PROMBOLO DO FOGO
Começaria qualquer história pelo começo, mas apenas se eu acreditasse nela. A minha não teve ou talvez tenha tido tantos que não interesse a mim ou a você partir deles, mas há algo comum em todos: eu me perdia em todo começo e me encontrava em todo final; parece meio louco, eu confesso, mas o que seria da vida se fizesse sentido? Pra começar eu fui expulsa de casa no ano passado. Mas esse é outro começo da mesma história. Para começar eu fui levada da minha verdadeira família. Não é algo que eu possa provar, mas tenho certeza absoluta de que eu não conheci minha mãe. Sei que ela tinha o cabelo da mesma cor que o meu, talvez até mais bem penteado assim pro lado, mas o perfume é algo que eu memorizei. Seus olhos eu não lembro como era, mas sei que eles conseguem ver toda a dor que eu sinto agora. Sei que ela chora quando pensa em mim, quando pensa em todos os momentos que não passamos juntas.
Minha verdadeira mãe tem um coração, tem um sorriso sincero desses que usam tudo para compor a representação da felicidade. Da voz dela eu lembro que parecia com o som que o vento faz quando beija o rosto da gente, ela conseguia me trazer paz sem usar nenhuma palavra. Meu pai eu sei que é enorme, que me botaria no braço facilmente, era tinha um bigode engraçado, mas no meu pai esse bigode era o disfarce ideal para enganar qualquer tristeza. As vezes eu penso em como eles são incríveis, mas esses pais que me criaram e que me registraram são opostos a eles. Aquela mãe que não me olhava nos olhos tem a voz da culpa, nunca a vi sorrir ou ela tenha alergia à felicidade. Qualquer sorriso a irrita ou irritava, não a vejo faz um bom tempo e isso tem sido bom para nós duas. Meu pai era o típico monstro dos filmes: barulhento e com dentes afiados, um cheiro de inveja que não era desse mundo e cheio vinganças. Eu não entendia muito bem, talvez hoje eu ainda não fosse conseguir entender, mas depois de estar perdida me encontrei na ideia de fugir. Mas não fugir como das outras vezes, porque das outras vezes eu era pega, eu só servia para arrumar a casa. Lembro que meu primeiro brinquedo foi uma vassoura. Eu me encontrei quando eu fugi. O plano foi simples, ateei fogo na casa enquanto todos dormiam. Explodi tudo, me desfiz de toda a casa e me deitei esperando ser beijada pelo fogo. Talvez tivesse sido melhor, mas o desejo de viver coisas novas foi maior. Eu sei que eu corri. Eu gosto de pensar que voei. Isso, voei para o horizonte levando a noite comigo, parei pra dormir quando ela se foi. E fui fugindo. Conhecendo pessoas e fugindo até casar.
Parece uma jornada curta, mas foram noites terríveis. É difícil fazer caber em uma frase todas as noites de fome, todas vezes que apanhei, todas as dores que senti, quantas vezes não fui abusada. As ruas são lugares para se encontrar, mas eu só me perdia, eu apenas perdia e do pouco que me restou foi só dois dedos de esperança e o desejo de achar a chave do gás desse planeta pra explodir ele também. Mas um dia eu me perdi nos braços de outra pessoa que procurava alguém. Descobri que era uma pessoa quando me deu boa noite, quando me convidou pra revezar a guarda a noite enquanto dormia. Eu chorei e sorri. Ser protegida era um sonho que eu não tinha, mas a vida fez brotar em mim. Eu ofereceria tudo pra essa pessoa, mas o que eu tinha além de medo? Foi a noite mais longa do mundo, não levei nada pra sonhar comigo, mas sonhei com meus pais. Eu contava a eles tudo que eu havia feito, tudo que haviam feito comigo e eu chorava, mas eles choravam mais e mesmo com tanta tristeza eu estava feliz em dividir a minha dor, pois dor era uma das coisas que eu tinha pra dividir e eles aceitavam e me abraçavam e sentiam comigo.
Eu acordei abraçada em um novo desejo, senti na minha orelha uma flor e a pessoa do meu lado dizia que eu havia chorado enquanto dormia e que das minhas lágrimas uma flor brotara. A pessoa perguntou meu nome, falei que já havia usado tantos que tinha desistido de ser qualquer coisa, pois tinha tentado ser gente, mas ser gente nas ruas não dá. A pessoa riu e eu sorri. Eu senti que naquele riso havia muita história e que a maioria não foi bonita. Falei que eu estava no fim da minha história, mas ela não riu mais. Ela tinha dito que eu não poderia deixar que tivesse fim. Ri da ideia maluca de não terminar ali suja, faminta e esquecida por Deus, mas fazia tanto tempo que alguém não me ouvia que decidimos fazer amizade. Eu queria ela ali, queria até vê-la. Queria ter perguntado o nome dela ou se ela iria voltar, mas eu senti que chorei. Tirei o que a pessoa disse ser uma flor em mim, quis sentir o que era isso, que ouvir e cheirar e morder, que fazer brotar olhos novos, mas por hoje, a história vai começar assim: “era uma vez uma menina que se perdeu em meio ao fogo acreditando ser o fim e era o fim todas as noites, até que uma pessoa trouxe paz e cuidou de flor que nasceu de um sonho que brotou das ruas”. Depois de tanto tempo, de tanta coisa ruim, só hoje eu queria olhar quem me viu.