sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

A desolação de Paulo



Nenhuma segunda-feira merecia sofrer tanto. Sexta passada o telefone de Paulo recebia uma última vez uma mensagem de Amanda. Há meses tudo estava muito estranho entre eles, mas ele nunca foi de entender sinais. Família, amigos e escola se tornaram lembranças de uma outra vida. Uma em que o pensamento chave do dia não era saciar seu desejo por um pouco mais de heroína. Amanda tentou por meses convencê-lo a saírem desse caminho escuro e vazio. Ela sempre o viu com olhos melhores do que os dele que por sua vez não estava mais enxergando nada além de sua necessidade. O poço já não parecia ter fim. O último final de semana Paulo sofreu sua segunda overdose, mas a primeira sem sua amiga. Paulo nunca foi de entender sinais. Amanda largou sua boa vida para tentar tirá-lo dessa latrina, mas ele não conseguiu. Seus pensamentos estão dando voltas enquanto percebe que além daquela mensagem de adeus há apenas o vazio que Amanda deixou. Pensara consigo que deveria ter procurado por ela, dito mais uma vez que estava tudo sob controle e que ela era a única, talvez a última pessoa em sua vida. Naquele cruzamento da principal, Amanda já não está deitada pedindo comida para eles dois. Do alto daquela passarela Paulo confundia o sal de suas lágrimas com as gotas que a chuva jogava em seu rosto magro e sujo. Entre a saudade e a abstinência, ele entendeu que há meses o corpo de Amanda fora levado. Quem liga para outro viciado que assola as ruas dessa cidade? Quem agora estaria com aquele celular com a despedida de Amanda? Já caminhava para o quase noite e já nada mais importava. Ele, que nunca foi o melhor em entender sinais,sorriu ao ouvir a estranha risada de sua companheira em uma buzinada dos carros que seguiam em suas pressas para lugar nenhum. Ele gostaria de sentir naquele momento ela o abraçando ou dizendo eles deveria procurar ajuda. Ela sonhava sempre. Ele sempre a achou estranha. Estranho agora era a falta dela. O trovão de agora a pouco reuniu naquele corpo amassado a última partícula de desespero. Paulo jogou-se e no último instante de sua desolação lembrou, sorriu e aceitou que ela não errou o próprio nome na mensagem daquela sexta."A gnt precisa de ajuda. Essa num da mais. Qro outra vida pra ser .amada. bjos".
Comentários
2 Comentários

2 comentários:

  1. Me fez lembrar de um episódio de Breaking Bad. Duas pessoas compartilhando o mesmo vício, uma delas consegue enxergar o mal das seringas e tenta fugir, a outra não tem a mesma força de vontade. O final já dá pra imaginar no que vai dar.

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  2. Que conto maravilhoso, nos faz refletir sobre a fugacidade da vida e como não enxergamos os sinais pelo caminho, ótima leitura! Parabéns!

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