pé. Passaria horas do meu dia estudando essas criaturas tão tolas, tão estranhas e em sua maioria tão funcionais para tirar meu estresse. Homens maduros são meu prazer, homens jovens são meu esporte, mas as crianças eu só consigo me fascinar por sua inocência, torcendo para que os meus aluninhos não sofram nas mãos de um alguém tão maléfico, pervertido. Suspiros me vêm sempre que penso o quanto eles poderão ser usados, manipulados e mesmo assim não notarem o quão divertido em comentar sobre seu sexo enquanto nas rodas femininas de conversa. Essa vida de professora infantil me fascina. Estudar a gênesis da sexualidade por toda parte, a safadeza já faz parte do ser humano. Minha vontade é encher essas linhas de onomatopeias, mas nem todas as mulheres vão compreender. Mas se bem que isso não faria tanto sentido. Gosto mesmo que elas fiquem por fora e seus maridos por dentro. [risadas]. Não me controlo! Essa cosia de filosofar sobre minha vida, sobre a minha lista de sexos novos e repetidos e de passar o marca texto naqueles que já declararam seu amor pela gordinha aqui. Pois é, a mídia pode até tentar enfiar um padrão esquelético de beleza, mas o jogo da sedução meu amor, é mais em cima. Vem dos olhos, o contato visual com minhas presas, uma jogada boba de cabelo e de repente o meu número que importa é o do celular do esquema. Só evito, mas não dispenso, pai de aluno meu. Nossa, terrível quando eles vem depois de um sexo bacana querer saber como o filhinho vai na escola. Tem gente que não tem noção de ética mesmo, hein? Acham que só porque rolou um sexo, puxaram meu cabelo e eu os fiz sentir um gelo na barriga com minhas perversões eles podem invadir minha carreira profissional? Eu deveria mesmo é laçar um desses aí e assistir uma briga por mim isso sim. Adoro vê-los me ligando, pedindo atenção e um suporte em suas fantasias, mas há dias que prefiro ser aquela professora pacata, que mesmo ganhando mal pra cacete, ainda consegue encontrar os cacetes bons que fazem bem. É como uma terapia pessoal. Mas secretamente vou continuando meus estudos sobre a origem do apague a luz. Os homens, quando criança, preferem-na acesa, já os adultos vem com essa de apaga-la como se eu não tivesse visão infravermelha, né? Quero contemplar, me emocionar, sorrir e gemer. Não sou paga, não finjo, eu vivo e tudo as claras do quarto. Analisando meu objeto de estudo com as ferramentas que a vida me deu: seios fartos e uma vagina tão forte, precisa e delicada que a natureza projetou em mim. Encerrar esse relato, aprontar as anotações do diário, preparar o projeto para a páscoa e caçar os melhores ovos do meu repertório masculino, viril e másculo. [risos]. “Amada pelos alunos e desejada pelos seus papais, admirada pelas mamães e invejada por aquela balança recalcada”, eu deveria escrever isso na conclusão da minha vida sexual. 

quinta-feira, 13 de março de 2014

Relatos Absurdos - #002

por Calebe Lucas

#02 - Vai comprar confeito? Não? Caia fora otário!

Nazaré era dessas mulheres que tinham atinado para vencer na vida. Uma mulher simples de cabelos oleosos, que não fazia muito caso de ter as sobrancelhas bem desenhados, de ter o rosto maquiado ou de se desfazer de seu busto, que lhe rendeu o apelido de Nietzsche na faculdade que chegou a cursar trabalhando no que ela dizia ser sua empresa de prazeres infantis, onde negociava nas calçadas que a vida lhe propunha em um senso nômade a guiava. Nazaré não ligava muito para se fixar, ter uma clientela, bastava ela fazer o dinheiro de pagar as contas no fim do mês que tudo estava bem. Ela sempre deixou claro que sua carreira profissional estava acima de todos, que seu prazer era ser elogiada e não compreendida, afinal a única palavra que a interessava era “dinheiro”, em um senso capitalista que ela odiava ter que admitir e negava diariamente a si mesmo. Ela havia construído sua barraca nova através de seu esforço, ora pra comprar os materiais, ora pra sair pedindo caixas de papelão em supermercado ou se gabando de como suas vendas no carrinho de confeito iam bem.  Conseguia secar todo o seu estoque semanalmente, vendia tudo a preços absurdos, mas ela já havia entendido como era vender doces em sua pequena cidade: bastava observar a TV com um olhar diferenciado. Ela foi aprendendo como tratar seus clientes até que os tivesse nas mãos, viciados em deus doces caseiros, suas balas temperadas ou suas balas artificiais compradas em outro estado. Sempre que Nazaré se metia em algo era pra vencer, era dessas capricornianas obstinadas, teimosas e de poucos amigos. Na favela onde vivia ninguém queria confusão com uma pessoa tão louca quanto ela. Alguns diziam que Nazaré tinha filhos, outros afirmavam que ela havia ganhado as crianças em um jogo de sinuca, mas ela mesmo só ligava para suas gatinhas de estimação. Nazaré gostava de acender seu cachimbo e assistir seu barraco ser construído, passo a passo enquanto torcia para as pessoas martelarem os dedos. Nazaré era uma vendedora de doces amarga, bigoduda e tão confusa quanto sua orientação sexual. Não era viciada em nada a não ser ganhar dinheiro, mas não o bastante para largar sua favela, seus vizinhos e aquelas crianças que vigiavam sua barraca enquanto ela saia para vender. Nazaré tinha seus prazeres definidos, pouco ligando para a vida, pouco querendo ser entendida e com toda aquela ganância de ser dita como a melhor vendedora de doces em carrinho, dona do maior barraco das redondezas, a pobre mulher com dois filhos adotivos que estudavam na capital, a mais querida pelos animais e a mais temida numa briga de facas de mesa. Era uma mulher cegada pela vontade de vencer suas metas, mas ensurdecida pela falta de humildade. Ela confundia pobreza com humildade, não tomar banhos regulares com penitência e Jesus com pastores em canais da televisão aberta. Ela se sentia atacada por todos, ofendida e mirada. Todos tinham inveja dela, todos deveriam se emocionar enquanto ela falava. Já cantara liricamente, tocara em festas de igreja, casara, amara e tudo mais que uma pessoa pudesse fazer com o coração aberto a opiniões. Tornou-se alguém de estatura média, coração amargo e cheia de ratoeiras nas palavras. Talvez ela confiava demais em si ou talvez ela só quisesse ser um outro alguém. Nazaré hoje está presa em suas memórias confusas, em seu barraco erguido por menores de rua, em seu ego imoral e esperando um vento que a leve para outro país, outra época ou onde o pretérito ainda não era mais que perfeito, era presente real e singular, onde seu bigode não representava sua mágoa e as promessas de mudança era de dentro pra fora e não de calçada em calçada vendendo confeito, doces, drogas e ilusões. Nazaré não tem direito a condicional, não tem advogado e cria provas todos os dias que não é feliz por ter abandonado a menina que um dia fora, vivera e matara. 

