Prombolo do Mar
O amor é o tema mais clichê que alguém pode falar, é o ridículo amar, mas o quanto eu não daria para estar outra vez do lado da pessoa amada. Meu Deus, o quão errado eu fui enquanto cedi minha vida aos que condenaram o meu amor. Culpo-me toda vez que penso que não deveria ser assim, mas a gente não manda, não escolhe, não pode mudar mesmo que queira. Compartilho então a minha dor e me abro às pedradas que derem, quero é ter minha alma lavada pelo mar que quebra e se quebra nas paredes desse continente, desse titã. Eu não sei de tanta coisa como antigamente, mas sou forjado nessa imensidão de solidão a qual me condenei, sou o mártir de coração atado, cuspido e amordaçado. Aldir, toda vez que pronuncio seu nome sinto que pode me ouvir, mas não responde. É o preço que pago. Há muito tempo, eu não era esse de barba rajada com grisalho que vos fala, não tinha esses olhos de maresia que encara esse papel, não tinha nenhuma dessas marcas do tempo, da dor, da alma e nem estava escrito em meu rosto a alcunha de “medroso”, eu estava naquela idade em que o corpo reage, em que a mente pulsa e em que o coração bate em ritmos diversos, de verso em verso, era uma poesia ser jovem, ter cabelo cacheado e matar aula pra colher fruta madura, roubada e gostosa. Fazia isso todo dia, era o lado bacana de não ter pai, o lado ruim era quando chegavam as reclamações da rua e minha mãe já sobrecarregada de trabalho ainda tinha de me aturar, me sentia um peso perto dela. Pobre minha mãe, que o deus dela tenha a recebido tão bem quanto ela merecia. Minha mãe não aparentava a idade que tinha, a dor a acompanhava desde criança. A vizinhança quem me contou como ela era bonita, como meu pai a fazia feliz, como era ser “galega” de olho azul e viver como mulata de cabelo bagunçado, o amor a moveu e não sei bem, na verdade cada pessoa me conta de um jeito diferente o fim que meus pais tiveram. Meu pai foi herói para minha mãe, mas morreu bandido para a sociedade. Morreu preto, ladrão e pobre. Minha mãe está aqui até hoje comigo, mas muitos dizem que ela morreu naquele dia também. Seus olhos azuis já não lembravam o céu, estava mais para algo lavado em lágrimas. Sofria por não poder fazer nada para ajuda-la, mas eu sofria mais em vê-la sentindo a dor dela, a dor da casa, a dor de minhas peraltices. Ser criança foi bom, mas passou rápido. Não tenho lembrança de meu pai, só temos uma foto juntos, mas hoje, frente ao mar, posso jurar que segui seus passos sem saber. Deixei lá no sertão a pessoa que mais amo sofrendo por mim, a diferença é que estou vivo em corpo aqui. Cresci sem saber como; Cresci assistindo minha mãe se descompor na bebida, entregue sozinha toda noite na cozinha, chorando baixinho. Quando eu fiz 18 anos, minha barba já despontava, o tempo de criança já passara, não sei como ainda estava na escola e minhas notas não eram tão ruins, já ajudava numa fazenda perto para levar umas frutas, dessa vez frutas compradas para minha casa. Eu via minha mãe sorrir, ela amava esse tipo de coisa, às vezes penso que o cabelo dela deveria ser de flor. Mas era um sorriso rápido, como a chuva que passava por lá. Nessas horas ela estava lá comigo, perguntando pelas minhas notas e se eu já tinha uma namorada. Eu falava que não gostava da escola, mas ia estudar muito pra ajudar em casa e depois eu ia procurar uma pessoa pra amar. Minha mãe ria, me chamava de valente, de “Dr. Abimael” e eu pensando que ia dar tempo comprar um presente pra ela. Nesse mesmo ano minha mãe faleceu. Faleceu sem ser avó. Eu não sei dizer pelo que chorei naquele dia: por perdê-la ou por pensar em tudo que eu passaria depois.
