terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A Vagina Sem Mulher: Cap. I

+13 anos



                Nossa estória se inicia com uma indagação simples: “Que mundo é esse que ninguém mais sabe o que é amar?”. Agora que estão pensando nessa pergunta, podem abrir seus corações para esse complexo cultural chamado “viver”. Deleitem-se com a pressa de um sonho bom, de uma fruta madura e de um copo de suco de cajarana. Com vocês “A Vagina Sem Mulher”

I. Meu eu, sempre eu: o complexo íntimo.

- ‘Sua safada!’ É sempre assim que sou chamada. Lá vem ela novamente me bater com aquele livro. Não entendo diário, sinceramente não sei onde está a culpa é eu existir. A gente sempre se dava bem, mas cá estou trancada! Presa como uma princesa que carrega a culpa de ser a mais bonita do reino. Apesar dessa vida cabeluda nessa espelunca às vezes sinto que sou a culpada, como a Esmerilda diz: “A fruta de satanás na Terra”. Ôh Deus, se você existe mesmo, me explica só uma vez o que fiz pra nascer assim sem nome, sem respeito, cheia de regras e sempre culpada por babar! Não é fácil ter desejos! Como é triste ser uma vagina.
                Como sempre, Vagina se sente mais uma vez confusa. Nunca ouviu nenhuma outra parte do corpo reclamar e nem apanhar tanto por isso. Como ela prefere entender, sua parceira Esmerilda é uma jovem virgem de 27 anos, solteira e de uma beleza singular. Freqüentadora da igreja desde onde a memória consegue chegar. Assim é Esmerilda Arruda da Cunha, uma evangélica programada para casar. Como todo ser humano, ela tem desejos. Mas sabe que deve casar casta, pura e ungida, assim como todas as mulheres de sua família. Esmerilda nunca namorou, sempre foi a piada da turma da Mocidade Evangélica, por ser pobre e ter crescido com proporções bem brasileiras. Logo na sua adolescência ganhou o apelido dentro da casa das tias: “Desenho do Cão”, não por ser feia, pelo muito pelo contrário! Possuía curvas de causar inveja e por isso viva tropeçando nas saias e outros panos para não atrair tanta atenção. Era a vergonha da família e o desejo da cidade. Talvez por tanto charme tenha sido “abençoada” com um órgão singular, uma vagina pensante! Por não pode ter amigas e viver em casa lezando, Esmerilda tinha o hábito de ficar no quintal com seus livrinhos dominicais e conversando com seu órgão. Certo dia de sol, Esmerilda notou que estava criando mais forma de mulher, seus seios estavam maiores e seus pelos pubianos brilhavam enquanto cresciam em tranças. Como ela gostaria de mostrar ao mundo tudo aquilo e foi procurar a mãe. Dona Zulema sorriu estranhamente. Sim, estranhamente, pois é daquelas mulheres amargas e mal amadas que só sentam do lado da janela para ver o movimento. E para continuar falando da vida alheia, não poderia ter nenhum podre pra ser assunto. Assim que viu a filha pelada no quintal, com suas tranças ao vento tratou de pegar a mangueira e a bíblia: A mangueira serviu de chicote e a bíblia para fingir que orava bem alto para não deixar a vizinhança ouvir a surra que ia dar na menina. Pense num cacete grande!

Depois desse fato, se passaram dois dias e Esmerilda acorda tonta, mas no fundo já estava decidida a ser a filha que a mãe sonhara. Pegou a bíblia, bateu com força a cabeça na parece e surrou sua amiga de infância, sua amada grutinha com o livro. Adquiriu esse hábito de xingar a vagina enquanto a espancava. Um ritual que se repetia sempre que via algum garoto bonito, que via novela, que passeava pr’os cultos em sítio e em cidades vizinhas. Bateu, bateu até que uma tarde comum ela pode ouvir um grito fino que dizia:
- Chega! Agora deu pra doida foi?! Eu não agüento mais!

