segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Cortinas de Velcro - #01

(8) Não me conte mentirinhas, dói demais...

Era uma vez, ainda nesta década, em uma pacata cidade serrana do interior do alto oeste potiguar uma rua toda esburacada, de calçamento seboso e esgoto a céu aberto uma menina que não era nada amada, pouco esperta, mas de fama de puta que só a mãe não sabia.  Rosy Laura, era de família tradicional, mas era fodida – ambinguidades no ar –, não ligava para as riquezas que seu avó perdeu no jogo do bicho ou para como seus pais viviam de passado. Rosy Laura era Machado de verdade: afiada, vívida e só quem derrubava madeira nesse cantinho quase esquecido por Deus. Como uma boa adolescente sem futuro que era, Rosy não tinha amigas, tinha as cachorra que andava com ela e, dentre as quais, uma pequena travesti do dente torto autointitulada Bichosa. Elas moravam frente a frente e após anos de briga, Bichosa reconheceu que era bicha mesmo e parou de se irritar com o óbvio. Viraram amigas dessa de assaltar camisinha e gel lubrificante no posto de saúde do bairro vizinho.
Rosy Laura não fazia sentindo. Fazia ensino médio, fazia boquetes, mas sentido que é bom: nada. Ela acreditava cegamente que uma hora estaria com o cara certo, que sairia de sua cidadezinha e iria morar na capital onde ninguém ia reconhecer naquela dama carola de igreja uma menina magra de higiene precária. Seus planos eram simples. Idiotas, mas simples. Bichosa não tinha tantos planos, só seguia sua amiga na esperança de fazer o possível pra se tornar a nova pegável do bairro quando sua amiga fosse embora. Mas entre uma ambição e outra o desejo desesperado de perder a virgindade – segundo palavras da mesma – ela queria ficar com aquele garotinho de corpo atlético, pernas grossas e cabelo comprido. Aquele que se acabava de babar quando Rosy Laura passava e que caia no murro quando alguém comentava que a bichinha era fuleira. Pastelzin era assim. Pouco estudioso, mas  já tinha um emprego garantido no açougue do pai. Bichosa piscava de emoção e não entendia ao mesmo tempo que agradecia por Rosy Laura nunca ter dado nem bola pra ele. Talvez uma hora sua sorte mudasse, talvez uma hora tudo desse certo.

Porém nem tudo eram pênis, digo flores, nessa bairro de classe misturada. Rosy Laura tinha uma inimiga mal amada e que tinha um bigode em potencial geneticamente herdado da mãe que era ex-testemunha de Jeová e atual evangélica da Igreja dos Gritos dos Últimos Arrebatados. Laura Roberta queria morder a cara de Rosy Laura. Era um ódio animal. Estudavam juntas desde sempre, ambas eram “Laurinhas”, mas a inveja de Laura Roberta crescia à mesma proporção que despontavam os seios de sua inimiga declarada. Laura Roberta prometeu a si mesma e a mulher da cantina que ainda ia tirar aquela garota do mapa, botar Bichosa na igreja para ser seu babão e casar com Pastelzin, afinal carne é um item caro e ela queria garantir seu futuro. Não importasse quantas vezes ela teria de ficar na calçado espiando sua inimiga passar ou quantos movimentos ela tivesse de inventar pra chamar atenção do povo da rua. Ela iria se vingar.
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