
♪ Era uma vez, um lugarzinho no meio do nada... ~VASHINA~
Após tantos meses de hiato na novela, vamos aos desfechos das nossas personagens que tanto movimentaram minha vida nos bares e redes sociais nos meses passados. Gostaria de agradecer a paciência de todos e o carinho com que receberam a novela. Confesso que foi o tempo complicado, mas o resultado final me deixou satisfeito. Espero ter conseguido versar bem entra o novo e vulgar, sem parecer uma música de forró. Obrigado a todos, vamos agora checar o final.
Em Campo Grande...
Suzana amarrou Vagina e recuperou a geladeira que havia sido vendida. Ela planejava e rabiscava com giz de cera um meio de dopar Vagina. Já tinha encontrado um desses médicos recém-formados na Bolívia para fazer a cirurgia de realocação vagino-uterina, mas carinhosamente gostava de rir e conversar sozinha em frente ao espelho, ora para decorar o nome, ora pra se imaginar com um pacotão inchado. Trancada, sem beber ou comer, no quartinho velho, Suzana ficava revirando seus pensamentos e rumando pra uma loucura total. O leiteiro, o padeiro e o açougueiro já tinham tomado ela por doida varrida e param de cobrar os meses de atraso [ambíguo, mas a intenção é que seja nos dois sentidos mesmo]. A própria Vagina já nem ligava mais para os disparates da colega, mas uma certa tarde tentando ver as reprises da tv aberta notou que as vilãs sempre surtam e que não devia subestimar ninguém. Começou a temer pela vida e decidiu se perguntar onde queria chegar numa cidade do interior, tão deslocada e distante de sua terra natal. Vagina sacou de dentro de si um travesseiro e se meteu dentro. De lá, parou para ouvir o que tanto Suzana conversava de frente pro espelho, tentou não rir e por fim, tentou não chorar. Sentia-se usada, comida e mau paga. Como podia aquela que outrora fora sua fortaleza, fora companheira nos ideais libertários e parceira no jogo de pife contra as travestis do fim da rua. Vagina não tinha muito tempo, de acordo com os planos que ouvira, Suzana planejava para o meio de agosto, período em que iam juntas comprar roupa para a Feira da Cultura, pôr o plano em prática. Ia passar meter diazepam na cachaça matinal de Vagina para levá-la direto para o seu médico sem CRM, o ardiloso Prácheca De La Luzita Piscante, autointitulado "Arranca Tora".
Assim que a louca perdida parou de conversar e desmaiou de fraqueza, Vagina correu para o açougue e comprou um órgão feminino de uma vaca, lavou e maquiou para deixar parecido com ela. Tanto na cor, quanto no tamanho. Escreveu um bilhete de despedida e lambuzou toda sua armadilha com super cola e beterraba; Naqueles planejamentos loucos, Vagina só conseguia pensar na sua Esmerilda que deixou em Patu e decidiu que nada pode terminar bem quando se começa errado. Largou o álcool, fez a barba e decidiu que ia voltar a Patu, mesmo sem ser budista ou ter pretensões políticas, queria apenas ser feliz, recomeçar e perder a virgindade ao lado de sua outra-outra metade. E assim o fez. Assim que anoiteceu pegou seu rumo, olhou pela janela pra ver se tudo estava no lugar e se Cuiabá tinha acento no "u" ou no "a" final, mas pouco lhe importava a grafia desde que a louca da Suzana caísse no bilhete que estava e escrito assim
"Suzi, minha Ana,
Vamos comer comigo essas rodelas de beterraba.
Vamos ficar vermelhas e selar nosso futuro com um beijo de avermelhar
os lábios - grandes e pequenos - e quando terminarmos, lembre-se: CÚIABA.
Kkkk,
Vagina"
Tão rápido quanto pode, Vagina correu e correu até o cair da madrugada. Aprendera a cavalgar em cachorros e isso a fez economizar muito dinheiro e paciência com aqueles moto táxis cabidos de Campo Grande. "Cãovagou" até Olho D'Água e adormeceu próximo a saída que leva a Patu.
Em Patu...
Ilda, ex-Esmerilda, após dar a volta por Almino Afonso, Frutuoso Gomes, Lúcrecia e Rafael Godeiro, decidiu ir a Olho D'Água, algo nela piscava e ardia indicando que a sua busca teria um fim. Não pelo desenrolar da estória que já seguia longa e complicada demais, mas porque sabia que sua felicidade estava próximo. Acelerou na sua traxx e rumou ao seu destino.
Em Campo Grande...
