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| (8) Não me conte mentirinhas, dói demais... |
Era uma vez,
ainda nesta década, em uma pacata cidade serrana do interior do alto oeste
potiguar uma rua toda esburacada, de calçamento seboso e esgoto a céu aberto
uma menina que não era nada amada, pouco esperta, mas de fama de puta que só a
mãe não sabia. Rosy Laura, era de
família tradicional, mas era fodida – ambinguidades no ar –, não ligava para as
riquezas que seu avó perdeu no jogo do bicho ou para como seus pais viviam de
passado. Rosy Laura era Machado de verdade: afiada, vívida e só quem derrubava
madeira nesse cantinho quase esquecido por Deus. Como uma boa adolescente sem
futuro que era, Rosy não tinha amigas, tinha as cachorra que andava com ela e,
dentre as quais, uma pequena travesti do dente torto autointitulada Bichosa.
Elas moravam frente a frente e após anos de briga, Bichosa reconheceu que era
bicha mesmo e parou de se irritar com o óbvio. Viraram amigas dessa de assaltar
camisinha e gel lubrificante no posto de saúde do bairro vizinho.
Rosy Laura não
fazia sentindo. Fazia ensino médio, fazia boquetes, mas sentido que é bom:
nada. Ela acreditava cegamente que uma hora estaria com o cara certo, que
sairia de sua cidadezinha e iria morar na capital onde ninguém ia reconhecer
naquela dama carola de igreja uma menina magra de higiene precária. Seus planos
eram simples. Idiotas, mas simples. Bichosa não tinha tantos planos, só seguia
sua amiga na esperança de fazer o possível pra se tornar a nova pegável do
bairro quando sua amiga fosse embora. Mas entre uma ambição e outra o desejo
desesperado de perder a virgindade – segundo palavras da mesma – ela queria
ficar com aquele garotinho de corpo atlético, pernas grossas e cabelo comprido.
Aquele que se acabava de babar quando Rosy Laura passava e que caia no murro
quando alguém comentava que a bichinha era fuleira. Pastelzin era assim. Pouco
estudioso, mas já tinha um emprego
garantido no açougue do pai. Bichosa piscava de emoção e não entendia ao mesmo
tempo que agradecia por Rosy Laura nunca ter dado nem bola pra ele. Talvez uma
hora sua sorte mudasse, talvez uma hora tudo desse certo.
Porém nem tudo
eram pênis, digo flores, nessa bairro de classe misturada. Rosy Laura tinha uma
inimiga mal amada e que tinha um bigode em potencial geneticamente herdado da
mãe que era ex-testemunha de Jeová e atual evangélica da Igreja dos Gritos dos
Últimos Arrebatados. Laura Roberta queria morder a cara de Rosy Laura. Era um
ódio animal. Estudavam juntas desde sempre, ambas eram “Laurinhas”, mas a
inveja de Laura Roberta crescia à mesma proporção que despontavam os seios de
sua inimiga declarada. Laura Roberta prometeu a si mesma e a mulher da cantina
que ainda ia tirar aquela garota do mapa, botar Bichosa na igreja para ser seu
babão e casar com Pastelzin, afinal carne é um item caro e ela queria garantir
seu futuro. Não importasse quantas vezes ela teria de ficar na calçado espiando
sua inimiga passar ou quantos movimentos ela tivesse de inventar pra chamar
atenção do povo da rua. Ela iria se vingar.
