Nossa
estória se inicia com uma indagação simples: “Que mundo é esse que ninguém mais
sabe o que é amar?”. Agora que estão pensando nessa pergunta, podem abrir seus
corações para esse complexo cultural chamado “viver”. Deleitem-se com a pressa
de um sonho bom, de uma fruta madura e de um copo de suco de cajarana. Com
vocês “A Vagina Sem Mulher”
I. Meu eu, sempre eu: o complexo íntimo.
- ‘Sua safada!’ É sempre assim
que sou chamada. Lá vem ela novamente me bater com aquele livro. Não entendo
diário, sinceramente não sei onde está a culpa é eu existir. A gente sempre se
dava bem, mas cá estou trancada! Presa como uma princesa que carrega a culpa de
ser a mais bonita do reino. Apesar dessa vida cabeluda nessa espelunca às vezes
sinto que sou a culpada, como a Esmerilda diz: “A fruta de satanás na Terra”.
Ôh Deus, se você existe mesmo, me explica só uma vez o que fiz pra nascer assim
sem nome, sem respeito, cheia de regras e sempre culpada por babar! Não é fácil
ter desejos! Como é triste ser uma vagina.
Como
sempre, Vagina se sente mais uma vez confusa. Nunca ouviu nenhuma outra parte
do corpo reclamar e nem apanhar tanto por isso. Como ela prefere entender, sua
parceira Esmerilda é uma jovem virgem de 27 anos, solteira e de uma beleza singular.
Freqüentadora da igreja desde onde a memória consegue chegar. Assim é Esmerilda Arruda da Cunha, uma
evangélica programada para casar. Como todo ser humano, ela tem desejos. Mas
sabe que deve casar casta, pura e ungida, assim como todas as mulheres de sua
família. Esmerilda nunca namorou, sempre foi a piada da turma da Mocidade
Evangélica, por ser pobre e ter crescido com proporções bem brasileiras. Logo
na sua adolescência ganhou o apelido dentro da casa das tias: “Desenho do Cão”,
não por ser feia, pelo muito pelo contrário! Possuía curvas de causar inveja e
por isso viva tropeçando nas saias e outros panos para não atrair tanta atenção.
Era a vergonha da família e o desejo da cidade. Talvez por tanto charme tenha
sido “abençoada” com um órgão singular, uma vagina pensante! Por não pode ter
amigas e viver em casa lezando, Esmerilda tinha o hábito de ficar no quintal
com seus livrinhos dominicais e conversando com seu órgão. Certo dia de sol,
Esmerilda notou que estava criando mais forma de mulher, seus seios estavam
maiores e seus pelos pubianos brilhavam enquanto cresciam em tranças. Como ela
gostaria de mostrar ao mundo tudo aquilo e foi procurar a mãe. Dona Zulema
sorriu estranhamente. Sim, estranhamente, pois é daquelas mulheres amargas e
mal amadas que só sentam do lado da janela para ver o movimento. E para
continuar falando da vida alheia, não poderia ter nenhum podre pra ser assunto.
Assim que viu a filha pelada no quintal, com suas tranças ao vento tratou de
pegar a mangueira e a bíblia: A mangueira serviu de chicote e a bíblia para
fingir que orava bem alto para não deixar a vizinhança ouvir a surra que ia dar
na menina. Pense num cacete grande!
Depois desse
fato, se passaram dois dias e Esmerilda acorda tonta, mas no fundo já estava decidida
a ser a filha que a mãe sonhara. Pegou a bíblia, bateu com força a cabeça na
parece e surrou sua amiga de infância, sua amada grutinha com o livro. Adquiriu
esse hábito de xingar a vagina enquanto a espancava. Um ritual que se repetia
sempre que via algum garoto bonito, que via novela, que passeava pr’os cultos
em sítio e em cidades vizinhas. Bateu, bateu até que uma tarde comum ela pode
ouvir um grito fino que dizia:
- Chega! Agora deu pra doida foi?!
Eu não agüento mais!
Esmerilda
não podia estar doida, mesmo com o hábito de taca a cabeça na parede, nunca
tinha ficado doida. Aquilo era como um sonho de infância, só que peludo e
falante. E seu órgão em prantos dizia
- Sempre fomos amigas! Me mantive
em silêncio para não te trazer nenhuma complicação. Mas até um sonho tem seu
fim Esmerilda. Diga pra Dona Zulema que ela nunca vai ser avó, porque essa
vagina aqui está indo viver seus próprios
sonhos. Serei uma vagina astronauta e você, será apenas uma louca que mora com
os pais!
