
06 – A última carta de Ramona.
Seria um domingo normal e perfeito para os meus netos, onde almoçaríamos juntos, me contariam suas coisas de criança enquanto os pais deles se divertiriam realmente. Não que eu não goste dos meus netos, fui criada pra ter o casamento perfeito, envelhecer com saúde e de quebra ainda saber cozinhar um ou dois pratos com os temperos de minha avó, mas sinceramente ter caído e fraturado um osso desses e ter ficado no hospital descansado anda sendo um SPA. Fico deitada, vejo um pouco de televisão para matar o tempo e minha filha me deu um tocadorzinho de música onde posso reviver canções de verdade, longe do rádio e seus sucessos instantâneos. Mas o melhor de estar aqui agora é reler umas cartas antigas enquanto a ansiedade não me permite abrir a última carta que minha amiga de infância me enviou. Raimunda sempre foi pouco compreendida por todos, ou quase todos, eu sempre a admirei e nos tornamos boas amigas aos trancos e barrancos que uma amizade verdadeira tem. Dizia que fui criada para ser o modelo de esposa e por mais que discordasse, sempre aceitei o que Raimunda sempre chamou de sina. Frequentamos o mesmo colégio juntas e sempre tirava um tempinho para ouvir os disparates que ela contava. Eram planos realmente loucos, ideias bem absurdas, mas no fundo ela sempre me plantava a certeza de que ela realizaria todos. Lembro com clareza de quando ela fugiu de casa, naquela tarde, ela pediu o endereço de onde eu morava e prometemos manter contato sempre por carta, Raimunda temia ser rastreada se usa-se telefones ou afins. Atualmente ela até me envia números para ligar, mas nunca sei quando ela estará em outro estado ou país. Cresci, casei com o namorado que meus pais aprovaram e tive filhos em sequencia, mas sempre recebendo e imaginando como seria ter enfrentado a todos como minha amiga fizera. Em uma de suas viagens, ela me contou que começou o romance com um dono de circo e ele até tentara convencê-la a ser artista circense, mas o medo de ser reconhecida em e levada aos grilhões para casa a impediram. Na verdade, não lembro bem se era o dono do circo ou a mulher barbada, ou ela que havia se tornado a mulher barbada porquê havia se apaixonado pelo elefante ao qual julgava ser sua alma gêmea. Minha memória não é das melhores, mas que Raimunda juntou-se ao circo isso sim aconteceu, foi nessa época que passou a me mandar as cartas sempre tendo por remetente “Ramona”. Minha amiga sempre foi uma figura! Essa de se apaixonar pelo elefante foi em uma de suas viagens me enviou uma carta contado ter descoberto uma religião em que eles acreditavam que os elefantes eram o próximo estágio da evolução da alma. Custei a entender a ideia, mas nem sei que se ela havia acreditado então o melhor era sempre começar as minhas cartas de resposta com alguma palavra começando com “E”. Em outra carta, Ramona fala do término do relacionamento e que iria se dedicar a sua nova religião para a salvação de toda a humanidade, no ano seguinte vejo os selos do Tibet ou Nepal ou Índia, não sei, e Ramona também não contava o país que estava, apenas falava se a comida era boa ou não. Sempre abro um sorriso lendo as passagens narradas por ela, suas viagens fantásticas e tudo mais que aprendia. Soube que a mãe mandava dinheiro escondida do marido para ajudar a filha que decidiu fugir para não casar com o filho do prefeito. Estou um pouco apreensiva em ler essa carta que ela enviou no mês passado, sendo que já faz quase um ano que não dá notícias e seus telefones não funcionam mais. Discutimos até uma vez quando finalizei uma carta chamando-a de “Ramona DDD DDI” em que ela respondeu a carta apenas com palavras obscenas escritas em diversos idiomas. Ramona sempre soube como me chocar. Mas é melhor abrir a carta, espero que dessa vez ela decida me visitar já que faz 27 anos que não vem a cidade, está mais do que na hora de cessar a vida de aventuras. Assim que abro a carta, noto que não foi escrita a punho. Estou horrorizada. 30 anos reclamando de como ele desenha a letra “F” e agora vejo que nem se deu o trabalho de escrever para mim! Sinto que estou pra explodir de desgosto, mas... E se tiver acontecido algo de grave com ela? E se ela tiver morrido em alguma aventura? Será que ela tentou mesmo viaja por toda a china em um balão de ar? Meu coração acelera mais e mais a cada pensamento que me surge. Ramona querida amiga, seria essa sua última carta? Sinto-me culpada por não ter ido com você depois que minha filha teve as trigêmeas, que eu poderia estar te aconselhado e sendo o que você chamava de “voz chata da consciência” e tudo mais. As lágrimas bagunçam-me a vista, mas me preparo para o pior. Amiga, onde quer que você esteja saiba que sentirei sua falta. Me pego imaginando que tipo de elefante você irá se tornar. Oh, Deus! Minha amiguinha se foi? Enxugo o rosto molhado pelas lágrimas leio:
“ Eva,
Imagino que estranhe o tempo que faz que não lhe envio nada, mas virei missionária da Fé na Tromba Divina e por isso não ando com a mesma destreza para lhe responder. Pretendo ir ao Brasil em missão de fé, pois defendo a teoria de que quem morre aí reencarne em uma preguiça ou em uma anta, algo mais nacional. Está é a última carta que lhe escrevo vovozinha, por tanto trate de criar uma conta de e-mail.
Beijos, Ramona DDD DDI.
Obs.: Meu e-mail é plugada_n@ramona.com e não responda essa carta, blz (tudo bem)?”
Adorei!!! Kkkkkkk me estourando de rir com o final!!!! Melhor crônica/comédia de todas...
ResponderExcluirMuito obrigado pela visita ao blog e pelo comentário. Sabe o quanto gosto de ler comentário dos amigos aqui. Espero que o próximo texto também seja interessante e lhe divirta. Abração
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