                Esmerilda não podia estar doida, mesmo com o hábito de taca a cabeça na parede, nunca tinha ficado doida. Aquilo era como um sonho de infância, só que peludo e falante. E seu órgão em prantos dizia
- Sempre fomos amigas! Me mantive em silêncio para não te trazer nenhuma complicação. Mas até um sonho tem seu fim Esmerilda. Diga pra Dona Zulema que ela nunca vai ser avó, porque essa vagina aqui está indo viver seus próprios sonhos. Serei uma vagina astronauta e você, será apenas uma louca que mora com os pais!
                Esmerilda não sabia se ria ou se chorava. Que cachorrada era essa na vida dela. Não bastava levar grito da mãe, ter um monte de apelido, ter a cabeça cheia de galo e agora estava levando batido de sua própria vagina. Ela pensava consigo que era o diabo à convidando para um pacto de sexo e dinheiro, mas ela não era nenhuma boba. Todo domingo, desde os seus 7 até os 27 frequentava assiduamente a Escolhinha Dominical. Conhecia todas as pinturas bíblicas – Arca de Noé, Jonas e o Golias, entre outras que confundiam sua cabeça inchada –, inclusive as músicas em dois idiomas: português e “anjês”. Esmerilda preparou para espancar aquela “frutinha de satanás” quando sentiu um puxão em sua genitália. Era como se um barbeador infernal cortasse suas tranças, no que ela carinhosamente chama de via “joelho-axila”, tanto na esquerda quanto na direita. Ela decidiu então destravar sua calcinha e olhar frente a frente a sua ex-amiga. E de fato havia bracinhos e perninhas saindo de sua vulva. Saiu inclusive algo como um estojo de lápis, só que menor e com adesivos em forma de pênis. A pobre não agüentou e desmaiou de dor e de espanto. Seu último pensamento foi um misto entre soltar um pum e espirrar.

         E com apenas um tapa – não me perguntem como – a vagina acordou a jovem Esmerilda. E eis que ela grita:

- Esmerilda sua ingrata!

         A jovem ficou perplexa. Estava deitada e frente a frente com aquele ser peludo e de estatura mediana. E começam um diálogo rápido:

- Satanás você não me engana. Sei que é vermelho e chifrudo. A bíblia nunca disse que você tinha barba. Vamos, mostre seu rosto imundo. Sou ungida e vou te vencer em línguas! ~ LA LA RA LA LA RA LA RA LRA LRA LRA~

          De repente Esmerilda leva outra tapa pra ficar esperta das idéias.
- Deixa de loucura bixa doida! Sou eu, sua vagina, digo, sua ex-vagina! A partir de hoje irei viver minha própria vida. Sem suas loucuras ou os abuso de sua mãe, aquela fofoqueira mal amada. Não agüento mais seus maus tratos, não há amor que resista às humilhações que você já me fez passar. Além do mais, nem de banho você num gosta, sua praga sebosa!

- Mas eu não digo mesmo. Levando carão de uma buc..
- Diga bixinha, diga nome!
- Desculpe, quis dizer: "levando sermão de você que nem é gente?!" Se fosse mainha ou o pastor eu ficava calada, mas de você que era pra estar calada e sentada na minha calcinha? Jamais! Avia deixe de brincadeira, sei que é o diabo tentando me fazer perder meu hímen. Não quero mais saber de estória. Cuide, cuide. E ai de você se me bater de novo.

               A vagina pegou a bíblia em cima do tamborete com bastante esforço e deu duas livradas nas cara de Esmerilda que assistia tudo rindo, parecia uma “celebesté”. E esbravejou com uma lágrima escorrendo. Na verdade, várias lágrimas, quase um rio escorrendo. Ela se enxugou na blusa furada do tempo da política que Esmerilda vestia, mesmo na cara do candidato. E logo em seguida gritou:

- Jogue fora todas as suas calcinhas! Meu nome é Vagina! Ouviu bem, Vagina!!!

Berrava Vagina com toda a sua força:
- Jogue essas 'poiqueiras' fora! Livre-se dessas caçoletas! Pra ai, eu não volto mais!!! Você nunca mais vai me ver aqui! Irei pra TV, vou virar atriz, fazer filmes, novelas e depois ser presidenta! Só piso em Patu pra ser prefeita agora!

                Então Vagina se abriu e puxou um barbeador, raspou todo os seus pêlos e gritou:
- Mas antes de viver minha vida, vou me curar de você e de suas regras doidas! Irei revolucionar o planeta! Não me trate como órgão, sou muito mulher, sou uma órgã. Linda e inteligente, diferente de você. Irei ser a primeira vagina budista do mundo!

                E antes que Esmerilda pudesse digerir tanta informação, Vagina fez uma trouxinha, sacou um óculos de dentro de si e se virou com um desprezo de novela. Mandou um beijo e disse:
- Adeus! Tome um banho e se cure dessas loucuras. Ainda te amo, mas aprendi a me amar bem mais. Adeus, Esmerilda, minha amiga.

~ continua ~

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