segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Cortinas de Velcro - #02

(8) Olha lá quem vem virando, vem Diêgo com toda alegria...

Era uma tarde de pouco sol, poucas cores e muitos sons. Se ouvia ao longe o barulho singular de uns pobres chorando. Era um velório. Morreu a vizinha maluca que morava duas casas depois da Bichosa. Ninguém sabia o nome dela, não porque ela fosse louca ou gostasse de jogar penicos de mijo em quem pisasse na calçada que ela bradava ser dela. Ela era apenas uma dessas velhas esquisitas que a história não acrescenta a vida de ninguém. Rosy Laura entendia a vida como assim e tinha um ditado que aprendera com sua velha Tia Gertrudes: “um dia pica no outro rola”. Ela não sabia muito bem o que significava, mas usava nos mais diversos momentos, ela sentia ser algo profundo. Assistir aquele velório enchia ela de dúvidas, mas era familiar. Tia Gertrudes também morreu, também teve um monte de gente chorando, mas também tinha uma galera maluca do terreiro de Mãe Mafalda que a tia gostava de frequentar pra conhecer uns coroas malucões. Rosy Laura não entendia a morte, ela só queria que tudo aquilo passasse e sentiu no fundo do seu coração que perdoou a Velha Maluca que estava sendo levada para sua última morada. Tem gente que diz que ao levar uma bofetada, você deve dar a outra face, mas sobre penicos de mijo Rosy Laura não sabia o que fazer então perdoar era o melhor.
Bichosa estava toda animada, mesmo o povo ao seu redor estando no maior chororô e sua diva local só conversando pra trás, ela estava de olho nos menininhos que estava no velório. Possíveis parentes, possíveis amantes. Tudo era possível para uma bichinha lausenta e cheia de espinhas na cara. Mas enquanto a aprendiz de travesti conversava sozinha o velório seguia seu trajeto fúnebre, de músicas chorosas e passos desritmados. Engraçado mesmo era olhar a mãe da Bichosa na janela querendo entender que viadagem nova o filho estava ensaiando. Aquela rua esburacada ganhava novos sons. Um velho caminhão de mudanças estava se aproximando da casa da mais nova defunta da cidade. Bichosa correu pra dentro de casa pegar uma cadeira de balanço e uma garrafa d’água. Afinal um carro de mudanças teria de ter homens fortes, cansados e com sede e a bicha-mirim sabia de uma coisa: um copo d’água e um boquete não se nega a ninguém, palavras de sua amiga Rosy Laura.

Como toda movimenteira que se prese Laura Roberta estava de longe avistando tudo aquilo, torcendo pra ser convidada pra cantar algo lá no velório e chamar toda atenção do mundo. Quando o carro virando a esquina pra entrar na rua ela já havia identificado que se tratava de um carro de mudanças, que trazia uma mulher de uns 40 anos que usava batom, não era evangélica então, um cachorro magro que poderia ter alguma doença terminal e uma menina bonita, mas tinha cabelo curto como um machinho. Rosy Laura sabia que não eram amigos de congregação ou que não poderiam se falar na rua, mas se fosse uma nova putinha pra rua seria ótimo. “Inimigos dos meus inimigos são meus amigos” era o que ela gritava até sua mãe botá-la pra dentro com o cabo do rodo. Quem eram esses novos vizinhos que se mudavam para essa estranha rua esburacada de esgoto a céu aberto?
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