quinta-feira, 20 de março de 2014

Relatos Absurdos - #004


04 – As Flores de Tróia 

Nunca fui uma pessoa de muita sorte. Minha mãe dizia que minha irmã tinha o “dedo verde”, pois tudo que ela se propunha a fazer crescia, florescia aos embalos de sua voz suave e seu sorriso radiante. Vera era o nome dessa puta. Eu já tive que carregar o fardo de ser filha de jardineira e não conseguir fazer nada dar certo, tudo que eu tocava virava adubo de acordo com minha amada mãe. Eu era a menina dos dedos cagados. Rosa é o nome dessa puta que vos fala se é que interessa a alguém. Cresci fazendo tudo errado, mas não que fosse por falta de esforço, mas acho que foi o fardo psicológico que me fez nunca acertar nada e de tantos gritos e reclamações que ouvi na vida, notei que eu só me dava mal e isso sempre com estilo. Não fiz muitos amigos na escola, não por ser feia – modéstia a parte sempre fui uma delícia – ou por ser burra, vencia sempre os campeonatos anuais de redação e tudo mais que minha mãe não pudesse comparecer com aquele avental sujo de terra e a leve impressão de que eu iria envergonhá-la mais que aquele guarda-chuva de estampa floral que ela utilizava até a noite. Terminei os estudos, não me interessei por nenhuma faculdade que dependesse da ajuda da minha pouca família ou de contatos importantes que nunca tive. E de tanto a vida me foder gratuitamente, decidi que iria começar a cobrar por isso sendo a coisa que sempre fiz melhor, fui ser garota de programa, mas sempre consciente. Comecei em uma boate chamada Tróia, o que me rendeu o apelido de Helena, ou eu que dei o nome ao ambiente, já não lembro bem. Rosa Helena de Tróia, a sem coração. Não vou dizer que foi uma mudança radical, pois estaria mentindo. Foi praticamente como o ensino médio inteiro, algum homem olhava para minhas pernas e se interessava, dava uma piscadinha e com duas semanas desaparecia, a grande diferença é que nos tempos de colégio eles não suportavam minha mãe gritando e hoje é que subo o preço substancialmente por se apaixonarem por mim. Evito homens casados, jovens estudantes ou políticos, afinal não tenho intenção de pegar gente com sonhos ou gente com mais processos que eu. A minha rotina era simples nos tempos que ganhava meu dinheiro com o talento que a vida me deu, mas aos poucos notei que eu estava em uma mudança, um troca-troca, um processo bilateral ou em uma dialética com a vida. Não sei bem como tratar com você leitor, essa minha iniciação a escrita tem um grande problema: não vejo sua face, não imagino se tomou banho ou se tem alguma pretensão além-sexo, coisas que eu sabia de cara, mesmo de quatro, conhecia o outro pela pegada, pela maneira de se portar ou como terminava o combinado, mas vocês eu não sei bem, mas cá estou tentando ser clara, não tão chata ou forçando a barra para que sejamos amigos. Não quero que me entendam como uma dessas que reclamam tanto, essas são as esposas ou como alguém que está aqui para te ouvir, essas são as amigas, sou mais que profissional das letras, mesmo sem ser formada. Agora mesmo você deve estar imaginando minhas formas ou qualquer outro trocadilho engraçado de uma linha atrás. Lembro que o último cliente que tive foi o estopim para que eu decidisse mudar de vida. Nunca havia o visto, nem se quer imaginado que alguém como ele existiria ou sentiria a necessidade para ir a Tróia, mas ele passou pelo salão, viu todas as outras meninas, mas para mim ele jogou uma rosa, convidou para sentar no bar e perguntou quanto eu cobrava para conversar sobre o universo, sexo e outras divagações que surgissem. De cara achei o programa desnecessário, um cara pouco atraente, mas seus óculos refletiram minha necessidade de conversar sem segundas intenções com alguém. Foram horas muito engraçadas, foi tipo como se eu tivesse dado ouvido as poucas pessoas que diziam que eu estava perdendo tempo em ser prostituta. A Tróia já estava fechando, notei que não bebemos mais que suco e mesmo assim ele se deliciava com minha maneira seca de contar a vida. Foi irônico encontrar um caminhoneiro que era padre, mas que tinha abandonado o celibato quando descobriu que não era gay ou tampouco cristão. Ele tinha poucos amigos, também tinha pouco tempo ou interesse em conversar com as pessoas “normais”, sendo estas as que mais julgam, menos enxergam e fazem todo tipo de promessa para se sentirem melhor. Graças ao Marcão eu percebi a minha necessidade de realizar outros sonhos. Hoje sou completamente realizada, montei uma rede de lanchonetes focada em pessoas que gostam de conversar, graças ao dinheiro que recebi do processo que abri contra um jogador de futebol que não quis pagar o programa por no final descobrir que eu não era travesti. Tenho meu próprio negócio, virei palestrante para pequenas empresárias e para pessoas que possuem infâncias marcadas pelos maus tratos domésticos e estou quase convencendo minha irmã a largar a seita religiosa que ela entrou depois de ter sido convencida por minha mãe que ela era a reencarnação de alguma cantora dos anos 30. Dia desses relato outros absurdos que rolavam na minha infância, mas não hoje, porque estou de voo marcado para o Goiás encontrar o Marcão que mudou de nome, decidiu que era gay mesmo e montou uma dupla sertaneja com o namorado dele o... Até pensou que eu ia contar, hein? No mais estou feliz, diretamente da Tróia Lanches, Rosa Helena.


