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| (8) Do teu quarto, da cozinha, da sala de estar... |
O
ódio que outrora se propagava dentre as calçadas, calcinhas e sutiãs de Laura
Roberta agora estava sendo passado no caixa de supermercado na forma de duas
latinha de cachaça, patê de atum, azeitona descaroçada e torradinhas de pão.
Tudo previamente pesquisado em uma premeditação de anos de pesquisa sobre a
vizinha que ela tanto desprezava em nome de sua religião. O plano que ela
tramara estava pronto para entrar em ação. Era uma sexta-feira dessas que nem
chove e nem para de molhar, a quenga da Rosy Laura estava comendo banana em uma
clara apologia aos seus esportes corriqueiros, a bicha-babona da Bichosa estava
ao lado como de costume espalhando sua espalhafatosa forma homoafetiva de falar
que estava quente e, a nova e macabra vizinha Jannycleide estava a espreita na
janela desejando a morte enquanto sua mãe cantava Calypso e tecnobrega. A
tramoia de Laura Roberta era simples. Passava na casa de Jannycleide entregaria
a encomenda cabalística comprada com o dinheiro que a mãe de Laura Roberta
guardava pra pagar o dízimo, em seguida gritaria pra Bichosa que a nova
moradora da rua toda esburacada com esgoto a céu aberto tinha notícias e queria
ser fã legal a ela, pois admirava travestis e o jeito bichoso que ela tinha de
atravessar a rua. Não haveriam erros, pois como uma boa quenga que se despreze,
Rosy Laura não perdia comida, bebida ou jogos de azar que envolvem-se beber,
comer ou ser bebida e/ou comida. Laura Roberta se ria que se mijava enquanto a
moça do caixa dava o troco em confeito.
Rosy
Laura estava em sua calçada, comendo alguma coisa e pensando em trocar de lugar
com a banana. Rosy era meio depravada, mas ainda sim tinha sentimentos; antes
de cada mordida gentil dava um sorriso, imaginava e surtava só de pensar que na
próxima vida poderia ser homem. Como um lampejo em sua mente pouca estudada ela
pensou que homem era tão bom que queria até ser um. Como ela riu nessa hora.
Bichosa estava ao lado, mas nada entendia. Ela gostava da companhia da
bicha-amiga, mas pouco tinha a dizer e muito fingia ouvir, infelizmente a
sobriedade a obrigava a olhar para o outro lado da rua. Esquisito pensar quanto
tempo faz que aquela novata de cabelos rebeldes estava encarando ela. E não era
aquela encarada que as inimigas davam para ela. Era algo que a fazia transbordar
na cadeira. Ela se sentia quente como se fosse soltar puns de alegria. Mas todo
o riso virou sensação de gastura quando avistou Laura Roberta entregando uma
sacola à menina novata. “Certeza ser água benta”, pensou consigo Rosy Laura,
mas pouca importava, pois uma decisão já havia sido formada: a novata iria ser
convidada para a próxima suruba do fim de semana com os donos de uma banda de
forró famosa na região, afinal, amigas dividem tudo.
Bichosa
estava perplexa, mesmo sem conhecer essa palavra. Como aquela cabelo de raposa
suada se atrevia a se pendurar na janela da sua futura serviçal? Mesmo sendo
adepta do universo das possibilidades, algo assim seria e continua sendo
inaceitável. Mais rápido que uma gata no cio, bichosa foi ao açougue do pai do
Pastelzin para espalhar um pouco de sua homossexualidade vibrante rosa-neon
pelo ar e, também, levar o príncipe de futuro perfeito para a calçada da Rosy
Laura para ficar de bobeira sendo que o movimento da rua estava fraco e o pai
dele sempre o liberava para sentir com as minas fogosas da rua. “Se há alguém
que pode vencer esse dragão é nosso cavalheiro cavalgante: Pastelzin” dizia a
pequena travesti enquanto ria espalhafatosamente voltando a calçada da
perdição, como chamava Laura Roberta e sua avó cega de um olho. Mas bichosa
ficou outra vez com um sentimento confuso quando viu a menina mais imunda do
mundo chamando ela. Seria um armadilha? Será que a bicha estava arrependida?
Seria um pedido desesperado de ajuda para perder a linha? Tudo era possível, então
a Bichosa atravessou a rua, muito faceira, muito desconfiada, tirando o cabelo
imaginário da frente dos olhos, ponto a mão esquerda na cintura e quebrando de
ladinho com cara de transformista. “Fala o que você queRRRR” enfatizou com o erre
mais grotesco que habitava sua garganta estranha. Então Laura Roberta contou a
pequena pomba-gira sobre o quão legal era a garota nova e que fora ao mercado
fazer comprinhas, pois a menina gostaria de se enturmar. Bichosa estranhou as
atitudes, mas sabia que esse dia chegaria. O dia em que a menina esquisita da
rua viraria normal, usaria shorts e pararia de usar perfume de essência floral.
Jannycleide
não se sentia realmente motivada a estar naquela rua esburacada de esgoto a céu
aberto. A vida ia bem na antiga cidade. Mas estava em paz, esses dias de
mudança a ajudaram a refletir melhor sobre as escolhas que tomaria daquele
ponto em diante. Antes, aceitar cachaça e tira-gosto de uma garota esquisita
seria inaceitável ou ser alvo de observação de todos os adolescentes
transeuntes, mas ela era carne nova no pedaço. Era tempo de fazer algo novo,
sentar na calçada e contrariar a maré. Ela sentou na calçada da própria casa,
abriu a cachacinha e mordia as azeitonas de maneira pausada, educada e mesmo
assim atraente. Jannycleide mordiscava, sorria com os olhos e ainda assim
parecia distante de toda aquela rua. Ela percebia os olhares. Ela queria
naquele momento todos aqueles olhares, mas teve um que a prendeu. Alguém viu
mais do que uma menina sentada mostrando a calcinha ou uma tentativa estranha
de quebrar o gelo. Ela se sentiu verdadeiramente atraída. Metade do frasco de
azeitona já fora degustado. Os minutos passavam, o clima ia ficando mais gostoso
e o abandono da rua sussurrava que a noite chegaria cheia de pretensões. Talvez
fosse o álcool aumentando o seu fogo juvenil, talvez fosse a vontade de agitar
um pouco a rua. Quem sabe fosse hora de fazer amiguinhos? Uma bichinha do andar
de pato e uma garota magra, meio esquisita e estranhamente familiar? E daí?
