por Calebe Lucas
#01 – Vida escondida.
Vez por outra eu acredito que a vida gosta de me provocar. Sinto que há um certo prazer nas nuvens quando eu me dou mal. Seria pedir demais um pouco de respeito? Um copo limpo e alguns poucos centavos de gratidão? Passo pelas pessoas da rua e sinto-me atravessada pelo desejo de sumir, ou de fazê-las sumir. Um desejo louco de “sim” sair sambando em toda essa sociedade suja, fétida e cheia de políticos e ladrões e outras redundâncias que perseguem o meu prazer. Não basta trabalhar dois turnos, tenho que passar por aquela bendita rua, dar boa tarde para ninguém ou para aquelas carolas que gostam de fingir que são simpáticas. Velhas inchadas! Mal amadas! Mas não, ser uma boa pessoa, ser uma pessoa de família, ser outro Silva me põe no patamar de fazer diferente. Não que eu seja contra o nepotismo, pois iria cuspir no prato que eu não só comi, como o lambi. A essa altura, pode pensar que sou outra dessas que reclamam da pouca sorte da vida, dos estresses diários ou de não conseguir nunca ser forte o bastante e mandar a minha sogra se calar vez por outra, ou calá-la com uma indelicadeza que ela consideraria completamente familiar, afinal é a grosseria em pessoa. Olho para o relógio e esse maldito finge que trabalha tão bem quanto eu nas aulas de matemática quando frenquentava. Acho que o dom de desconversar é algo que adquiri entre uma e outra lata de lixo, afinal desfazer de coisas é sempre mais difícil que de pessoas para a maioria, mas não para mim, o mundo dá voltas em suas trezentas e sessentas cacetadas que não me interessam, não pagam minha conta de luz e sinceramente nem sei pra quê estou falando nisso tudo. Dois minutos se passam e essa calcinha só faz me sentir pior. “É de marca” me disse a vendedora, aquela velha feia e mal amada. Pra ser sincera ela não é tão feia, até daria uns pegas nela, se o marido dela não fosse tão mais interessante e dono de uma padaria. Esses pensamentos que voam e me deixam atordoada. Mas pensar no Seu Ezequiel me deixa “tsunâmica” – risos externos, mas contenho-me –, mas estar casado e presa a esse corpo gordo e fedido não pode ser a melhor maneira de me atirar nos braços daquele coroa. Ele me chamando de vagabunda, de escrotinha ou se reparasse no meu fio-dental por baixo dessa calça sem feições seria uma realização tão boa quanto descobrir que meu salário vai subir exorbitantemente ao mínimo nacional. Essa não foi a profissão que escolhi, subir e descer ruas e fingir diálogos repleto de onomatopeias para agradar os colegas. Francamente engravidar aos 18 só não foi maior erro do que ser presa aos 12 na fazenda de um tio distante, onde trabalhava mais do que agora. Não sei se foi exagero, mas acho que agora trabalho mais. O bom dessa conversa sem voltas é que já são dezessete horas e posso pular desse caminhão e ir para minha casa. O caminho seria um tédio total se não visse o Seu Ezequiel sempre sorrindo com aquela cobra do lado. Por mim eu já teria feito uma mudança na minha vida, seria transexual e linda, mas quem iria querer uma gari trans? E minha esposinha? E meus dois filhos vagabundos? É terrível quando viro a esquina e me vejo na minha vida frustrada. Agora é tomar banho, tirar a calcinha e ir pro bar viver essa vida que tenho. Francismarkson, o gari, mas Franfran em meus devaneios.

Texto digno do autor, como sempre, dando show. No aguardo dos próximos relatos absurdos rs'.
ResponderExcluirbom de mais viu...só vc pra arrasar assim!! Adorooo
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