Naquele velho quarto Suzana acaba de acordar. Decidiu que ia vender o fogão, iria comprar umas calcinhas novas e tudo mais. Mas tapada e viciada em inalar o gás butano, não ligou em fechar nenhum registro. Estava estasiada e notou que "Vagina" estava dormindo toda vermelha. Foi uma visão sexy e perturbadora! O que era aquilo? Ela não conseguiu pensar em nada produtivo e o gás que já começara a chamar atenção da vizinhança estava por toda parte. Ela pensou que poderia ter envenenado a órgã amiga ou poderia ter assassinado aquela que tanto ama. Perder a sua própria vagina era demais, mas perder até aquela que encontrara na vida, era demais! Pegou o celular, meteu na parede para simular uma briga [?], foi até o quintal, bateu com a cabeça no muro até abrir uma ferida. O gás a protegia da dor e dá um "ar" cômico em tudo. Suzana ria enquanto sangrava. Parou por um minuto para se concentrar e deu uma "fungada" e gritou: "Eureka!", ela ia atear fogo na casa! Encontrou duas pedras de fogo e figou pelejando até conseguir uma faísca. De repente a casa explodiu e ela foi jogada para o tanque. A vizinhança ligo pra polícia e todo o alarde estava feito. As beatas fofocava, as travestis riam e o dono do bar chorava com os demais pinguços enquanto tomavam uma dose de cachaça em homenagem aquela estranha periquita que contava tantas piadas engraçadas. Suzana, depois de molhar a cabeça, sentiu que a lombra a abandonara e que tinha destruído, sem ajuda de ninguém, outra vez, a própria vida, os sonhos e um contrato que tinha pago a vista para aquele médico chinfrim. Sem dinheiro, rumou até a estrada esperando anoitecer e pedir uma carona para longe de seus pecados. Ao cair da noite, ela abordou um caminhoneiro. O homem no primeiro desacelerou. Parou o caminhão, baixou o vidro e viu aquela mulher do cabelo estranho. Com voz seca e rude, perguntou o que ela queria e disse que não dava carona. Suzana ficou perplexada e falou:
- Cara, estou afim de dar uma vi...
Algo estava estranho em sua voz. Falava rouco e grosso. De imediato pensou que o gás tinha danificado as cordas vocais dela. Sua voz de recepcionista de motel agora lembrava um desses gays que se travestem e fazem carão em avenidas do Brasil. Pensou que seu plano teria ido por água a baixo, até que notou o brilho do caminheiro. Ele a olhava por inteiro. Por dentro e através. "O que diabo ele tanto olha, hein?" pensou consigo mesma. O caminhoneiro abriu o sorriso e disse:
- Oras, uma travesti bagunceira. Por um momento pensei que era uma mulher, mas que coisa! Vocês andam investindo pesado nisso de mudar de sexo. Eu tenho uns brinquedos e uns dedos divertidos. Estou indo pro Amazonas. Se quiser, podemos nos curtir no caminho.
Suzana se ria que se mijava! Oras, alguém que a queria mesmo sem vagina e com uma oportunidade ímpar de invadir uma aldeia amazônica! Pensou nos índios, na mata e em como poderia ficar rica vendendo açaí e guaraná. Uma lágrima rapidamente escorreu pelo rosto pensando em Vagina. E disse:
- Vamos cara! Atoooro um amassa-amassa. Vagina essa é pra você sua tostadinha!
O caminhoneiro acreditando ser alguma gíria gay não deu trela e cuidou em pegar uns pênis de plástico. Trancou o carro a porta do caminhão e disse:
- Eu não sei o que quer, mas agora será toda minha. Eu uma vez estava fazendo sexo com uma jumenta e ela não soube fazer o oral. Com ódio, arrancou meu pequeno pênis com tudo em uma mordida só e agora sou um homem com dedos ágeis. Algum problema?
Antes de Suzana responder, ele acelerou o carro com tudo e ela decidiu dar uma de ofendida e virgem. "Pouco me importa se não tem pinto, eu também não tenho." e ria pensando que sua vida nova seria linda e cheia de linguadas! E lá se foi, seguindo as travessias da vida com seu novo amor, o caminheiro sem pinto. ~FIM de Suzana~
Em outra parte do país...
Esmerilda em sua traxx, vem correndo e avista um cachorro com algo nas costas. Ao acelerar mais atropela o cachorro e cai com tudo, batendo a cabeça na parede e caindo numa estranha posição de auto-oralidade-sexual no asfalto... Estranhamento macio, estranhamento com um cobertor. Olha para cima e vê o velho telhado de seu quarto e de lado sua vagina. Onde estava sua traxx, era seu velho ventilador e então, ao tirar a ramela do olho, consegue ver e não acreditar que tudo isso tinha sido um sonho, até que escuta sua mãe jogando praga e perguntando que cabaré era aquele. Esmerilda corre pro banho e sem acreditar vê que está tudo no lugar. Pensou que o sonho foi um aviso vindo de algum anjo louco e tarado. Pegou a tesourinha de unha e aparou os pelos pubianos. Viu que sua vagina meio que sorria para ela e que deveria se conhecer mais. Acreditar em suas capacidades. Que aquela vida de tabus e medos a que a mãe a obrigara a viver não era vida de verdade. Decidiu pegar todo aquele entusiasmo e transformar-se. Saiu do banheiro outra menina. Mesmo andando engraçado, havia dando uma geral nas pernas e axilas, penteou o cabelo e passou uma lavanda que só usava nos cultos. A mãe fico boque-aberta ao vê-la tão mudada, quase teve um infartou, mas ainda conseguiu dizer duas ou três ofensas. Esmerilda apenas sorriu. Prendeu o cabelo e foi tirando toda a sujeira de sua vida. Mudou por dentro e foi modificando a sua vida. Mudando o jeito grosseiro de sua mãe, apenas usando palavras gentis e estudando, lendo e vendo menos TV.
Você jovem que acredita que a vida está fadada a ser a mesmice, que não sabe ler e não acredita ser capaz de mudar o seu meio, use Esmerilda como exemplo. Não espero algum órgão seu te abandonar para ser a mudança que espera nos outros. A vida está aí, mas não para sempre. Conheça-se. Conhecimento é poder.
F I M
