04 – As Flores de Tróia
Nunca fui uma pessoa de muita sorte. Minha mãe dizia que minha irmã tinha o “dedo verde”, pois tudo que ela se propunha a fazer crescia, florescia aos embalos de sua voz suave e seu sorriso radiante. Vera era o nome dessa puta. Eu já tive que carregar o fardo de ser filha de jardineira e não conseguir fazer nada dar certo, tudo que eu tocava virava adubo de acordo com minha amada mãe. Eu era a menina dos dedos cagados. Rosa é o nome dessa puta que vos fala se é que interessa a alguém. Cresci fazendo tudo errado, mas não que fosse por falta de esforço, mas acho que foi o fardo psicológico que me fez nunca acertar nada e de tantos gritos e reclamações que ouvi na vida, notei que eu só me dava mal e isso sempre com estilo. Não fiz muitos amigos na escola, não por ser feia – modéstia a parte sempre fui uma delícia – ou por ser burra, vencia sempre os campeonatos anuais de redação e tudo mais que minha mãe não pudesse comparecer com aquele avental sujo de terra e a leve impressão de que eu iria envergonhá-la mais que aquele guarda-chuva de estampa floral que ela utilizava até a noite. Terminei os estudos, não me interessei por nenhuma faculdade que dependesse da ajuda da minha pouca família ou de contatos importantes que nunca tive. E de tanto a vida me foder gratuitamente, decidi que iria começar a cobrar por isso sendo a coisa que sempre fiz melhor, fui ser garota de programa, mas sempre consciente. Comecei em uma boate chamada Tróia, o que me rendeu o apelido de Helena, ou eu que dei o nome ao ambiente, já não lembro bem. Rosa Helena de Tróia, a sem coração. Não vou dizer que foi uma mudança radical, pois estaria mentindo. Foi praticamente como o ensino médio inteiro, algum homem olhava para minhas pernas e se interessava, dava uma piscadinha e com duas semanas desaparecia, a grande diferença é que nos tempos de colégio eles não suportavam minha mãe gritando e hoje é que subo o preço substancialmente por se apaixonarem por mim. Evito homens casados, jovens estudantes ou políticos, afinal não tenho intenção de pegar gente com sonhos ou gente com mais processos que eu. A minha rotina era simples nos tempos que ganhava meu dinheiro com o talento que a vida me deu, mas aos poucos notei que eu estava em uma mudança, um troca-troca, um processo bilateral ou em uma dialética com a vida. Não sei bem como tratar com você leitor, essa minha iniciação a escrita tem um grande problema: não vejo sua face, não imagino se tomou banho ou se tem alguma pretensão além-sexo, coisas que eu sabia de cara, mesmo de quatro, conhecia o outro pela pegada, pela maneira de se portar ou como terminava o combinado, mas vocês eu não sei bem, mas cá estou tentando ser clara, não tão chata ou forçando a barra para que sejamos amigos. Não quero que me entendam como uma dessas que reclamam tanto, essas são as esposas ou como alguém que está aqui para te ouvir, essas são as amigas, sou mais que profissional das letras, mesmo sem ser formada. Agora mesmo você deve estar imaginando minhas formas ou qualquer outro trocadilho engraçado de uma linha atrás. Lembro que o último cliente que tive foi o estopim para que eu decidisse mudar de vida. Nunca havia o visto, nem se quer imaginado que alguém como ele existiria ou sentiria a necessidade para ir a Tróia, mas ele passou pelo salão, viu todas as outras meninas, mas para mim ele jogou uma rosa, convidou para sentar no bar e perguntou quanto eu cobrava para conversar sobre o universo, sexo e outras divagações que surgissem. De cara achei o programa desnecessário, um cara pouco atraente, mas seus óculos refletiram minha necessidade de conversar sem segundas intenções com alguém. Foram horas muito engraçadas, foi tipo como se eu tivesse dado ouvido as poucas pessoas que diziam que eu estava perdendo tempo em ser prostituta. A Tróia já estava fechando, notei que não bebemos mais que suco e mesmo assim ele se deliciava com minha maneira seca de contar a vida. Foi irônico encontrar um caminhoneiro que era padre, mas que tinha abandonado o celibato quando descobriu que não era gay ou tampouco cristão. Ele tinha poucos amigos, também tinha pouco tempo ou interesse em conversar com as pessoas “normais”, sendo estas as que mais julgam, menos enxergam e fazem todo tipo de promessa para se sentirem melhor. Graças ao Marcão eu percebi a minha necessidade de realizar outros sonhos. Hoje sou completamente realizada, montei uma rede de lanchonetes focada em pessoas que gostam de conversar, graças ao dinheiro que recebi do processo que abri contra um jogador de futebol que não quis pagar o programa por no final descobrir que eu não era travesti. Tenho meu próprio negócio, virei palestrante para pequenas empresárias e para pessoas que possuem infâncias marcadas pelos maus tratos domésticos e estou quase convencendo minha irmã a largar a seita religiosa que ela entrou depois de ter sido convencida por minha mãe que ela era a reencarnação de alguma cantora dos anos 30. Dia desses relato outros absurdos que rolavam na minha infância, mas não hoje, porque estou de voo marcado para o Goiás encontrar o Marcão que mudou de nome, decidiu que era gay mesmo e montou uma dupla sertaneja com o namorado dele o... Até pensou que eu ia contar, hein? No mais estou feliz, diretamente da Tróia Lanches, Rosa Helena.