terça-feira, 18 de março de 2014

Relatos Absurdos - #003


#03 - Luz! Por favor, com ela acesa.

Discordo terminantemente que a luz deve estar apagada. Gosto quando posso ver meu corpo refletido no suor do outro, dessa pegada cheia de ritmo, de encanto, numa sinfonia composta de sussurros e gemidos que alucinam os meus ouvidos e enchem de sabor minha boca. Me perco nos braços dos fortes, me divirto com as declarações dos mais românticos e curto ser judiar do coração dos mais durões, estes que a mim não enganam nada. Homens são diferentes e isso é o que mais me fascina, procurar uma lógica jamais encontrada entre os falos e suas falas, seus trejeitos ou o tamanho do pé. Passaria horas do meu dia estudando essas criaturas tão tolas, tão estranhas e em sua maioria tão funcionais para tirar meu estresse. Homens maduros são meu prazer, homens jovens são meu esporte, mas as crianças eu só consigo me fascinar por sua inocência, torcendo para que os meus aluninhos não sofram nas mãos de um alguém tão maléfico, pervertido. Suspiros me vêm sempre que penso o quanto eles poderão ser usados, manipulados e mesmo assim não notarem o quão divertido em comentar sobre seu sexo enquanto nas rodas femininas de conversa. Essa vida de professora infantil me fascina. Estudar a gênesis da sexualidade por toda parte, a safadeza já faz parte do ser humano. Minha vontade é encher essas linhas de onomatopeias, mas nem todas as mulheres vão compreender. Mas se bem que isso não faria tanto sentido. Gosto mesmo que elas fiquem por fora e seus maridos por dentro. [risadas]. Não me controlo! Essa cosia de filosofar sobre minha vida, sobre a minha lista de sexos novos e repetidos e de passar o marca texto naqueles que já declararam seu amor pela gordinha aqui. Pois é, a mídia pode até tentar enfiar um padrão esquelético de beleza, mas o jogo da sedução meu amor, é mais em cima. Vem dos olhos, o contato visual com minhas presas, uma jogada boba de cabelo e de repente o meu número que importa é o do celular do esquema. Só evito, mas não dispenso, pai de aluno meu. Nossa, terrível quando eles vem depois de um sexo bacana querer saber como o filhinho vai na escola. Tem gente que não tem noção de ética mesmo, hein? Acham que só porque rolou um sexo, puxaram meu cabelo e eu os fiz sentir um gelo na barriga com minhas perversões eles podem invadir minha carreira profissional? Eu deveria mesmo é laçar um desses aí e assistir uma briga por mim isso sim. Adoro vê-los me ligando, pedindo atenção e um suporte em suas fantasias, mas há dias que prefiro ser aquela professora pacata, que mesmo ganhando mal pra cacete, ainda consegue encontrar os cacetes bons que fazem bem. É como uma terapia pessoal. Mas secretamente vou continuando meus estudos sobre a origem do apague a luz. Os homens, quando criança, preferem-na acesa, já os adultos vem com essa de apaga-la como se eu não tivesse visão infravermelha, né? Quero contemplar, me emocionar, sorrir e gemer. Não sou paga, não finjo, eu vivo e tudo as claras do quarto. Analisando meu objeto de estudo com as ferramentas que a vida me deu: seios fartos e uma vagina tão forte, precisa e delicada que a natureza projetou em mim. Encerrar esse relato, aprontar as anotações do diário, preparar o projeto para a páscoa e caçar os melhores ovos do meu repertório masculino, viril e másculo. [risos]. “Amada pelos alunos e desejada pelos seus papais, admirada pelas mamães e invejada por aquela balança recalcada”, eu deveria escrever isso na conclusão da minha vida sexual. 