Naquele ano nada mais parecia interessar, mas consegui terminar os estudos e trabalhava ainda na mesma fazenda. Sempre que podia estava na casa que minha mãe deixou. Eu arrumava, procurava deixar tudo no cantinho. Acho que lá no fundo eu estava esperando ela chegar cansada da cidade, ou lá no fundo eu estava deixando minha dor em ordem. Machucando a mesma ferida pra não deixar virar cicatriz. Se eu esquecesse o rosto da minha mãe seria como deixar de existir. Lembro que todo mundo na escola tinha terminado aquele ano me olhando diferente, me vendo com um buraco, ou vários buracos transpassando todo o meu ser. Mas no domingo eu podia contar ainda com Marlene e seu irmão mais novo, João Aldir. Eles sempre foram legais comigo e depois dessa barra que eu vinha passando, o pai deles sempre me chamava para passar o domingo por lá. A criança em mim era feliz jogando bola, desbulhando feijão, brincando no açude. Acho que eles foram minha família nova. Em toda parte estávamos nós três e para mim estava bom. Marlene começou a cuidar da minha casa, das minhas roupas e eu tinha alguém para quem levar frutas. Vez por outra o dinheiro dava para comprar umas diferentes e ela adorava, na verdade ela e o irmão. O tempo foi passando e o pai deles me perguntou se eu havia tido algo com Marlene, mas era sempre naquele tom de brincadeira de quem quer dizer alguma verdade, mas a ideia foi amadurecendo na minha cabeça. Acho que já tinha idade de pensar em ser herói de alguém. Aldir enchia a boca pra dizer que não gostava dessa ideia de desfazer a amizade, ele queria que a gente fosse embora pro litoral. Falava muito em virar pescador, ter o próprio barco e viver uma vida cheia de emoções. Ele falava que amava o mar, mesmo sem nunca ter ido lá. Caíamos na risada, ele pulava me derrubando no chão, Marlene nos batia de brincadeira com uma velha colher de pau e as conversas sempre corriam. Felicidade é algo pra ser cultivado todos os dias, agora consigo pensar nisso. Depois de um tempo, a Marlene ficou estranhada comigo. Não queria mais estar o tempo todo com a gente e saiamos para o açude pescar só eu e o Aldir. Eu perguntava pela irmã, mas ele também não entendia.
Lembro que num dia de chuva, a gente ainda estava no açude e o céu estava bonito para uma tempestade grande. Aldir sempre aparentou ser franzino, mas era corajoso de verdade, sempre mexia com ele dizendo que precisava ganhar uma carninha pra poder arrumar uma mulher, ele só ria e dizia que quem gostasse dele ia gostar dele magro, porque pescador gordo afunda o navio. Nesse dia chuvoso, corremos o máximo que as pernas podiam levando o peixe no bagageiro da bicicleta e Aldir levando as redes consigo. Ela ria e eu tremia. Esse negócio de relâmpago, de raio ou trovão nunca foi meu interesse, o importante pra mim era correr pra me esconder embaixo de um lençol. Aldir corria na minha frente e meu medo só me fazia ter olhos para ele. Naquele instante notei que não era tão franguinho como anos atrás, que estava já com as costas de homem e marcado pelo sol que tanto castiga essa terra. Senti-me estranho. Senti-me quente por dentro, estava ficando surdo para o céu, mas ouvia meu peito batendo forte, estava ficando cego para os lados, mas o via guiar meu caminho, eu era então pequeno outra vez, fraco outra vez, mas sentia-me bem. Não sei quanto andamos, mas até hoje esse sentimento volta quando me lembro daquele dia. Chegamos numa casa velha, joguei tudo pro lado e me sentei encolhido no canto da parede, não queria parecer fraco, nem com medo e nem pensando estranho no meu amigo. Não podia depois de grande, depois de homem feito virar viado. Lembro que o ódio me fez irracional, empurrei Aldir do nada, quis espancar ele ali só por me fazer sentir daquele jeito. Ele caiu do empurrão e me olhou sem entender: primeiro o motivo de eu tê-lo empurrado e segundo do porquê que eu chorava. Sei que ele chorou sem querer também. E eu caí duas vezes em mim. A dor foi maior, me senti um bicho, me senti ferido. Fui pra fora e não ouvia e nem via mais nada, aquilo que eu havia me tornado só sentia medo da verdade. De repente eu caí. Na verdade fui derrubado. Aldir pulou em mim, me pediu calma. Eu só gritava pra ele me soltar e dizia que não era viado, ele gritou pra eu me calar, mas não conseguiu. Então me beijou. Eu calei e cedi. Nesse instante eu não pensei. Não fui eu e nem a opinião de ninguém. Eu fui de alguém, e não podia abrir o olho e encarar a verdade, então chorei, mas era uma lágrima quente. Acho que fui feliz como nunca havia sido antes. Senti verdade, senti o braço, sentido o calor de outro corpo e a chuva. O vento e a tempestade era só detalhe, era uma melodia fraca de fundo que embalou nossos corpos ali. Daquele momento em diante eu sabia que tudo ia mudar, foi aquela sensação de quando havia perdido minha mãe, mas não a dor da perca, mas sim aquele medo da mudança. Depois dali, não fui à casa de Marlene, ela não queria me ver e eu não queria nem vê-la e nem ao irmão. Peguei minhas economias, guardei numa latinha e enterrei no canto da cozinha, embaixo do pote. Sabia que uma hora eu tinha que encarar muita coisa, que minha vida ia ter que rumar pra longe daquela cidade.
