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| ♪ Dançando e cantando com a boca aberta: A HA HA HA HA... |
A velha rua
esburacada de esgoto a céu aberto já se encontrava em uma nova, mas de
semelhança incontestável com a mesmice de antes. Poucos viram a morte chegar
àquela velha senhora de cabelos oleosos e educação questionável. Todos da rua
seguiam suas vidas e nossas personagens já não se perguntavam sobre a filosofia
de ninguém. Nem tudo ia bem, mas pior seria se chovesse pra encher tudo de
lama.
Bichosa se encontrava
preocupada entre suas indagações de bichinha pão com ovo; estava perdida entre
pensamentos com forte viés a continuar com os mesmos planos de ser bichascote –
como ela se intitulava “bicha mascote” (por entender mascote como algo “digno”)
– de sua amiga-vizinha Rosy Laura. Sua mãe perguntou se ele queria continuar na
mesma escola o que foi um baque tremendo, pois surgia ali a possibilidade de
ela começar o seu próprio reinado, ter sua própria estrela na calçada da fama,
de não pegar filas na hora da merenda e ter seus próprios namorados, dispostos
a tudo para vê-la sorrir. Tudo era possível. Também havia a possibilidade de
apanhar de segunda a sexta e ser perseguida, humilhada e objeto de perseguição
como no passado; no ano passado para ser exato. É, essa era uma possibilidade
que não interessava tanto assim, se bem que os algozes do passado eram de interesse
da Bichosa, mas ela havia prometido a si que não se deixaria ser brinquedo de
homem ou menino nenhum, pois sua autoestima estava elevada com o discurso das
cantoras internacionais que fazia parte do repertório diário de músicas de seu
celular. Bichosa vivia para isso, para ser atrevida, lançar moda e ficar quieta
para esconder da mãe que usava calcinha para ir ao colégio.
O mundo
inteiro girava e Rosy Laura se sentia vazia. Ela não sabia bem se era graças a
sua primeira ressaca ou graças ao sexo safado com o sobrinho da velha senhora
que morreu na semana anterior. Foram sensações únicas. Não gemer e não fingir
foram suas novas definições de “sexo seguro”. Mas a vida não seguia bem. Só de
imaginar a volta às aulas tudo parecia vazio. Ela sentia um pouco de inveja da
Bichosa que se via perdida em paetês e plumas. Vai ver se bicha era tudo de bom
mesmo. Nem bem Rosy Laura abria a janela do quarto avistava aquela figura
estranha, de cabelos compridos e joelho ralado vigiando o movimento da casa
onde os vizinhos novos estavam ainda se acomodando. Era Laura Roberta, a perturbada
garota que estudava com ela. Rosy Laura pegou sua calcinha de melhor elástico e
atirou uma pedrinha sonhando perfurar o cérebro da infeliz, mas seu tiro só
conseguiu acertar um cachorro na rua. “Se eu tivesse força o bastante para
atirar com minha pepeca” pensou a adolescente de cabelo curto e seios redondos.
“O que diabo estará vendo essa nojenta que nem reparou em minha tentativa de homicídio?”
pensou Rosy Laura. Deve ser algo muito pecaminoso, safado e que não eleve
ninguém ao reino dos céus. Logo Rosy Laura decidiu que iria sentar na calçada e
curiar também. Mas antes, vestir uma roupa era o mais apropriado para evitar
irritar a sua mãe.
Laura Roberta
passou a semana inteira com um caderninho verificando a hora de entrada e saída
da casa. As refeições, o que comiam e quando iam ao banheiro. Aprendeu leitura
labial para fazer um “ranking” dos assuntos que circundavam a casa nova. A
família Vascos estava chegando ao estado, pois viviam de aluguel na antiga
residência e herdaram a casa da velha tia que tanto amavam. Alguns amavam, pois
ela descobriu que a filha única da casa tinha abuso da velha. “Jannycleide”.
Após muitas tentativas a Laura Roberta descobriu o nome e a grafia da indivídua.
Mas algo era muito mais estranho que o nome dessa menina. Laura Roberta sabia
que era algo novo, nem direito, nem cristão, nem coisa de quenga era. O mundo
daquela pequena rua estava para mudar por completo. Laura Roberta sabia que não
poderia ir contra a nova vizinha, mas sabia que tinha de planejar uma intriga
mortal, que envolvesse até mesmo comprar bebida alcoólica para fazer uma
arapuca. Sim, uma armadilha capaz de destruir o reinado de prostituição da
vizinha quenga.