terça-feira, 11 de março de 2014

Relatos Absurdos - #001

por Calebe Lucas


#01 – Vida escondida.

Vez por outra eu acredito que a vida gosta de me provocar. Sinto que há um certo prazer nas nuvens quando eu me dou mal. Seria pedir demais um pouco de respeito? Um copo limpo e alguns poucos centavos de gratidão? Passo pelas pessoas da rua e sinto-me atravessada pelo desejo de sumir, ou de fazê-las sumir. Um desejo louco de “sim” sair sambando em toda essa sociedade suja, fétida e cheia de políticos e ladrões e outras redundâncias que perseguem o meu prazer. Não basta trabalhar dois turnos, tenho que passar por aquela bendita rua, dar boa tarde para ninguém ou para aquelas carolas que gostam de fingir que são simpáticas. Velhas inchadas! Mal amadas! Mas não, ser uma boa pessoa, ser uma pessoa de família, ser outro Silva me põe no patamar de fazer diferente. Não que eu seja contra o nepotismo, pois iria cuspir no prato que eu não só comi, como o lambi. A essa altura, pode pensar que sou outra dessas que reclamam da pouca sorte da vida, dos estresses diários ou de não conseguir nunca ser forte o bastante e mandar a minha sogra se calar vez por outra, ou calá-la com uma indelicadeza que ela consideraria completamente familiar, afinal é a grosseria em pessoa. Olho para o relógio e esse maldito finge que trabalha tão bem quanto eu nas aulas de matemática quando frenquentava. Acho que o dom de desconversar é algo que adquiri entre uma e outra lata de lixo, afinal desfazer de coisas é sempre mais difícil que de pessoas para a maioria, mas não para mim, o mundo dá voltas em suas trezentas e sessentas cacetadas que não me interessam, não pagam minha conta de luz e sinceramente nem sei pra quê estou falando nisso tudo. Dois minutos se passam e essa calcinha só faz me sentir pior. “É de marca” me disse a vendedora, aquela velha feia e mal amada. Pra ser sincera ela não é tão feia, até daria uns pegas nela, se o marido dela não fosse tão mais interessante e dono de uma padaria.  Esses pensamentos que voam e me deixam atordoada. Mas pensar no Seu Ezequiel me deixa “tsunâmica” – risos externos, mas contenho-me –, mas estar casado e presa a esse corpo gordo e fedido não pode ser a melhor maneira de me atirar nos braços daquele coroa. Ele me chamando de vagabunda, de escrotinha ou se reparasse no meu fio-dental por baixo dessa calça sem feições seria uma realização tão boa quanto descobrir que meu salário vai subir exorbitantemente ao mínimo nacional. Essa não foi a profissão que escolhi, subir e descer ruas e fingir diálogos repleto de onomatopeias para agradar os colegas. Francamente engravidar aos 18 só não foi maior erro do que ser presa aos 12 na fazenda de um tio distante, onde trabalhava mais do que agora. Não sei se foi exagero, mas acho que agora trabalho mais. O bom dessa conversa sem voltas é que já são dezessete horas e posso pular desse caminhão e ir para minha casa. O caminho seria um tédio total se não visse o Seu Ezequiel sempre sorrindo com aquela cobra do lado. Por mim eu já teria feito uma mudança na minha vida, seria transexual e linda, mas quem iria querer uma gari trans? E minha esposinha? E meus dois filhos vagabundos? É terrível quando viro a esquina e me vejo na minha vida frustrada. Agora é tomar banho, tirar a calcinha e ir pro bar viver essa vida que tenho. Francismarkson, o gari, mas Franfran em meus devaneios.