terça-feira, 5 de março de 2013

A Vagina Sem Mulher: Cap. IV

♪ Nada ficou no lugar, eu quero quebrar essas xícaras, eu vou enganar o diabo [...]
Que é pra ver se você volta...Que é pra ver se você vem... VAGINA!


"Era então você." Pensava Vagina enquanto refletia sobre quem ela tanto procurava, por quem ele tanto lutara nessa estrada de terra e de gente feia. Enquanto as pessoas corriam para apartar a briga na outra rua, Vagina e Suzana se viam presas uma na outra, como os lábios - grandes e pequenos -  de uma flor vaginal. Ambas sentiam-se completadas, ali mesmo no sol quente de Campo Grande, a beira de um bar e já altas pelo odor do meio-dia.

Suzana que por pouco não foi picotada por uma vagina armada, estava agora sentindo-se completa. Estranhamente feliz e não entendia muito bem o que sentia. Sempre gostara de homens - até mais do que pudesse imaginar - e estava ali com uma vaginazinha peluda e molhada, salgando todo o seu corpo, mas mesmo assim sentia como se fosse a sua própria órgãzinha. Ela pensara consigo mesma que estava delirando, mas a emoção era válida. Lembrou da vez que tentou fazer anal, como não sentiu prazer algum, mas a experiência foi válida para descobrir como era feliz sendo mulher. Ela ria sozinha, não sabia quanto tempo aquele abraço duraria, mas sabia em seu íntimo, naquele oco que os médicos preencheram com carne de suas coxas, que aquilo não duraria para sempre. Estaria certa?

Enquanto isso em Patu/RN, em algum lugar no Bairro do Cemitério

Em uma daquelas manhãs simples, Esmerilda é acordada com os gritos da mãe. Ela estava rindo da filha de uma das comadres que ela tinha na Igreja. A menina tinha deixado um bilhete para a mãe dizendo que estava grávida do leiteiro, já tinha feito anal com o pastor e estava fugindo para Santa Catarina com um redeiro. Dona Zulema se mijava de tanto rir. Não bastava ela ser uma crente faladeira, tinha que ser falsa pra variar. Ah como ela estava se divertindo com a desgraça alheia. Esmerilda, que depois de ter perdido a vagina estava decidida a ser uma pessoa pensante, não concordava com as atitudes da mãe e disse:

- Ah coisa feia mãe! Dona Wanda nera sua comadre?

Pra quê ela foi ter uma opinião? A mãe pirou na batatinha! Como assim Esmerilda tendo idéias e opiniões próprias? E o pior, chamando a mãe de feia. Dona Zulema teve um mix de vergonha e desgosto e decidiu ir para o hospital. Sentia-se fraca e doida, mas no caminho, uma das várias pragas que ela tinha jogado na vizinha caiu sobre ela. A filha de outra comadre sua, que tinha virado caminhoneira, passou por cima dela, assim como tinha desejado que tivesse sido uma outra "amiga" que conheceu em um culto no Patu de Fora. 
Esmerilda mau podia acreditar no que via ali no chão. Sua pobre e faladeira mãe estava morta. Foi como sentir que seu mundo caia. Por mais que sofresse de tudo, mas mãe a gente só tem uma, mesmo que seja uma madrasta, mas era isso.  Estava só, orfã de mãe e vagina. Não sabia o que fazer, mas sabia que já era forte o bastante para não se render. "Que vida cruel!" pensava ela enquanto alguém do outro lado da rua soltava fogos.

meses depois...

