05 – Romances à Capela
Faltam 5 minutos para eu cumprir o que me prometi durante toda a vida. Na verdade, não sei qual é a função dessa escolha, pois sou feliz. E não é algo que alguma banda atual possa cantar, eu me refiro ao amor e não ao que vendem em lata. Decidi reencontrá-la hoje, ela que me faz tão feliz e me acompanha a cada nova jornada. Sou fotografo de uma grande revista de turismo e confesso que dei sorte pra conseguir esse emprego e ralo bastante para mantê-lo. Viajo o país inteiro, países inteiros pra ser mais exato e ainda sou apaixonado, só nunca entendi o que é morrer de amor, minha santa me faz feliz. Sinto que a gente compartilha a mesma alma, o mesmo espírito de caminhar na órbita do planeta, de um pouco da Via Láctea enquanto discutimos Caetano. Faltam 4 minutos e não vou me perdoar caso eu estrague tudo agora. Faz 15 anos desde a última vez que voltei para essa cidade. Sinto que me sufoco e que nunca vou sobreviver até o momento de dormir, ninguém entende quem tem um sonho louco de conhecer o mundo, de viver com as raízes plantadas no ar, lembro que tinha oito anos e já desenhava o que eu chamava de fotografia. Minha mãe ria muito comigo dessa minha mania de sonhar acordado, mas sabia que no fundo ela apostaria em mim, me dava um beijo na testa e dizia: “Meu filho, esse mundo ainda vai ser pequeno pra você”. Quando ela morreu, senti que o mundo estava bem maior e pesando em minhas costas e ser o alvo das brincadeiras da escola só foram pior quando pararam de me ver, tinha virado o sem-mãe da cidade, mas daí conheci minha Ana em um desses dias de muita chuva e muita fome em que cai na calçada de sua casa, ela devia ter mais ou menos minha idade e me deu comida. Sempre fazia questão de passar lá e levar frutas da temporada para ela e a mãe dela que sabiam me nome e faziam-no soar bonito como uma fotografia. Faltam 3 minutos e tenho certeza que essa ansiedade não vai me deixar bater a porta, vou me ater ao que tenho em mãos e dar meia-volta, ela não está mais aí, algo muito pessimista me diz pra fingir que não estive aqui. Aquela janela ainda é igual, ainda a posso ver sorrir. Ana. Lembro-me de uma da última vez que sorri em minha ilusão de infância, já com os meus 38 anos, diferente de muita gente, ainda trago em mim os sonhos de infância, só que aprendi a cuidar do meu coração, já que as feridas dele demoram mais a sarar que as dos joelhos. Pedi algum prato com macarrão, mesmo não gostando tanto de massa, lembro que minha Ana é apaixonada. Diz ela que a faz se sentir na Itália. Pus a minha santinha na mesa, aquela que a Ana me deu há muito tempo, e a imaginei ali conversando comigo, perguntando do meu dia. Apreciando as últimas fotos que tirei em uma viagem ao litoral. Comentei e sorri das memórias que tenho e divido por nós dois. Minha mão fica suada, sinto que vou gaguejar, mas sei que Ana iria apenas sorrir com os olhos, algo que só vejo nela. Algo que tenho certeza que sei que ela tem e me encanta, me fascina há 30 anos. Volto a sorrir olhando pra minha fantasia, mas sei que a vida é curta e viajei e vivi tanto, eu e minha santinha viajamos e sorrimos e dançamos e cantamos juntos, mas por mais lindo que tudo tenha sido, nosso último jantar me fez querer bater a sua porta Ana. Me fez rever aquela cidade onde nos conhecemos e que fui embora quando quis contar meu plano de fuga pra você. Falta 1 minuto pra eu chegar na sua porta, trouxe margaridas por acreditar que seja realmente sua flor favorita, por no fundo eu saber que em uma das minhas fantasias você me dizia como elas te transmitiam paz. Na minha última viagem de trabalho, passei pela capital e vi um conhecido de infância que havia me dito que Ana estava morando outra vez em nossa terra natal, que morava sozinha, pois a filha havia casado a pouco e o marido falecido há 6 anos, soube que ainda conta histórias para crianças e dá aula de línguas, aposto que seja Italiano, aposto tudo como ainda tem aquele pingente em forma de gota. Estou agora em frente a sua porta Ana, em frente ao meu maior medo de infância e quero dizer a mim mesmo que perdi o medo de você me dizer não, mas não saberia voltar as minhas ilusões sem você me ajudando a encontrar meus sapatos ou eu te explicando sobre as diferentes lentes. Espero que você abra a porta, acredito que vai me reconhecer e perguntar se ainda me chamo Adalberto. Vou te responder sorrindo que sim, que desisti de mudar meu nome só porque sempre apostei que você iria me procurar e se eu tivesse trocado de nome seria meio difícil achar. Olho para o relógio e faz 2 minutos que estou do outro lado da rua, ainda não atravessei a rua.

Calebe, você tem evoluído muito em seus textos. A cada pastagem me surpreendo mais com essa mente brilhante. Você consegue me prender até o fim. Continue esse trabalho e tenho certeza que irá longe. Beijo ;*
ResponderExcluirMuito obrigado pelo comentário, Larissa. Agradeço por acompanhar a evolução da escrita e por se prender até o fim, rs. Vou continuar escrevendo longe de Game of Thrones. Entendedores, entenderão. Bj :*
ExcluirADOREIIIII, gosto quando vejo as fraquezas de um homem apaixonado, nesse caso eternamente, Adalberto mostra um quê de paixão platônica inatingível e é o máximo ser esse corajoso/desencorajado que ele representa... parabéns pela escrita, amei de verdade, me leio em Adalberto...
ResponderExcluirMuito obrigado pela visita! Adalberto realmente é um homem de muita paixão mesmo e se encontrar nele é uma coisa difícil de aceitar, rs.
ExcluirAguardo as próximas visitas.
E como toda arte, seja ela qual for, traz embutida os sentimentos do seu criador, percebe-se a sensibilidade e uma busca, um se encontrar... Será que esse artista cruzaria a rua? Adalberto foi corajoso, cruzou o mundo! Um bom texto!
ResponderExcluirReflexão magnífica Leide. Muito obrigado por expressar aqui nesse humildade espaço sua opinião. Fico muito grato mesmo.
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