
#08 – Sua/Rua Nessa
Sim, sou puta. Pensei em outras mil maneiras de me apresentar, mas não sei, não seria eu começar meu nome. Poderia dizer começar falando que sou uma profissional do sexo, mas não conheço formação acadêmica pra isso. Vê? Não sou leiga. Não é porquê tive casos e mais casos com os professores de todas as minhas escolas que eu fosse deixar de estudar, sempre dizia a eles para não complicarem minhas notas, mas que também não fossem injustos ou coisa assim. Não é porque eu tenho a consciência do superpoder social que é ter uma vagina que eu vá ficar burlando a sociedade, afinal não sou uma pessoa vazia, sou vadia. Vamos por partes, minha mãe me deu o nome de Uanessa, com o passar do tempo as vizinhas invejosas me chamavam de “Rua-nessa”, mas de tanto ser mal falada eu me apresento sempre como “Sua-nessa”, sou ótima nessas tiradas e em fazer terezas (cordas improvisadas feitas de lençóis para fugir da casa dos homens casados). Sou resolvida demais, além de meu quadril, minha personalidade também foi feita “com as mãos”. Mas vamos lá, acho que meu relato pode ser absurdo justamente por ser assim, tão bem aceito com quem eu sou. Todo tipo de argumento já me foi me dado para largar essa vida, investir apenas na minha formação profissional e largar meus extras transando por dinheiro, mas não quero. Ser advogada é bacana, mas quando o cliente é muito safado me excita e daí a única lei que me importa vai ser a do sexo que é “entre quatro paredes, tudo rola”. Vê? Outra palavra perturbadora. Quem entendeu, entendeu, quem não volte duas casas. Então, pra não desfazer com a ética da profissão, prefiro pegar casos mais simples ou de pessoas que não vão me atrair e distrair meu julgamento, porque quando sou profissional sou íntegra na parada, mas quando estou no meu hobbie procuro não confundir as coisas. Lá em casa os boatos das minhas aventuras começaram a surgir aos meus 16 anos, graças a Deus que eles demoraram dois anos pra chegar, caso contrário papai teria infartado já que ele sonhara que eu seria menina de igreja. Falando nele, quando completei 23 e estava já esperando apenas o diploma da faculdade contei pra ele que era verdade que era uma mulher-machado, mas que não fazia apenas por dinheiro, que eu não era deplorável e que prometi nunca mais sair com qualquer amigo dele. Já mamãe foi mais compreensiva. Com o passar do tempo ela até foi se divertindo com as minhas histórias, suspeito até que eu carregue um legado da família. Ser chamada de filha-da-puta nem ofende, mas filha-de-uma-puta me dói. A ideia de ser uma puta qualquer tira todo o encanto de ser aquela moreninha da pegada certa, dos seios de fruta madura e dos lábios de cinema. Engraçado são as pessoas que já tentaram me chantagear por eu ser abertamente funcionária do meu prazer, porque tipo, por mais que eu goste de sexo, não é charme que banca minha pós-graduação, a prestação do carro ou as minhas contas. Ser advogada é bacana, mas não sei trabalhar no automático. O caso tem que me atrair, tenho de acreditar em quem defendo e ter a certeza de que não vou cair de amor pelo cliente. Meu segundo maior temor é me apaixonar e o primeiro é a camisinha furar. VI certeza vez um filme de uma garota de rua que se apaixona ou é apaixonável e a vida dela vira então uma bagunça. Acredito sim que não serei jovem para sempre, que ainda vou encontrar um homem que valha eu parar minhas diversões libertinas ou que também curta uma diversão assim, tipo um bacanal de emoções, mas enquanto o homem perfeito não aparece, vou procurando os errados que tenham dinheiro e usem fio dental regularmente, porquê nada pior que no pós sexo descobrir que fiquei com a vagina fedendo a boca. Boa noite.
Comentário resumido: A-D-O-R-O gente bem resolvida.., #only
ResponderExcluirObrigado pela visita e pela leitura. O que dizer das putas, não é? São seres míticos de nossa sociedade rs.
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