Esmerilda tinha passado seus últimos meses divida entre sair da igreja, viajar pra casa das tias e tentar recomeçar, matricular-se na escola e arrumar um alguém que a cuidasse e mal tratasse, assim como fazia a sua saudosa e madrastenta mãe. Acordar sem os gritos da mãe era algo que a fazia pensar em tudo e até mesmo no nada. Como alguém podia se acostumar a ser maltratada? Esmerilda sabia consigo que não iria terminar como a mãe e tampouco não ter tido nem a família no velório. Ser amarga, falsa e faladeira são adjetivos - sim, ela já estava frequentando a escola. - que não são tão bons para se fazer amigos. Com a ajuda do filho do pastor de sua igreja, que era advogado recém formado, ela conseguiu um benefício do INSS por ser sozinha no mundo e vendeu umas terras que herdou da mãe. Ela arrumara a casa, decidiu comprar um computador e dar aulas de bordado e ponto cruz. Fez algumas bonecas de pano e tornou a sala de sua casa uma creche para as vizinhas. Decidiu que viveria, trabalharia e estudaria. Estava conquistando a sua vizinhança. Cumprimentava à todos na rua, não comprava fiado e não saia. Mesmo não indo religiosamente à igreja, ainda tinha o apoio de algumas das ex-comadres de sua finada mãe, vez por outra alguém a visitava de tarde. Eram dias novos na vida da nossa pequena nordestina. Mas as poucos foi se tornando uma "ser humana". Tinha seu dinheirinho do governo, uma casa, trabalhava e estudava. Não era a mais esquisita da rua e nem mesmo apenas a filha da bruxa, era a Ilda. Uma jovem dona de casa, boa pessoa e respeitada até entre os bandidos da rua que conheciam sua triste sina. 

Ilda estava firme em seus próprios pés, iniciando sua nova história. Com o dinheiro das aulinhas e das crianças que cuidava, pôde ir todas as semanas a Umarizal, cidadezinha próxima a Patu, para pagar as disciplinas. Rapidamente chegou a fazer o supletivo de 6º e 7º anos do Ensino Fundamental. Estava pensando em fazer faculdade. Queria ser enfermeira veterinária ou vaginóloga ou psicovaginista. Decidiu ir atrás do que podia para se reconstruir. Estava decidida a ser capitã de sua própria vida. Comprou roupas novas e decidiu depilar as pernas. Cortou seus longuíssimos cabelos que passavam dos quadris até o ponto de ficar batendo em seus cotovelos. "Que sensação louca" pensava ela consigo.

Comprou uma traxx e decidiu lutar por tudo. Por sua feminilidade, seus estudos, seu reconhecimento social e por sua vagina perdida. Em pouco tempo ela estava já bem famosa na cidade. Havia dado várias entrevistas aos blogs locais, conseguiu alguns patrocínios das redes de supermercado locais e por muita piedade da população foi eleita Conselheira Tutelar após ter ganho seu certificado de Ensino Médio de um velho vereador aposentado de queria se "amigar" com ela. Ilda, era tudo que sempre sonhava: famosa, independente, assalariada e desejada por alguém. Só lhe restava um vazio. Vazio esse que brotava do seu peito e ia até o meio de suas grossas e depiladas pernas. Sentia falta de sua amiga e vez por outra pensava no que sua mãe diria se a visse tão amada. Com certeza a chamaria de rapariga e a lavaria na máquina de roupas. Já estava chegando setembro no Pé de Serra. As festividades da festa da padroeira estavam se aproximando, a cidade toda se enfeitava e ela em casa, com medo de ir para algum retiro da igreja que frequentara toda a antiga vida OU se iria brincar com parque com a desculpa de dizer que estava conferindo se era realmente seguro. O desejo de encontrar sua amiga-membra-órgã estava cada vez maior. Aproveitou as festividades e que se aproximavam e decidiu: 

- "Esse mês vou em busca de você Vagina! Mas, onde será que você está?" 

E nisso ficou na janela da sua casa olhando a lua tentar ver se algo peludinho estava correndo por lá e fincando alguma bandeira.

- Proxímo capítulo saberemos o que aconteceu nesse meio tempo com Vagina e Suzana - 
- Emoções finais de nossa novelinha - 
- Desculpem a preguiça de escrever- 
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