Nenhuma segunda-feira merecia sofrer tanto. Sexta passada o telefone de Paulo recebia uma última vez uma mensagem de Amanda. Há meses tudo estava muito estranho entre eles, mas ele nunca foi de entender sinais. Família, amigos e escola se tornaram lembranças de uma outra vida. Uma em que o pensamento chave do dia não era saciar seu desejo por um pouco mais de heroína. Amanda tentou por meses convencê-lo a saírem desse caminho escuro e vazio. Ela sempre o viu com olhos melhores do que os dele que por sua vez não estava mais enxergando nada além de sua necessidade. O poço já não parecia ter fim. O último final de semana Paulo sofreu sua segunda overdose, mas a primeira sem sua amiga. Paulo nunca foi de entender sinais. Amanda largou sua boa vida para tentar tirá-lo dessa latrina, mas ele não conseguiu. Seus pensamentos estão dando voltas enquanto percebe que além daquela mensagem de adeus há apenas o vazio que Amanda deixou. Pensara consigo que deveria ter procurado por ela, dito mais uma vez que estava tudo sob controle e que ela era a única, talvez a última pessoa em sua vida. Naquele cruzamento da principal, Amanda já não está deitada pedindo comida para eles dois. Do alto daquela passarela Paulo confundia o sal de suas lágrimas com as gotas que a chuva jogava em seu rosto magro e sujo. Entre a saudade e a abstinência, ele entendeu que há meses o corpo de Amanda fora levado. Quem liga para outro viciado que assola as ruas dessa cidade? Quem agora estaria com aquele celular com a despedida de Amanda? Já caminhava para o quase noite e já nada mais importava. Ele, que nunca foi o melhor em entender sinais,sorriu ao ouvir a estranha risada de sua companheira em uma buzinada dos carros que seguiam em suas pressas para lugar nenhum. Ele gostaria de sentir naquele momento ela o abraçando ou dizendo eles deveria procurar ajuda. Ela sonhava sempre. Ele sempre a achou estranha. Estranho agora era a falta dela. O trovão de agora a pouco reuniu naquele corpo amassado a última partícula de desespero. Paulo jogou-se e no último instante de sua desolação lembrou, sorriu e aceitou que ela não errou o próprio nome na mensagem daquela sexta."A gnt precisa de ajuda. Essa num da mais. Qro outra vida pra ser .amada. bjos".

Me fez lembrar de um episódio de Breaking Bad. Duas pessoas compartilhando o mesmo vício, uma delas consegue enxergar o mal das seringas e tenta fugir, a outra não tem a mesma força de vontade. O final já dá pra imaginar no que vai dar.
ResponderExcluirQue conto maravilhoso, nos faz refletir sobre a fugacidade da vida e como não enxergamos os sinais pelo caminho, ótima leitura! Parabéns!
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