por Calebe Lucas
#02 - Vai comprar confeito? Não? Caia fora otário!
Nazaré era dessas mulheres que tinham atinado para vencer na vida. Uma mulher simples de cabelos oleosos, que não fazia muito caso de ter as sobrancelhas bem desenhados, de ter o rosto maquiado ou de se desfazer de seu busto, que lhe rendeu o apelido de Nietzsche na faculdade que chegou a cursar trabalhando no que ela dizia ser sua empresa de prazeres infantis, onde negociava nas calçadas que a vida lhe propunha em um senso nômade a guiava. Nazaré não ligava muito para se fixar, ter uma clientela, bastava ela fazer o dinheiro de pagar as contas no fim do mês que tudo estava bem. Ela sempre deixou claro que sua carreira profissional estava acima de todos, que seu prazer era ser elogiada e não compreendida, afinal a única palavra que a interessava era “dinheiro”, em um senso capitalista que ela odiava ter que admitir e negava diariamente a si mesmo. Ela havia construído sua barraca nova através de seu esforço, ora pra comprar os materiais, ora pra sair pedindo caixas de papelão em supermercado ou se gabando de como suas vendas no carrinho de confeito iam bem. Conseguia secar todo o seu estoque semanalmente, vendia tudo a preços absurdos, mas ela já havia entendido como era vender doces em sua pequena cidade: bastava observar a TV com um olhar diferenciado. Ela foi aprendendo como tratar seus clientes até que os tivesse nas mãos, viciados em deus doces caseiros, suas balas temperadas ou suas balas artificiais compradas em outro estado. Sempre que Nazaré se metia em algo era pra vencer, era dessas capricornianas obstinadas, teimosas e de poucos amigos. Na favela onde vivia ninguém queria confusão com uma pessoa tão louca quanto ela. Alguns diziam que Nazaré tinha filhos, outros afirmavam que ela havia ganhado as crianças em um jogo de sinuca, mas ela mesmo só ligava para suas gatinhas de estimação. Nazaré gostava de acender seu cachimbo e assistir seu barraco ser construído, passo a passo enquanto torcia para as pessoas martelarem os dedos. Nazaré era uma vendedora de doces amarga, bigoduda e tão confusa quanto sua orientação sexual. Não era viciada em nada a não ser ganhar dinheiro, mas não o bastante para largar sua favela, seus vizinhos e aquelas crianças que vigiavam sua barraca enquanto ela saia para vender. Nazaré tinha seus prazeres definidos, pouco ligando para a vida, pouco querendo ser entendida e com toda aquela ganância de ser dita como a melhor vendedora de doces em carrinho, dona do maior barraco das redondezas, a pobre mulher com dois filhos adotivos que estudavam na capital, a mais querida pelos animais e a mais temida numa briga de facas de mesa. Era uma mulher cegada pela vontade de vencer suas metas, mas ensurdecida pela falta de humildade. Ela confundia pobreza com humildade, não tomar banhos regulares com penitência e Jesus com pastores em canais da televisão aberta. Ela se sentia atacada por todos, ofendida e mirada. Todos tinham inveja dela, todos deveriam se emocionar enquanto ela falava. Já cantara liricamente, tocara em festas de igreja, casara, amara e tudo mais que uma pessoa pudesse fazer com o coração aberto a opiniões. Tornou-se alguém de estatura média, coração amargo e cheia de ratoeiras nas palavras. Talvez ela confiava demais em si ou talvez ela só quisesse ser um outro alguém. Nazaré hoje está presa em suas memórias confusas, em seu barraco erguido por menores de rua, em seu ego imoral e esperando um vento que a leve para outro país, outra época ou onde o pretérito ainda não era mais que perfeito, era presente real e singular, onde seu bigode não representava sua mágoa e as promessas de mudança era de dentro pra fora e não de calçada em calçada vendendo confeito, doces, drogas e ilusões. Nazaré não tem direito a condicional, não tem advogado e cria provas todos os dias que não é feliz por ter abandonado a menina que um dia fora, vivera e matara.

Achei muito bom o relato de hoje, em especial por se tratar de uma personagem paradoxal, gosto de relatos onde um lado cômico surge de situações onde normalmente ocorreria situações dramáticas e/ou debochadamente "pastelônicas" parabéns pelo relato de hoje. Já sou fã do blog, aguardo ansiosamente o próximo relato!!!
ResponderExcluirMuito bom mesmo... quantos filhotes de Nazaré não existem por aí a fora.
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