terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Cortinas de Velcro - #03

♪ Dançando e cantando com a boca aberta: A HA HA HA HA...

A velha rua esburacada de esgoto a céu aberto já se encontrava em uma nova, mas de semelhança incontestável com a mesmice de antes. Poucos viram a morte chegar àquela velha senhora de cabelos oleosos e educação questionável. Todos da rua seguiam suas vidas e nossas personagens já não se perguntavam sobre a filosofia de ninguém. Nem tudo ia bem, mas pior seria se chovesse pra encher tudo de lama.
Bichosa se encontrava preocupada entre suas indagações de bichinha pão com ovo; estava perdida entre pensamentos com forte viés a continuar com os mesmos planos de ser bichascote – como ela se intitulava “bicha mascote” (por entender mascote como algo “digno”) – de sua amiga-vizinha Rosy Laura. Sua mãe perguntou se ele queria continuar na mesma escola o que foi um baque tremendo, pois surgia ali a possibilidade de ela começar o seu próprio reinado, ter sua própria estrela na calçada da fama, de não pegar filas na hora da merenda e ter seus próprios namorados, dispostos a tudo para vê-la sorrir. Tudo era possível. Também havia a possibilidade de apanhar de segunda a sexta e ser perseguida, humilhada e objeto de perseguição como no passado; no ano passado para ser exato. É, essa era uma possibilidade que não interessava tanto assim, se bem que os algozes do passado eram de interesse da Bichosa, mas ela havia prometido a si que não se deixaria ser brinquedo de homem ou menino nenhum, pois sua autoestima estava elevada com o discurso das cantoras internacionais que fazia parte do repertório diário de músicas de seu celular. Bichosa vivia para isso, para ser atrevida, lançar moda e ficar quieta para esconder da mãe que usava calcinha para ir ao colégio.
O mundo inteiro girava e Rosy Laura se sentia vazia. Ela não sabia bem se era graças a sua primeira ressaca ou graças ao sexo safado com o sobrinho da velha senhora que morreu na semana anterior. Foram sensações únicas. Não gemer e não fingir foram suas novas definições de “sexo seguro”. Mas a vida não seguia bem. Só de imaginar a volta às aulas tudo parecia vazio. Ela sentia um pouco de inveja da Bichosa que se via perdida em paetês e plumas. Vai ver se bicha era tudo de bom mesmo. Nem bem Rosy Laura abria a janela do quarto avistava aquela figura estranha, de cabelos compridos e joelho ralado vigiando o movimento da casa onde os vizinhos novos estavam ainda se acomodando. Era Laura Roberta, a perturbada garota que estudava com ela. Rosy Laura pegou sua calcinha de melhor elástico e atirou uma pedrinha sonhando perfurar o cérebro da infeliz, mas seu tiro só conseguiu acertar um cachorro na rua. “Se eu tivesse força o bastante para atirar com minha pepeca” pensou a adolescente de cabelo curto e seios redondos. “O que diabo estará vendo essa nojenta que nem reparou em minha tentativa de homicídio?” pensou Rosy Laura. Deve ser algo muito pecaminoso, safado e que não eleve ninguém ao reino dos céus. Logo Rosy Laura decidiu que iria sentar na calçada e curiar também. Mas antes, vestir uma roupa era o mais apropriado para evitar irritar a sua mãe.

Laura Roberta passou a semana inteira com um caderninho verificando a hora de entrada e saída da casa. As refeições, o que comiam e quando iam ao banheiro. Aprendeu leitura labial para fazer um “ranking” dos assuntos que circundavam a casa nova. A família Vascos estava chegando ao estado, pois viviam de aluguel na antiga residência e herdaram a casa da velha tia que tanto amavam. Alguns amavam, pois ela descobriu que a filha única da casa tinha abuso da velha. “Jannycleide”. Após muitas tentativas a Laura Roberta descobriu o nome e a grafia da indivídua. Mas algo era muito mais estranho que o nome dessa menina. Laura Roberta sabia que era algo novo, nem direito, nem cristão, nem coisa de quenga era. O mundo daquela pequena rua estava para mudar por completo. Laura Roberta sabia que não poderia ir contra a nova vizinha, mas sabia que tinha de planejar uma intriga mortal, que envolvesse até mesmo comprar bebida alcoólica para fazer uma arapuca. Sim, uma armadilha capaz de destruir o reinado de prostituição da vizinha quenga. 
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