quarta-feira, 25 de junho de 2014
terça-feira, 10 de junho de 2014
Relatos Absurdos - #009 [capítulo final]

#09 - Viola Sem Corda
Essa é a história de Claricia Violoeira. Diferente de outras Claricias essa era abstrata e diferente de outras violeiras, essa não tocava violão, apenas outras mulheres. Das mulheres mais nobres e violinas, as mais baixas e encorpadas, as violoncelos. O próprio prazer variava entre tocá-las e violá-las sem força, sem muita fala. A sedução era algo tão natural quanto respirar. Para Claricia, MPB era um funk, ela transpirava os clássicos internacionais, o patrimônio dos imortais da música intercalava com os gemidos de suas amantes, seria vulgar imaginar uma nova roupagem em um quarto iluminado por dois corpos nus. Não havia espaço ou tempo que contivesse o desejo que se fazia tão presente quanto à cama ou mais audível que o dedilhado que ela fazia no corpo alheio. As melodias sempre partiam do cruzar de olhos, do descruzar das pernas, dos sorrisos repletos de fascínio. A linguagem transportava de um órgão a outro, transbordava de corpo a outro. Claricia não existia. Ela não era, mas estava. Envolta no encontro de uma outra mulher, do abraço forte, do cheiro forte, do desejo intenso. Tudo seria louco, se não seguisse uma harmonia tão perfeita, nada na vida parecia fazer sentido até aquele momento. Não importava a qual órgão Deus delegou a audição, pois todos ouviam o que as almas soavam. A natureza havia se encarregado de cada detalhe. Um ou outro espumante não fariam mais diferença para aquelas que se tremiam ao se verem completamente nuas nos olhos de Claricia, pouca importava a suas amantes quem elas eram, na orquestra da sedução elas vislumbravam fazer parte, ouvir o som que o seu próprio corpo fazia ao serem exploradas com tanta precisão. Nos grandes salões do mundo, os grandes homens se encontram para discutir o futuro das guerras, dos seus milhões, mas pouco entendem de conquistas. Brincam com as fronteiras imaginárias de um país a outro, pensam que estão à frente das mulheres, protegendo-as, enganando-as, mas estão nelas os mais belos sons, as reais fronteiras, todas as vertentes de felicidade em seus vértices, em seus graus, em todos os seus ângulos. Claricia explorava sem força, conseguia ir além. Ela é a droga ainda não sintetizada que os homens tanto sofrem em busca. Nas matas dos corpos, nas florestas de almas, felicidades escondidas no oceano mais profundo do mundo: o coração de uma mulher. E lá Claricia está nadando e brincando com todas as musas do saber. As fadas não são tão diferentes das mulheres que sabem amar.
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