Esmerilda
não sabia se ria ou se chorava. Que cachorrada era essa na vida dela. Não
bastava levar grito da mãe, ter um monte de apelido, ter a cabeça cheia de galo
e agora estava levando batido de sua própria vagina. Ela pensava consigo que
era o diabo à convidando para um pacto de sexo e dinheiro, mas ela não era
nenhuma boba. Todo domingo, desde os seus 7 até os 27 frequentava assiduamente
a Escolhinha Dominical. Conhecia todas as pinturas bíblicas – Arca de Noé, Jonas
e o Golias, entre outras que confundiam sua cabeça inchada –, inclusive as
músicas em dois idiomas: português e “anjês”. Esmerilda preparou para espancar
aquela “frutinha de satanás” quando sentiu um puxão em sua genitália. Era como
se um barbeador infernal cortasse suas tranças, no que ela carinhosamente chama
de via “joelho-axila”, tanto na esquerda quanto na direita. Ela decidiu então
destravar sua calcinha e olhar frente a frente a sua ex-amiga. E de fato havia
bracinhos e perninhas saindo de sua vulva. Saiu inclusive algo como um estojo
de lápis, só que menor e com adesivos em forma de pênis. A pobre não agüentou e
desmaiou de dor e de espanto. Seu último pensamento foi um misto entre soltar
um pum e espirrar.
E
com apenas um tapa – não me perguntem como – a vagina acordou a jovem
Esmerilda. E eis que ela grita:
- Esmerilda sua ingrata!
A
jovem ficou perplexa. Estava deitada e frente a frente com aquele ser peludo e
de estatura mediana. E começam um diálogo rápido:
- Satanás você não me engana. Sei
que é vermelho e chifrudo. A bíblia nunca disse que você tinha barba. Vamos,
mostre seu rosto imundo. Sou ungida e vou te vencer em línguas! ~ LA LA RA LA LA RA LA RA LRA
LRA LRA~
De
repente Esmerilda leva outra tapa pra ficar esperta das idéias.
- Deixa de loucura bixa doida!
Sou eu, sua vagina, digo, sua ex-vagina! A partir de hoje irei viver minha própria
vida. Sem suas loucuras ou os abuso de sua mãe, aquela fofoqueira mal amada.
Não agüento mais seus maus tratos, não há amor que resista às humilhações que
você já me fez passar. Além do mais, nem de banho você num gosta, sua praga sebosa!
- Mas eu não digo mesmo. Levando
carão de uma buc..
- Diga bixinha, diga nome!
- Desculpe, quis dizer: "levando
sermão de você que nem é gente?!" Se fosse mainha ou o pastor eu ficava calada,
mas de você que era pra estar calada e sentada na minha calcinha? Jamais! Avia
deixe de brincadeira, sei que é o diabo tentando me fazer perder meu hímen. Não
quero mais saber de estória. Cuide, cuide. E ai de você se me bater de novo.
A
vagina pegou a bíblia em cima do tamborete com bastante esforço e deu duas
livradas nas cara de Esmerilda que assistia tudo rindo, parecia uma “celebesté”.
E esbravejou com uma lágrima escorrendo. Na verdade, várias lágrimas, quase um
rio escorrendo. Ela se enxugou na blusa furada do tempo da política que
Esmerilda vestia, mesmo na cara do candidato. E logo em seguida gritou:
- Jogue fora todas as suas
calcinhas! Meu nome é Vagina! Ouviu bem, Vagina!!!
Berrava Vagina
com toda a sua força:
- Jogue essas 'poiqueiras' fora!
Livre-se dessas caçoletas! Pra ai, eu não volto mais!!! Você nunca mais vai me
ver aqui! Irei pra TV, vou virar atriz, fazer filmes, novelas e depois ser
presidenta! Só piso em Patu pra ser prefeita agora!
Então
Vagina se abriu e puxou um barbeador, raspou todo os seus pêlos e gritou:
- Mas antes de viver minha vida,
vou me curar de você e de suas regras doidas! Irei revolucionar o
planeta! Não me trate como órgão, sou muito mulher, sou uma órgã. Linda e inteligente, diferente de
você. Irei ser a primeira vagina budista do mundo!
E
antes que Esmerilda pudesse digerir tanta informação, Vagina fez uma trouxinha,
sacou um óculos de dentro de si e se virou com um desprezo de novela. Mandou um
beijo e disse:
- Adeus! Tome um banho e se cure
dessas loucuras. Ainda te amo, mas aprendi a me amar bem mais. Adeus,
Esmerilda, minha amiga.
~ continua ~

Adorei kkkk! aguardando o próximo capitulo!
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