Umas semanas depois o pai deles, Seu Miguel perguntou o porquê de eu não ter mais ido lá fazer uma visita, perguntou se eu estava desgostoso com algo e eu respondi que não, só estava olhando a minha casa e pensando em fazer um puxadinho na cozinha. Ele riu, falou que eu estava com cara de quem queria casar e disse que eu tinha de ir lá na casa deles no final de semana pra almoçar, pois era seu aniversário e eu era como parte da família. Não pude dizer não e os dias voaram. Acordava e me deitava pensando nas possibilidades de aquilo não ter acontecido, de esquecer aquilo ou de aceitar que era viado e pronto, já era adulto, tinha minha própria casa e a cidade que fizesse a piada que quisesse, mas pensar nisso era imaginar o desgosto que a mãe ia sentir com mais essa vergonha. Eu havia me decidido a falar com Aldir, dizer que aquilo não dava certo.
Na sexta, eu encontrei a Marlene chorando debaixo de uma árvore, perguntei o que se passava, ela me abraçou e se relutou em dizer, mas não suportava mais a vergonha em ver os pais. Marlene me contou que havia tido um caso escondida com um vaqueiro que havia prometido casamento e então ela se entregou. Fiquei gelado na hora sem saber o que dizer, e ela chorava em meus braços. Perguntei se já fazia tempo e ela disse que fazia uns dois meses e que logo a barriga iria aparecer. Ela estava lá pensando em se matar ou fugir. Estava desesperada. Meu Deus, me desesperei também, me senti inútil e então ela pediu pra eu casar com ela, mesmo que de mentira. Que eu dissesse que o filho era meu, que o seu pai iria fazer gosto do casamento e que mesmo eu não a amando, ela não ia ter ciúmes quando arrumasse uma mulher. Ela ia entender e que iria cuidar da minha. Eu não soube o que responder na hora e a cada lágrima que rolava de sua face, o nó que se formava em minha garganta aumentava. Ela disse que não se importava com quem eu era, com minhas escolhas e eu fiquei gelado sem saber o que dizer, foi então que ela tomou coragem e disse que havia visto eu e o irmão dela se beijando, pois ela tinha ido a nossa procura aquele dia e a chuva tinha obrigado a correr para procurar abrigo e de longe avistou a gente deitado se beijando. Ela disse que eu não precisava ter vergonha, que ela iria entender e que o irmão poderia vir morar conosco.
