sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O fim (ninguém)



Já não sou nem a sombra do que fui. Sinto o peso dessa dor em meu semblante. Vejo da janela toda a vida que já habitou em mim e se esvai. Queria alguém para culpar, mas quem mais restou aqui nessas cadeiras vazias. Não sinto mais nem o abraço do medo, já não sussurra em meus ouvidos os meus tão habituais demônios. No fundo, torço para que a própria morte me esqueça, mas vejo o seu rastro nas marcas do meu braço e no cair dos fios de cabelo que me restam. Torço poder voltar a sonhar mais uma vez, mas já não me importo com essa escuridão. Ouço minha respiração e quase sinto que esse corpo já não dói. Minha estupidez me assusta. Devo estar sendo tragado por um anjo. Foram anos de prática no cigarro e acredito que aquelas cadeiras se deliciam com meus delírios. O próprio colchão rezou por meses por mim. Não o culpo por tentar, mas não dobraria meus joelhos outra vez. Meu fim é a bela odisseia do 203. Sou o ciclope, a lança e os gregos e esse câncer é o mar. Vou velejando para lugar algum, para ninguém e para o vácuo. Que a morte me suporte e que tudo isso tenha fim.
Comentários
3 Comentários

3 comentários:

  1. Caralho, isso foi muito bonito: "Não sinto mais nem o abraço do medo, já não sussurra em meus ouvidos os meus tão habituais demônios." e "Meu fim é a bela odisseia do 203. Sou o ciclope, a lança e os gregos e esse câncer é o mar.". O melhor, até então.

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  2. Poético e angustiante, maravilhosamente monstruoso sem ser maniqueísta. Digno de aplausos!

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