quinta-feira, 13 de março de 2014

Relatos Absurdos - #002

por Calebe Lucas

#02 - Vai comprar confeito? Não? Caia fora otário!

Nazaré era dessas mulheres que tinham atinado para vencer na vida. Uma mulher simples de cabelos oleosos, que não fazia muito caso de ter as sobrancelhas bem desenhados, de ter o rosto maquiado ou de se desfazer de seu busto, que lhe rendeu o apelido de Nietzsche na faculdade que chegou a cursar trabalhando no que ela dizia ser sua empresa de prazeres infantis, onde negociava nas calçadas que a vida lhe propunha em um senso nômade a guiava. Nazaré não ligava muito para se fixar, ter uma clientela, bastava ela fazer o dinheiro de pagar as contas no fim do mês que tudo estava bem. Ela sempre deixou claro que sua carreira profissional estava acima de todos, que seu prazer era ser elogiada e não compreendida, afinal a única palavra que a interessava era “dinheiro”, em um senso capitalista que ela odiava ter que admitir e negava diariamente a si mesmo. Ela havia construído sua barraca nova através de seu esforço, ora pra comprar os materiais, ora pra sair pedindo caixas de papelão em supermercado ou se gabando de como suas vendas no carrinho de confeito iam bem.  Conseguia secar todo o seu estoque semanalmente, vendia tudo a preços absurdos, mas ela já havia entendido como era vender doces em sua pequena cidade: bastava observar a TV com um olhar diferenciado. Ela foi aprendendo como tratar seus clientes até que os tivesse nas mãos, viciados em deus doces caseiros, suas balas temperadas ou suas balas artificiais compradas em outro estado. Sempre que Nazaré se metia em algo era pra vencer, era dessas capricornianas obstinadas, teimosas e de poucos amigos. Na favela onde vivia ninguém queria confusão com uma pessoa tão louca quanto ela. Alguns diziam que Nazaré tinha filhos, outros afirmavam que ela havia ganhado as crianças em um jogo de sinuca, mas ela mesmo só ligava para suas gatinhas de estimação. Nazaré gostava de acender seu cachimbo e assistir seu barraco ser construído, passo a passo enquanto torcia para as pessoas martelarem os dedos. Nazaré era uma vendedora de doces amarga, bigoduda e tão confusa quanto sua orientação sexual. Não era viciada em nada a não ser ganhar dinheiro, mas não o bastante para largar sua favela, seus vizinhos e aquelas crianças que vigiavam sua barraca enquanto ela saia para vender. Nazaré tinha seus prazeres definidos, pouco ligando para a vida, pouco querendo ser entendida e com toda aquela ganância de ser dita como a melhor vendedora de doces em carrinho, dona do maior barraco das redondezas, a pobre mulher com dois filhos adotivos que estudavam na capital, a mais querida pelos animais e a mais temida numa briga de facas de mesa. Era uma mulher cegada pela vontade de vencer suas metas, mas ensurdecida pela falta de humildade. Ela confundia pobreza com humildade, não tomar banhos regulares com penitência e Jesus com pastores em canais da televisão aberta. Ela se sentia atacada por todos, ofendida e mirada. Todos tinham inveja dela, todos deveriam se emocionar enquanto ela falava. Já cantara liricamente, tocara em festas de igreja, casara, amara e tudo mais que uma pessoa pudesse fazer com o coração aberto a opiniões. Tornou-se alguém de estatura média, coração amargo e cheia de ratoeiras nas palavras. Talvez ela confiava demais em si ou talvez ela só quisesse ser um outro alguém. Nazaré hoje está presa em suas memórias confusas, em seu barraco erguido por menores de rua, em seu ego imoral e esperando um vento que a leve para outro país, outra época ou onde o pretérito ainda não era mais que perfeito, era presente real e singular, onde seu bigode não representava sua mágoa e as promessas de mudança era de dentro pra fora e não de calçada em calçada vendendo confeito, doces, drogas e ilusões. Nazaré não tem direito a condicional, não tem advogado e cria provas todos os dias que não é feliz por ter abandonado a menina que um dia fora, vivera e matara. 

