
07 – Finada Florabella
Florabella de Oliveira Barros está morrendo. Ou melhor, morreu. Se ela fosse verbo, assim como “morrer” ela seria intransitiva, assim como “chegar”. Apenas chega, sem saber de onde ou o porquê. Apenas morreu, talvez tenha batido muito forte o coração contra a vida ou tenha sido a tristeza que tenha dominado todos os seus órgãos, mas não importa. Não sei qual a sua religião, mas na minha deixamos quem morre descansar e se for de algum interesse fazemos o seu legado ser conhecido ou útil. Conto a notícia com certo ar de desdém, mas sei que será melhor assim, pois sei que ela também desejava por esse dia. Aqueles olhos de quem acabara de acordar a cada vez que lhe dirigiam a palavra misturado com aquele perfume que só a mãe dela usava não fizera de Florabella alguém de se sentir saudades. Ela sempre soube que se pode viver nesse mundo fugindo de tudo, sendo sincera e acreditando em tudo que lhe diziam. A inocência a matou da pior maneira: aos poucos. Era uma tola que usava saias longas e blusas florais. Que insistia em vestir-se bem a todos os momentos, de aprender músicas para tocar no violão que um dia iria comprar, de aprender receitas as quais não sabia nem onde encontrar os ingredientes e por ver televisão como algo sem função na vida de uma menina politizada. Falar em Florabella é querer chorar por não a tê-la feito entender que o mundo cabe realmente em uma gaveta de calcinhas, cheio de novas antiguidades e velhas novidades. Talvez se ela tivesse se esforçado em fazer parte de algo não tivesse tido um fim, não tivesse enlouquecido ao ponto de sumir em si. A solidão não a fez forte, a fez louca, mas bem louca mesmo, dessas de atirar pedras na lua ou de apostar em dias melhores. Lembro de uma vez em que ela tropeçou no meio da rua e ficou engasgada com a vergonha. Começou a sufocar e sentir que suas últimas palavras seriam apenas miados. Ela deu sorte por ter sido levada ao hospital, mesmo sem saber bem como, mas foi. Tomou todo tipo de chá pra expelir aquele fragmento de vergonha que a fazia sentir-se tão pequena. As pessoas as chamavam de amiga e pediam que tivesse calma, mas eram apenas informações vagas, pois Florabella não tinha amigas e muito menos calma, ela queria ser outra pessoa ou ter coragem. Quem sabe algumas doses de coragem não fizessem acordar daquela sensação horrível? Foi justamente o que o médico a receitou, uns 500mg de coragispina aplicado direto na veia que leva ao coração, mas infelizmente ela se agarrou ao medo com todas as forças que tinha e encontrou nele abrigo. Depois desse dia até o espelho gritava pra ela, em tom de ironia que havia uma machinha de Florabella no medo dela. Não consigo sentir piedade de uma pessoa como ela, mas mesmo assim ainda sinto um certo remorso por não ter sido de outra forma o seu fim. Tenho certeza que a Paloma iria implicar muito com ela, que o André iria tentar convencê-la a beber com a gente no final de semana, que o Samir ia amarrar ela no carro e partir com a turma toda enquanto bolariam de rir com ela rezando feito uma louca para que os santos a tirassem desse tipo de maluquice. É viver tem muito disso de contrapesos. Ela morreu e teve de fazer isso. Escrevo isso agora para não esquecer dela, para me lembrar bem de que as minhas qualidades são legados dela e que só estou aqui graças as mudanças. Não sou mais aquela pura Flor e, de acordo com o Lauro nem sou “bela”, sou muito é gostosa e quero mesmo é que o mundo não acabe antes deu decidir se posso mesmo me reinventar para não acabar como acabei uma outra vez, em um tempo que já passou e que tinha lacinho marcado a última página lida.
Parabéns ao autor seus relatos são de uma significância, e precisão estupenda.
ResponderExcluirFico encantada e lisojeada com seus trechos ricos do bom uso da lingua portuguesa...
Continue assim sdd
Primeiramente quero relatar o quão feliz estou de ter tido um comentário seu por essas bandas, é de um importância tremenda a visita dos meus amigos aqui. Obrigado pelo comentário, não vou discordar contigo pq sei que é teimosa, se diz que está bom então está kkkk Xero grande, vou aguardar outas visitas.
ExcluirLendo o relato de Florabela vejo o quanto vc conseguiu mostrar os contrapesos qué a vida tem, mostrando uma personagem qué relata a própria vida como se ela mesma estivesse alheia. Estranhamente gostei do relato de Flor, elaconsegue mostrar, significativamente, o qué traduz a palavra reflexão...
ResponderExcluirMuito obrigado pela visita e pela reflexão amigo.
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