![]() |
| (8) Olha lá quem vem virando, vem Diêgo com toda alegria... |
Era uma tarde
de pouco sol, poucas cores e muitos sons. Se ouvia ao longe o barulho singular
de uns pobres chorando. Era um velório. Morreu a vizinha maluca que morava duas
casas depois da Bichosa. Ninguém sabia o nome dela, não porque ela fosse louca
ou gostasse de jogar penicos de mijo em quem pisasse na calçada que ela bradava
ser dela. Ela era apenas uma dessas velhas esquisitas que a história não
acrescenta a vida de ninguém. Rosy Laura entendia a vida como assim e tinha um
ditado que aprendera com sua velha Tia Gertrudes: “um dia pica no outro rola”.
Ela não sabia muito bem o que significava, mas usava nos mais diversos
momentos, ela sentia ser algo profundo. Assistir aquele velório enchia ela de
dúvidas, mas era familiar. Tia Gertrudes também morreu, também teve um monte de
gente chorando, mas também tinha uma galera maluca do terreiro de Mãe Mafalda
que a tia gostava de frequentar pra conhecer uns coroas malucões. Rosy Laura
não entendia a morte, ela só queria que tudo aquilo passasse e sentiu no fundo
do seu coração que perdoou a Velha Maluca que estava sendo levada para sua última
morada. Tem gente que diz que ao levar uma bofetada, você deve dar a outra
face, mas sobre penicos de mijo Rosy Laura não sabia o que fazer então perdoar
era o melhor.
Bichosa estava
toda animada, mesmo o povo ao seu redor estando no maior chororô e sua diva
local só conversando pra trás, ela estava de olho nos menininhos que estava no
velório. Possíveis parentes, possíveis amantes. Tudo era possível para uma
bichinha lausenta e cheia de espinhas na cara. Mas enquanto a aprendiz de
travesti conversava sozinha o velório seguia seu trajeto fúnebre, de músicas
chorosas e passos desritmados. Engraçado mesmo era olhar a mãe da Bichosa na
janela querendo entender que viadagem nova o filho estava ensaiando. Aquela rua
esburacada ganhava novos sons. Um velho caminhão de mudanças estava se
aproximando da casa da mais nova defunta da cidade. Bichosa correu pra dentro
de casa pegar uma cadeira de balanço e uma garrafa d’água. Afinal um carro de
mudanças teria de ter homens fortes, cansados e com sede e a bicha-mirim sabia
de uma coisa: um copo d’água e um boquete não se nega a ninguém, palavras de
sua amiga Rosy Laura.
Como toda
movimenteira que se prese Laura Roberta estava de longe avistando tudo aquilo,
torcendo pra ser convidada pra cantar algo lá no velório e chamar toda atenção
do mundo. Quando o carro virando a esquina pra entrar na rua ela já havia
identificado que se tratava de um carro de mudanças, que trazia uma mulher de
uns 40 anos que usava batom, não era evangélica então, um cachorro magro que
poderia ter alguma doença terminal e uma menina bonita, mas tinha cabelo curto
como um machinho. Rosy Laura sabia que não eram amigos de congregação ou que
não poderiam se falar na rua, mas se fosse uma nova putinha pra rua seria
ótimo. “Inimigos dos meus inimigos são meus amigos” era o que ela gritava até
sua mãe botá-la pra dentro com o cabo do rodo. Quem eram esses novos vizinhos
que se mudavam para essa estranha rua esburacada de esgoto a céu aberto?