terça-feira, 11 de março de 2014

Relatos Absurdos - #001

por Calebe Lucas


#01 – Vida escondida.

Vez por outra eu acredito que a vida gosta de me provocar. Sinto que há um certo prazer nas nuvens quando eu me dou mal. Seria pedir demais um pouco de respeito? Um copo limpo e alguns poucos centavos de gratidão? Passo pelas pessoas da rua e sinto-me atravessada pelo desejo de sumir, ou de fazê-las sumir. Um desejo louco de “sim” sair sambando em toda essa sociedade suja, fétida e cheia de políticos e ladrões e outras redundâncias que perseguem o meu prazer. Não basta trabalhar dois turnos, tenho que passar por aquela bendita rua, dar boa tarde para ninguém ou para aquelas carolas que gostam de fingir que são simpáticas. Velhas inchadas! Mal amadas! Mas não, ser uma boa pessoa, ser uma pessoa de família, ser outro Silva me põe no patamar de fazer diferente. Não que eu seja contra o nepotismo, pois iria cuspir no prato que eu não só comi, como o lambi. A essa altura, pode pensar que sou outra dessas que reclamam da pouca sorte da vida, dos estresses diários ou de não conseguir nunca ser forte o bastante e mandar a minha sogra se calar vez por outra, ou calá-la com uma indelicadeza que ela consideraria completamente familiar, afinal é a grosseria em pessoa. Olho para o relógio e esse maldito finge que trabalha tão bem quanto eu nas aulas de matemática quando frenquentava. Acho que o dom de desconversar é algo que adquiri entre uma e outra lata de lixo, afinal desfazer de coisas é sempre mais difícil que de pessoas para a maioria, mas não para mim, o mundo dá voltas em suas trezentas e sessentas cacetadas que não me interessam, não pagam minha conta de luz e sinceramente nem sei pra quê estou falando nisso tudo. Dois minutos se passam e essa calcinha só faz me sentir pior. “É de marca” me disse a vendedora, aquela velha feia e mal amada. Pra ser sincera ela não é tão feia, até daria uns pegas nela, se o marido dela não fosse tão mais interessante e dono de uma padaria.  Esses pensamentos que voam e me deixam atordoada. Mas pensar no Seu Ezequiel me deixa “tsunâmica” – risos externos, mas contenho-me –, mas estar casado e presa a esse corpo gordo e fedido não pode ser a melhor maneira de me atirar nos braços daquele coroa. Ele me chamando de vagabunda, de escrotinha ou se reparasse no meu fio-dental por baixo dessa calça sem feições seria uma realização tão boa quanto descobrir que meu salário vai subir exorbitantemente ao mínimo nacional. Essa não foi a profissão que escolhi, subir e descer ruas e fingir diálogos repleto de onomatopeias para agradar os colegas. Francamente engravidar aos 18 só não foi maior erro do que ser presa aos 12 na fazenda de um tio distante, onde trabalhava mais do que agora. Não sei se foi exagero, mas acho que agora trabalho mais. O bom dessa conversa sem voltas é que já são dezessete horas e posso pular desse caminhão e ir para minha casa. O caminho seria um tédio total se não visse o Seu Ezequiel sempre sorrindo com aquela cobra do lado. Por mim eu já teria feito uma mudança na minha vida, seria transexual e linda, mas quem iria querer uma gari trans? E minha esposinha? E meus dois filhos vagabundos? É terrível quando viro a esquina e me vejo na minha vida frustrada. Agora é tomar banho, tirar a calcinha e ir pro bar viver essa vida que tenho. Francismarkson, o gari, mas Franfran em meus devaneios.