Minha reação não foi a melhor, mas ela enxugou o rosto disse que estava tarde e foi pra casa, mas antes falou que no domingo iria contar tudo pro pai: ou eu a ajudava e casava com ela ou ela entregaria a gente também. Foram horas de terror, me senti sozinho como nunca havia estado antes. O domingo chegou e eu estava casa. E chorava baixinho, rezava baixinho, me ajoelhei no quarto e pedi uma solução aos céus. Foi então que Aldir entrou, disse que tinha chamado na porta e trazia o recado do pai. Ele sentou do meu lado no chão, eu tremia querendo dizer algo, mas pelo visto não precisei. Ele falou que Marlene havia contado a ele o plano dela e que ele não concordava, mas iria aceitar o que eu quisesse. Ele disse que também estava mal com tudo aquilo, mas que não mandava no coração. Não sei de onde tirei forças, mas perguntei a ele se aquilo era certo, ele me respondeu que não sabia, mas que amor não tem regra, que queria enfrentar o mundo comigo e ir embora. Eu quis rir, mas ele me contou que tinha um plano e falou sobre tudo. Uma lágrima escorreu no rosto, era a minha última esperança de ser feliz. Perguntei a ele o que ele tinha visto em mim. Falei que ele tinha família, que tinha um futuro e que eu não tinha nada, mas o que ele me disse gravou em mim, forte até hoje. Ele disse que naquele dia na casa abandonada parecia que ele estava vendo no fundo dos meus olhos a pessoa por a qual ele estava esperando a vida toda. Talvez a sinceridade de Aldir tenha sido o que mais me tocou, mas eu não tinha condição pra muita coisa. Foi a segunda vez que nos beijamos e dessa vez foi eu. Entreguei com um beijo meu coração, entreguei minha vida outra pessoa e pra mim ficou claro que eu não tive meu coração roubado, ele foi dado. Sabia então que era com ele que eu queria passar o resto dos meus dias, pro sorriso dele que eu queria trazer frutas. Aldir sorriu e eu sorri no beijo. Ele pediu pra eu confirmar no aniversário do pai dele a mentira de sua irmã e que na semana seguinte iriamos embora, fingiríamos que iriamos pescar pra fazer uma festa pro noivado que se aproximava. Não sei se concordei, mas ele entendeu que sim e se virou indo pra casa. Recompus-me, acho que decidi em me entregar a esse sentimento. Não era justo o que Marlene iria passar, nem o que ela propôs e nem entregar toda a minha vida em uma mentira.
Fui ao dito aniversário. Muitos parentes deles estavam lá, tantos que eu nem fazia ideia que a família era tão grande. De repente Seu Miguel levanta, meio alto da bebida, agradece a visita de todos e pede que eu me aproxime. Então ele discursa sobre o orgulho de me ter como amigo, de como eu tinha tudo pra ser o péssimo exemplo do bandido que meu pai foi, da bêbada que era minha mãe e do orgulho de dizer que ele tinha me visto me tornar homem e que com gosto entregava a filha em casamento, pois ela há tempos havia contado em casa que estavam namorando escondido comigo. Todos no terreiro riram e bebiam felizes, exceto eu. Não vi Aldir entre aqueles, talvez estivesse dentro de casa não sei. O ódio me subiu o corpo, estava me sentindo péssimo por ter chamado de amiga uma pessoa daquelas, alguém que vinha tramando pelas minhas costas e ouvir aquele velho bêbado falando de minha mãe sem saber que a filha estava se encontrando as escondidas com um vaqueiro que Deus sabe de onde e quantas meninas não deflorou; Me levantei de cara fechada, falei que agradecia os elogios, mas que não admitia o que ele havia dito com minha mãe. Ele se sentiu constrangido, pediu desculpas, mas o meu ódio foi maior. Disse a verdade sobre a filha e dei as costas sem me importar com levar um tiro ou uma cadeirada. Fui pra casa e notei que Aldir estava lá com uma bolsa do lado. Ele falou que tinha ouvido Marlene comemorando o plano e que não sabia que ela já vinha tramando isso. Contou que o pai quem sugeriu que eu me casasse pra assumir o filho. Me senti traído como nunca. Entrei rapidamente em casa, arrumei minhas coisas e combinei com Aldir a nossa partida. Não sei o que me veio na cabeça, mas falei que fossemos não pro litoral, mas pra uma cidade maior. Ele concordou e eu falei que iria procurar meu patrão para pegar o dinheiro. Aldir correu pra casa.
Olhei pra minha casa, a cama antiga de minha mãe, o roupeiro, a mesa simples e bacia que continha dois pratos velhos, três colheres, uma faca e poucos copos. Nada ali me pertencia de verdade, tudo estava preso ao passado. Tudo era de Dr. Abimael, aquele que foi enganado, aquele da mãe bêbada, aquele do pai ladrão. O desgosto fez a saliva descer como pedra pela garganta. Joguei tudo pro ar e quando quebrei o pote me lembrei de minhas economias, me lembrei do dinheiro. Peguei a bicicleta, juntei as roupas numa trouxa e olhe a bolsa que Aldir havia deixado, vi um relógio bonito e umas coisas que ele deve ter roubado de casa. Pensei em deixar tudo lá, mas levei comigo para a cidade. Eu fugi de casa. Eu fugi chorando e tremendo, ouvindo uma chuva em minha cabeça, ouvindo o peito rasgado, deixando pra trás um rastro de dor. Deixei pra trás quem tanto me amou.
