quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

O entre-sol de Maria.


Maria sentara na janela e acendia outro cigarro. O rosto já não tinha o mesmo semblante de quem conquistava um sonho a cada dia. Já não percebia a felicidade daquele momento vendo o sol se pôr. Ou seria amanhecendo? Para quem aquilo serviria, não é? Ela desembaraçava seus volumosos cachos enquanto, com a graça que a pratica lhe trouxera, prendia o cigarro em seus lábios carnudos. Tudo aquilo já fora poesia. Simplesmente ela sentia-se marginalizada pela própria dor. Maria agora estava ali aguardando que aquele cigarro não partisse antes dela. Frente a toda aquela cena, talvez houvesse algum sentido. Quem sabe a ensurdecedora sinfonia de um engarrafamento não fosse um anjo e sua lira. Faltava muito pouco para o último trago. Mas depois de tanta dor, ela desistiu. Ecoou em sua mente, como a primeira gota de chuva que recebemos no rosto, a memória de um taxista qualquer onde, meio a tanta gente, martelou no ar frio de uma tarde nublada que a saudade é para aqueles que ficam. Maria conheceu o seu último palco na calçada fria e úmida do prédio onde residia. 
Comentários
5 Comentários

5 comentários:

  1. Maria soube curtir a vida e seu último cigarro. A morte encontrou-a no estilo Raul Seixas em sua música "Canto para minha morte". Gostei da Maria, apesar de sua curta relação comigo nessas poucas linhas.

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  2. Morre em meu peito uma Maria por dia. A certeza do fim nos parece tão distante na juventude que morrer diariamente nem é tão assustador. Espero que meu "último trago" de vida me faça encontrar o fim num grande orgasmo. Amei o texto, Lelebe!

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  3. Ainda que árduo e doloroso, Maria "deliciou" todo o seu cigarro, e identificou a hora do fim, e soube quando as coisas não estavam mais valendo a pena, e reconheceu as que valeram, e entendeu o seu fim, e aceitou o seu fim. Ou apenas, talvez para ela, o fim era senão o recomeço, a melhor das hipóteses que poderia lhe ocorrer naquele momento.

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  4. O fim e toda essa reflexão que ele nos traz. Ah, amo sua escrita! Belo texto, obrigada por isso.

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